Da extinção ao fenômeno pop: como as capivaras voltaram ao Ceará e podem se tornar uma febre

Durante quase meio século, encontrar uma capivara no Ceará era praticamente impossível. Considerada extinta no Estado desde a década de 1970, a espécie reapareceu discretamente no início dos anos 2000, multiplicou sua presença ao longo da última década e agora vive um momento curioso: enquanto autoridades tentam entender como lidar com sua expansão, o maior roedor do mundo virou celebridade nas redes sociais, inspira produtos, atrai visitantes e pode se transformar em uma das grandes marcas afetivas da fauna cearense.

A história é marcada por uma ironia. O animal que desapareceu da paisagem cearense durante gerações reaparece justamente em um período de profundas transformações econômicas, urbanas e ambientais. A coincidência levanta uma pergunta que começa a chamar a atenção de pesquisadores: até que ponto o novo Ceará ajudou a criar as condições para o retorno das capivaras?

Quase cinco décadas de ausência

Em 1973, o pesquisador Melquíades Pinto Paiva registrava que as capivaras haviam praticamente desaparecido do território cearense. Durante décadas, elas permaneceram apenas na memória de moradores mais antigos e nos registros científicos.

O cenário começou a mudar a partir dos anos 2000. Pequenos grupos passaram a ser observados em lagoas, rios e açudes da Região Metropolitana de Fortaleza. Hoje, registros são frequentes em municípios como Fortaleza, Eusébio, Aquiraz, Maranguape e Boa Viagem, entre outros. Ao mesmo tempo, especialistas reconhecem que o Estado ainda não dispõe de um levantamento capaz de indicar quantos animais existem nem como a população está distribuída.

O desenvolvimento pode ter ajudado a espécie

Existe uma hipótese que merece atenção: o próprio processo de desenvolvimento pode ter criado ambientes extremamente favoráveis para a espécie. Nas últimas duas décadas, o Ceará passou por uma intensa transformação. Novos parques urbanos foram implantados, lagoas passaram por processos de recuperação, condomínios preservaram espelhos d’água como parte do paisagismo e áreas irrigadas se expandiram em diversas regiões.

Para uma espécie que depende de água permanente, gramíneas abundantes e poucos predadores naturais, essa nova paisagem pode representar um habitat ideal.

Em vez de desaparecer diante da urbanização, como acontece com muitos animais silvestres, a capivara parece fazer parte de um grupo de espécies que consegue aproveitar ambientes modificados pelo ser humano.

Uma hipótese ainda em construção

Os pesquisadores também trabalham com outras explicações para o reaparecimento das capivaras. Entre elas estão possíveis reintroduções clandestinas, fugas de criadouros particulares, solturas irregulares e a ausência de grandes predadores naturais. Até o momento, não existe consenso sobre qual desses fatores teve maior peso. A tendência é que o fenômeno resulte da combinação de vários elementos, e não de uma única causa.

Essa ausência de respostas ajuda a explicar por que órgãos ambientais e o Ministério Público defendem a produção de estudos mais amplos sobre a população de capivaras no Estado.

Entre o conflito e o fascínio

O aumento da população já provoca desafios concretos. Produtores rurais relatam prejuízos em plantações. Municípios registram grupos vivendo próximos a áreas urbanas. Especialistas acompanham possíveis impactos sobre a saúde pública e discutem estratégias de manejo.

Ao mesmo tempo, a percepção da sociedade caminha em outra direção. A capivara se tornou um fenômeno cultural. Ela aparece em pelúcias, roupas, canecas, mochilas, acessórios, cafeterias temáticas e até inspira atrações voltadas ao turismo. O animal ganhou status de mascote informal da internet e passou a despertar simpatia entre crianças e adultos.

O contraste é evidente. Enquanto gestores públicos discutem como administrar uma população em expansão, comerciantes enxergam uma oportunidade econômica e consumidores transformam o animal em objeto de afeto.

De animal desaparecido a símbolo do Ceará

Se a tendência de crescimento continuar, as capivaras poderão ocupar um espaço semelhante ao de outros símbolos naturais associados ao Ceará. Isso não significa ignorar os desafios ambientais. Pelo contrário. Quanto maior a convivência entre seres humanos e fauna silvestre, maior será a necessidade de políticas públicas baseadas em pesquisa científica, monitoramento e educação ambiental.

Mas há uma mudança simbólica em curso: durante décadas, a pergunta era por que as capivaras desapareceram do Ceará. Agora, a discussão começa a ser outra: como um animal considerado extinto há quase cinquenta anos voltou a ocupar rios, lagoas e parques e, ao mesmo tempo, conquistou lugar na cultura popular e no imaginário de uma nova geração de cearenses.

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