Governo pressiona Senado para votar fim da escala 6×1 ainda nesta semana

Da Redação

José Guimarães afirma que proposta que reduz jornada máxima para 40 horas semanais é a “prioridade das prioridades” do governo Lula. PEC já foi aprovada em dois turnos pela Câmara e agora enfrenta sua batalha decisiva no Senado.

O governo Lula decidiu concentrar força política para tentar fazer o Senado votar ainda nesta semana uma das mudanças trabalhistas mais importantes das últimas décadas: o fim da escala 6×1 e a redução da jornada máxima de trabalho para 40 horas semanais.

O ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, afirmou nesta segunda-feira (10) que a proposta será o principal tema levado pelo governo à negociação com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. A articulação ocorre durante a semana de esforço concentrado do Congresso, em pleno calendário eleitoral de 2026.

“Principalmente o fim da escala 6×1, que é a prioridade das prioridades do governo”, declarou Guimarães em entrevista à TV 247. O ministro afirmou que o assunto será discutido diretamente com Alcolumbre e com as lideranças do Congresso nesta terça-feira (11).

A ofensiva acontece depois de uma vitória expressiva na Câmara. A PEC 8/2025 já foi aprovada pelos deputados em dois turnos, em 27 de maio, estabelecendo o fim da escala 6×1 e jornada máxima de 40 horas semanais. A ficha oficial da Câmara confirma a aprovação e o avanço da proposta.

Agora, o centro da disputa política está no Senado.

Segundo Guimarães, o governo pretende aproveitar a janela desta semana porque o próximo esforço concentrado do Congresso está previsto apenas para o fim de setembro, já muito próximo das eleições de outubro. As votações desta rodada poderão ocorrer entre terça-feira e quinta-feira.

Para milhões de trabalhadores, portanto, os próximos dias poderão definir se uma reivindicação que nasceu nas ruas e nas redes sociais conseguirá atravessar uma das últimas grandes barreiras institucionais.

Uma mudança histórica na jornada de trabalho

A escala 6×1 permite uma organização na qual o trabalhador cumpre seis dias de serviço para apenas um de descanso. Sua contestação transformou-se nos últimos anos em um movimento social de alcance nacional e levou o debate sobre jornada de trabalho para o centro da política brasileira.

A questão ultrapassa a quantidade abstrata de horas registradas em uma folha de ponto.

Para quem depende de transporte público e passa horas diariamente entre casa e trabalho, uma jornada extensa significa menos convivência com os filhos, menos descanso, menor possibilidade de qualificação profissional e uma parcela muito menor da própria vida disponível para atividades que não estejam subordinadas ao emprego.

É por isso que o debate sobre a 6×1 rapidamente deixou de ser exclusivamente trabalhista.

Ele se tornou uma discussão sobre tempo de vida.

A proposta aprovada pela Câmara estabelece jornada máxima de 40 horas semanais. O texto aprovado prevê uma transição para a nova regra, em vez de uma mudança abrupta.

Essa solução foi construída depois de negociações que envolveram governo, Congresso e setores empresariais. Guimarães lembrou que, durante a tramitação na Câmara, houve diálogo com representantes das empresas e que parte delas já trabalha com modelos equivalentes à escala 5×2.

O debate econômico, entretanto, permanece.

Setores empresariais argumentam que a redução da jornada pode elevar custos, especialmente em atividades intensivas em mão de obra e empresas menores. Já os defensores da mudança sustentam que ganhos de produtividade, reorganização das escalas e melhoria das condições de trabalho podem permitir a adaptação, além dos benefícios sociais decorrentes da ampliação do descanso.

Essa discussão deverá reaparecer com força no Senado.

Senado tornou-se a barreira decisiva

A Câmara já cumpriu sua etapa. Em maio, aprovou a PEC nos dois turnos exigidos para uma alteração constitucional.

No Senado, porém, a tramitação encontrou maior resistência.

Em junho, Davi Alcolumbre sinalizou que a proposta passaria por comissão e que não pretendia acelerar sua análise. Naquele momento, representantes empresariais também pressionavam para que a votação fosse adiada para depois das eleições de outubro.

É justamente esse quadro que o governo tenta modificar agora.

Guimarães afirmou que haverá reunião nesta terça-feira, às 9h, com líderes governistas da Câmara e do Senado e, posteriormente, negociações com outras lideranças do Congresso. Uma conversa específica com Alcolumbre deverá definir quais matérias efetivamente serão colocadas em votação.

O próprio ministro reconheceu que a inclusão da PEC na pauta ainda não está garantida.

Esse ponto é fundamental: o governo quer votar, mas a decisão sobre a pauta depende do Senado.

Guimarães acredita, entretanto, que, caso a matéria efetivamente chegue ao plenário, haverá condições políticas para sua aprovação. Segundo ele, a reivindicação pelo fim da 6×1 alcançou forte aceitação social e parte das resistências empresariais foi trabalhada durante as negociações realizadas na Câmara.

Governo transforma 6×1 em bandeira eleitoral

Existe ainda uma segunda dimensão na movimentação do Planalto.

Se o Senado não concluir a votação agora, o fim da escala 6×1 será incorporado como uma das bandeiras centrais do programa de governo de Lula na disputa presidencial de 2026.

“Caso não seja votada, evidentemente, ela vai integrar, o presidente Lula já nos informou, os temas centrais do nosso programa de governo”, declarou Guimarães.

A decisão coloca a jornada de trabalho diretamente no centro da eleição.

Isso pode produzir uma divisão política bastante concreta: parlamentares, partidos, empresários, sindicatos e candidatos terão de explicar ao eleitorado qual posição defendem sobre uma mudança que interfere diretamente na organização da vida cotidiana de milhões de pessoas.

Para o governo, a questão possui ainda um componente de identidade política. Depois de décadas nas quais grande parte do debate econômico esteve concentrada em flexibilização das relações de trabalho, competitividade e redução dos custos empresariais, a PEC desloca a pergunta para outro terreno: quanto dos ganhos de produtividade e desenvolvimento econômico deve retornar ao trabalhador na forma de tempo?

Tecnologia, automação, inteligência artificial e digitalização aumentaram enormemente a capacidade produtiva da economia. A discussão sobre redução da jornada pergunta quem se apropria desses ganhos.

Se produtividade aumenta enquanto o trabalhador continua dedicando praticamente toda a semana ao emprego, a inovação pode ampliar principalmente a rentabilidade do capital. Se parte desse avanço for convertida em jornadas menores, seus benefícios alcançam também a organização concreta da vida social.

Não se trata apenas de trabalhar menos

A discussão sobre jornada também envolve um problema brasileiro estrutural: desigualdade.

Trabalhadores de renda mais alta possuem, em média, maior capacidade de organizar horários, negociar condições, trabalhar remotamente ou contratar serviços que reduzem o peso das tarefas domésticas.

Na base do mercado de trabalho, a situação é diferente.

Comércio, supermercados, restaurantes, serviços, segurança, limpeza e diversas outras atividades concentram trabalhadores submetidos a jornadas rígidas e escalas que frequentemente ocupam finais de semana e feriados.

Por isso, mudanças na jornada atingem de maneira particularmente forte a classe trabalhadora urbana.

Ter dois dias disponíveis na semana pode significar acompanhar a educação dos filhos, visitar familiares, estudar, descansar, praticar atividades culturais ou simplesmente recuperar-se fisicamente para a semana seguinte.

É uma discussão econômica, mas também civilizatória.

Segurança Pública e terras raras também estão na mesa

O governo pretende aproveitar o esforço concentrado para avançar outras duas propostas consideradas estratégicas: a PEC da Segurança Pública e o projeto relacionado às terras raras.

Guimarães afirmou que Lula deseja ver a proposta da Segurança avançar antes da campanha eleitoral e relacionou a medida à intenção de criação de um Ministério da Segurança Pública. O governo também quer movimentar o projeto das terras raras, tema que ganhou dimensão estratégica diante da corrida internacional pelos minerais críticos brasileiros.

Na Câmara, a prioridade indicada pelo ministro é outra: o chamado PL da Misoginia, que já passou pelo Senado e está sendo negociado com o presidente da Casa, Hugo Motta.

Mas Guimarães deixou claro qual pauta o Planalto escolheria se pudesse avançar apenas uma.

Segundo ele, se o Congresso votasse o fim da escala 6×1 durante este esforço concentrado, o resultado já seria suficiente para considerar a semana politicamente bem-sucedida.

Uma disputa sobre quem fica com o tempo produzido pelo desenvolvimento

A possível votação da PEC possui significado maior do que uma simples alteração no calendário semanal.

Desde a industrialização, uma das grandes disputas entre capital e trabalho sempre esteve relacionada à duração da jornada. Férias, descanso semanal, limitação de horas e remuneração extraordinária não surgiram espontaneamente: foram construídos ao longo de décadas de mobilização social, negociação e legislação.

A discussão brasileira de 2026 recoloca essa questão em condições novas.

O país não é o mesmo que instituiu a jornada constitucional de 44 horas. A economia tornou-se mais produtiva, mais tecnológica e muito mais digitalizada. A riqueza produzida por trabalhador mudou — e a organização do trabalho também.

A pergunta política passa a ser se essa transformação tecnológica deve produzir apenas mais mercadorias e lucros ou também mais tempo livre para quem produz a riqueza.

A resposta poderá começar a ser dada pelo Senado nos próximos dias.

Por enquanto, há uma distinção essencial: a PEC ainda não está garantida na pauta. O governo fará pressão para que Alcolumbre permita sua votação. Caso consiga, José Guimarães aposta que haverá votos para aprová-la. Caso não consiga, Lula pretende transformar o fim da escala 6×1 em uma das grandes bandeiras da eleição presidencial.

De qualquer maneira, uma reivindicação que começou fora dos centros tradicionais do poder já conseguiu algo significativo: obrigou Brasília a discutir não apenas quanto o brasileiro trabalha, mas quanto da própria vida ele tem direito de recuperar para si.