“Não vai ser um passeio no parque”

Programa “Antes que acabe o mês” analisa cenário político nacional, disputa eleitoral no Ceará, avanço da pauta do fim da escala 6×1, investigações envolvendo o bolsonarismo e os desafios internacionais do período

A edição de maio do quadro “Antes que acabe o mês”, exibido no programa Democracia no Ar, reuniu a professora de Filosofia Sandra Helena e o professor da Universidade Federal do ABC, Victor Marques, para um balanço crítico dos principais acontecimentos políticos, econômicos e sociais do período. A mediação foi da jornalista Sara Goes. O debate abordou desde a conjuntura eleitoral cearense até temas internacionais, passando pelas recentes revelações envolvendo a família Bolsonaro, a aprovação do fim da escala 6×1 na Câmara dos Deputados e os primeiros posicionamentos do Papa Leão XIV.

Ao longo da conversa, os participantes defenderam a importância de analisar os acontecimentos para além das manchetes, conectando fatos aparentemente isolados aos processos históricos, econômicos e sociais mais amplos que moldam a realidade brasileira e internacional.

“Não vai ser um passeio no parque”

Ao comentar o cenário político do Ceará para as eleições de 2026, Sandra Helena avaliou que a disputa tende a ser muito mais equilibrada do que parte das pesquisas tem sugerido. A professora criticou o que chamou de “pesquisismo”, fenômeno em que levantamentos eleitorais passam a pautar a própria cobertura política.

Segundo ela, embora o retorno de Ciro Gomes ao centro das especulações eleitorais tenha provocado forte repercussão, há sinais de fortalecimento do campo governista, impulsionados por indicadores econômicos e sociais positivos.

“Não vai ser um passeio no parque”, afirmou Sandra, ao defender que a disputa será marcada pela associação inevitável entre os cenários estadual e nacional.

Ela citou a redução da pobreza, o aumento da renda das famílias cearenses, os investimentos em saúde pública, educação e segurança como fatores que podem influenciar o comportamento do eleitorado nos próximos meses.

Victor Marques concordou que o governador Elmano de Freitas parte de uma posição competitiva, apoiado pela estrutura administrativa, pela força da marca do PT e pela ampla rede de prefeitos aliados. Ainda assim, observou que Ciro Gomes permanece como um adversário politicamente qualificado.

“Será um adversário formidável”, avaliou o professor, ressaltando a capacidade de articulação e comunicação do ex-governador.

Intercept e as revelações sobre o bolsonarismo

Outro tema central do programa foi a repercussão das reportagens publicadas pelo portal The Intercept Brasil envolvendo o empresário Daniel Vorcaro e suas relações com integrantes da família Bolsonaro.

Sandra Helena fez uma defesa enfática do jornalismo investigativo independente e atribuiu ao Intercept um papel semelhante ao desempenhado durante a divulgação da chamada Vaza Jato.

Para ela, as novas revelações expõem vínculos políticos e financeiros que ajudam a compreender movimentações recentes da extrema direita brasileira.

A professora argumentou que os desdobramentos das investigações tornam mais difícil dissociar lideranças regionais dos impactos nacionais provocados pelas denúncias.

Victor Marques também considerou que as revelações fragilizam especialmente o senador Flávio Bolsonaro, cuja projeção política, segundo ele, depende fortemente da influência exercida pelo pai sobre o campo bolsonarista.

A aprovação do fim da escala 6×1

Um dos momentos mais celebrados pelos debatedores foi a aprovação, na Câmara dos Deputados, da proposta que reduz a jornada de trabalho e elimina a escala 6×1.

Victor Marques classificou a votação como uma das conquistas mais relevantes do movimento trabalhista brasileiro nos últimos anos. Segundo ele, a pauta nasceu das experiências concretas da classe trabalhadora e ganhou força por meio das redes sociais e da mobilização popular.

O professor destacou o papel do movimento VAT (Vida Além do Trabalho), liderado inicialmente por Rick Azevedo, e o trabalho parlamentar da deputada federal Érica Hilton.

“A redução da jornada de trabalho é um passo na direção do socialismo”, afirmou.

Para Victor, o debate recoloca no centro da política a disputa pelo tempo livre, uma reivindicação histórica dos movimentos operários desde o século XIX.

Sandra Helena observou que a votação produziu imagens simbólicas marcantes dentro do Congresso Nacional, revelando mudanças importantes na correlação de forças políticas e sociais do país.

Brasil alcança novo patamar de desenvolvimento humano

Outro destaque citado pelos participantes foi a entrada do Brasil na faixa de países de desenvolvimento humano elevado, segundo indicadores internacionais.

Sandra ressaltou que a melhora do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) está associada principalmente aos avanços em educação e renda.

Na avaliação da professora, o resultado reflete efeitos acumulados de políticas públicas implementadas ao longo dos últimos ciclos de governos progressistas.

Ela criticou o espaço reduzido que a conquista recebeu em parte da imprensa tradicional e argumentou que o tema mereceria maior destaque no debate público nacional.

Papa Leão XIV e o confronto com as Big Techs

No plano internacional, os debatedores dedicaram atenção especial aos primeiros movimentos do Papa Leão XIV.

Victor Marques observou que havia receio entre setores progressistas diante da escolha de um pontífice nascido nos Estados Unidos. Entretanto, segundo ele, as primeiras manifestações públicas indicam continuidade de diversas preocupações sociais presentes no papado de Francisco.

O professor destacou críticas do novo papa ao poder das grandes empresas de tecnologia, ao avanço desregulado da inteligência artificial e às formas contemporâneas de concentração econômica.

Para Victor, a posição do Vaticano representa também uma crítica indireta à crescente influência política exercida pelas Big Techs sobre o governo norte-americano.

Sandra Helena acrescentou que o debate sobre inteligência artificial deixou de ser apenas tecnológico e passou a envolver questões éticas, econômicas e geopolíticas relacionadas à regulação dos mercados digitais e ao papel dos Estados nacionais.

Esperança em tempos de crise

Na conclusão do programa, Sandra Helena afirmou que o objetivo do quadro é justamente enfrentar as narrativas de fatalismo e desesperança que dominam parte do debate contemporâneo.

Segundo ela, mesmo diante de crises econômicas, conflitos internacionais e transformações profundas nas sociedades, existem processos políticos capazes de alterar a realidade.

“Há um mundo em desmoronamento e um mundo novo lutando para emergir”, sintetizou a professora ao defender uma leitura crítica, mas não resignada, dos acontecimentos.

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