“Cuba precisa da ação e do apoio de todos”

Lina Noronha analisa os efeitos do bloqueio econômico dos Estados Unidos, alerta para o agravamento da crise humanitária na ilha e rebate acusações contra o sistema político cubano

O programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas no dia 28 de maio, recebeu a jornalista e apresentadora do programa Cubanias, Lina Noronha, para uma ampla análise sobre a situação de Cuba diante do endurecimento das sanções impostas pelos Estados Unidos. Durante a entrevista, a convidada discutiu os impactos do bloqueio econômico, as recentes ameaças de intervenção militar, a crise energética enfrentada pela ilha e os desafios da soberania cubana.

Ao longo da conversa, Lina defendeu que o país vive atualmente uma das fases mais difíceis desde o chamado Período Especial, agravada pelo recrudescimento das medidas adotadas durante os governos de Donald Trump e mantidas pela atual política externa norte-americana. Segundo ela, o bloqueio deixou de ser apenas uma disputa diplomática e passou a produzir consequências humanitárias concretas para milhões de cubanos.

Ameaças de invasão voltam ao debate

Um dos temas centrais da entrevista foi a declaração da governadora de Porto Rico, Jennifer González Colón, aliada política de Donald Trump, que afirmou que os Estados Unidos poderiam realizar uma ação militar contra Cuba.

Para Lina Noronha, embora o risco não possa ser completamente descartado, a declaração tem características mais próximas de uma estratégia de intimidação política do que de um anúncio concreto de operação militar.

A apresentadora destacou que setores da extrema direita cubano-americana radicados nos Estados Unidos mantêm, há décadas, uma postura favorável a ações de força contra a ilha.

“Eles são de um ódio que a gente pode comparar à nossa extrema direita. São pessoas que pedem invasão do seu próprio país”, afirmou.

Segundo ela, parte desses grupos descende das elites econômicas que perderam propriedades e privilégios após a Revolução Cubana de 1959 e que continuam atuando politicamente para tentar reverter as transformações promovidas pelo processo revolucionário.

Acusações contra Raul Castro são classificadas como lawfare

Outro assunto debatido foi a decisão da Justiça dos Estados Unidos de acusar criminalmente o ex-presidente Raul Castro e outras autoridades cubanas por um episódio ocorrido em 1996, envolvendo a derrubada de aeronaves do grupo Hermanos al Rescate.

Lina classificou a iniciativa como mais um exemplo de lawfare internacional, conceito utilizado para definir o uso de instrumentos jurídicos com objetivos políticos.

Segundo a entrevistada, o histórico do grupo envolvido é frequentemente omitido pela narrativa oficial norte-americana. Ela lembrou que a organização realizou diversas incursões no espaço aéreo cubano e possuía ligações com atividades hostis ao governo da ilha.

“É mais uma farsa, um teatro”, afirmou ao comentar as acusações apresentadas pelas autoridades norte-americanas.

Democracia cubana sob questionamento

Questionada sobre as frequentes acusações de que Cuba seria uma ditadura, Lina argumentou que existe desconhecimento sobre o funcionamento do sistema político cubano.

Ela explicou que o modelo institucional da ilha difere dos sistemas multipartidários tradicionais e possui mecanismos próprios de participação popular nas decisões legislativas e administrativas.

“A democracia é pensada de outra forma que não essa democracia burguesa que a gente tem aqui”, declarou.

A entrevistada ressaltou que mudanças legislativas importantes costumam ser submetidas a amplos processos de consulta popular e afirmou que a população participa diretamente de diversas etapas do sistema político.

Durante a conversa, Lina também mencionou uma conhecida resposta atribuída a Raul Castro sobre a existência de apenas um partido em Cuba. Segundo ela, o ex-presidente ironizou a crítica ao afirmar que a diferença entre democratas e republicanos nos Estados Unidos seria semelhante à criação de dois partidos liderados por integrantes da mesma família revolucionária cubana.

Crise energética agrava dificuldades cotidianas

A parte mais extensa da entrevista foi dedicada à situação econômica e energética enfrentada atualmente pela ilha.

Lina explicou que o bloqueio tem impedido a chegada regular de petróleo e de peças necessárias para a manutenção das usinas termoelétricas cubanas. Segundo ela, as restrições afetam diretamente a geração de energia e provocam apagões que chegam a durar mais de 20 horas em algumas regiões.

“A gente ainda tem falta de eletricidade com muita frequência”, relatou.

Ela destacou que a China tem colaborado com projetos de expansão da energia solar em Cuba, incluindo a instalação de painéis fotovoltaicos em larga escala. Contudo, afirmou que a transição energética exige tempo e investimentos que o país tem dificuldade de realizar sob o atual regime de sanções.

Ajuda internacional tenta aliviar situação

Durante a entrevista foram citadas iniciativas recentes de solidariedade internacional.

A China enviou milhares de toneladas de arroz e anunciou novos recursos financeiros para apoiar a ilha. O governo da Colômbia também se comprometeu a enviar alimentos, enquanto o Brasil realizou doações de medicamentos e vacinas.

Apesar dessas iniciativas, Lina avaliou que a ajuda humanitária não resolve o problema estrutural criado pelo bloqueio.

“O cidadão cubano tem o direito de viver da maneira que escolheu, com o governo que decidiu ter. E eles não têm esse direito”, afirmou.

Segundo ela, a principal demanda do governo cubano atualmente é o fim das restrições econômicas que dificultam o acesso a combustíveis, alimentos, medicamentos e equipamentos essenciais.

A ameaça que Cuba representa

Ao responder por que os Estados Unidos mantêm uma política tão agressiva em relação a Cuba, Lina rejeitou a ideia de que a ilha represente qualquer ameaça militar real.

Para a entrevistada, o principal motivo da hostilidade norte-americana é político e simbólico.

Ela argumentou que a existência de um país socialista que resistiu por décadas às pressões econômicas e geopolíticas dos Estados Unidos funciona como exemplo alternativo para outros povos da América Latina.

“A ameaça é simbólica, é ideológica”, resumiu.

Lina também destacou avanços científicos desenvolvidos por Cuba, incluindo pesquisas na área da saúde e novos tratamentos médicos que enfrentam dificuldades para alcançar outros mercados em razão das restrições impostas ao país.

Solidariedade internacional

Nas considerações finais, a apresentadora do Cubanias fez um apelo para que governos, movimentos sociais e organizações internacionais ampliem a mobilização em defesa da soberania cubana.

Segundo ela, a situação atual exige não apenas ajuda humanitária emergencial, mas também pressão política para o encerramento das sanções econômicas.

“Cuba precisa da ação e do apoio de todos”, concluiu.

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