Da Redação
Presidente mantém a dianteira na corrida presidencial e chega a 47% contra 43% do candidato do PL no segundo turno; levantamento mostra disputa cada vez mais concentrada nos dois candidatos e confirma cenário altamente competitivo a pouco mais de um mês da eleição
O Presidente Lula começa oficialmente a campanha eleitoral de 2026 na liderança da disputa pelo Palácio do Planalto. Pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta-feira, 21 de agosto, mostra o candidato à reeleição com 39% das intenções de voto, contra 33% de Flávio Bolsonaro, candidato do PL. A vantagem de seis pontos confirma Lula na primeira posição, mas mostra também uma corrida altamente polarizada e que exige cautela: em julho, o presidente tinha 40% e Flávio, 32%, de modo que as oscilações registradas agora estão dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.
O levantamento possui importância especial porque é o primeiro Datafolha realizado integralmente depois do início oficial da campanha, em 16 de agosto. Foram entrevistados 2.058 eleitores em 127 municípios, entre os dias 18 e 20 de agosto. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A pesquisa, contratada pela Folha de S.Paulo e pela TV Globo, está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-04496/2026.
Os números revelam uma eleição progressivamente concentrada em Lula e Flávio Bolsonaro. Somados, os dois alcançam 72% das intenções de voto no principal cenário de primeiro turno. Muito atrás aparecem Ronaldo Caiado, com 5%; Renan Santos, com 4%; e Romeu Zema, com 3%. Pablo Marçal, cuja candidatura ainda enfrenta uma questão de inelegibilidade submetida ao TSE, registra 2% no cenário em que seu nome é apresentado.
A distância entre os dois líderes, entretanto, diminuiu em relação a levantamentos anteriores do próprio instituto. Em junho, Lula aparecia com 41%, enquanto Flávio Bolsonaro registrava 31%, uma diferença de dez pontos. Na pesquisa divulgada agora, a distância é de seis. Na rodada imediatamente anterior, de julho, o placar era de 40% a 32%, diferença de oito pontos. Portanto, embora as movimentações individuais estejam dentro da margem de erro, a sequência merece acompanhamento: a vantagem nominal de Lula sobre seu principal adversário caiu de dez para oito e agora seis pontos nas últimas três referências do Datafolha.
Isso não significa, tecnicamente, que seja possível afirmar uma tendência consolidada de crescimento de Flávio ou queda de Lula a partir de oscilações dentro da margem de erro. Pesquisas eleitorais são fotografias do momento e não previsões do resultado das urnas. Mas a série indica algo politicamente relevante: Flávio Bolsonaro consolidou-se como o principal polo eleitoral contra Lula, enquanto as candidaturas alternativas continuam encontrando enormes dificuldades para romper a polarização.
Esse é provavelmente o elemento estrutural mais importante do Datafolha. Caiado, Renan Santos e Zema, somados, chegam a apenas 12%. Nenhum deles individualmente alcança sequer um sexto das intenções registradas por Flávio. A chamada terceira via, pelo menos neste início oficial de campanha, continua sem apresentar um candidato capaz de ameaçar os dois líderes.
Para Lula, o resultado apresenta simultaneamente uma vantagem e um alerta. A vantagem é evidente: o presidente continua em primeiro lugar e mantém um piso eleitoral muito elevado. Mesmo depois de meses de desgaste político, conflitos com os Estados Unidos, pressões econômicas e controvérsias envolvendo seu governo e familiares, Lula permanece próximo dos 40% e entra na campanha liderando.
O alerta está justamente na distância em relação ao adversário. Flávio Bolsonaro não aparece mais como uma candidatura destinada simplesmente a preservar o eleitorado do pai. Ele conseguiu ocupar o espaço central da oposição e chega ao início da campanha com aproximadamente um terço do eleitorado. A eleição, portanto, começa com dois blocos políticos muito grandes já organizados.
Esse cenário aparece ainda mais claramente quando se observa o segundo turno.
Na simulação de confronto direto, Lula registra 47% e Flávio Bolsonaro, 43%. A diferença nominal é de quatro pontos percentuais. Considerando a margem de erro de dois pontos para cada candidato, o confronto se encontra no limite do empate técnico.
O dado exige atenção porque demonstra que uma vantagem relativamente confortável no primeiro turno pode se transformar numa disputa muito mais apertada quando os demais candidatos desaparecem da cédula. Parte significativa dos eleitores de direita e centro-direita que hoje declara voto em Caiado, Zema ou outras candidaturas pode migrar para Flávio numa eventual segunda rodada, enquanto Lula precisa ampliar sua votação entre eleitores que atualmente não estão com o PT.
A comparação histórica recente também mostra uma corrida apertada. Em junho, o Datafolha já apresentava Lula com 47% e Flávio com 43%. Em julho, o presidente chegou a 48%, enquanto o adversário permaneceu com 43%. Agora, Lula volta aos 47%. Portanto, apesar das oscilações no primeiro turno, o confronto direto continua caracterizado por forte estabilidade e equilíbrio.
Outros institutos vêm encontrando diferenças metodológicas e numéricas, mas também apontam Lula à frente. A Quaest divulgada em 14 de agosto registrou 38% para Lula e 31% para Flávio no primeiro turno e 43% a 40% no segundo, também em situação de empate técnico. Já a CNT/MDA, com entrevistas realizadas entre 5 e 9 de agosto, encontrou uma vantagem maior para o presidente no segundo turno: 48% contra 39%.
A comparação entre institutos deve ser feita com cuidado porque metodologias, questionários, amostras e formas de entrevista podem produzir diferenças. O mais importante é observar a trajetória de cada pesquisa dentro de sua própria série. E, nesse aspecto, a fotografia produzida pelo Datafolha é bastante clara: Lula continua liderando, Flávio permanece consolidado em segundo lugar e os demais candidatos ainda estão muito distantes.
A campanha entra agora numa fase capaz de alterar essa configuração. A propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão começa em 28 de agosto, aumentando enormemente a exposição das candidaturas. Debates, entrevistas, viagens, comícios e campanhas digitais também passarão a atingir eleitores que até agora acompanharam a eleição de maneira menos intensa.
Para Lula, a estratégia deverá combinar defesa das realizações do governo com uma narrativa de soberania nacional. O conflito recente com Washington abriu uma frente política que o presidente vem utilizando para se apresentar como defensor da autonomia brasileira diante das pressões do governo Donald Trump. Nesta própria sexta-feira, Lula e Trump conversaram por telefone durante cerca de uma hora e vinte minutos, reabrindo negociações entre os dois governos num momento em que as relações comerciais e políticas atravessam forte tensão.
Há uma coincidência politicamente interessante entre os acontecimentos do dia. Enquanto Lula negociava diretamente com Trump, o Datafolha mostrava que o presidente continua liderando a eleição brasileira. Segundo relato divulgado sobre o telefonema, Trump chegou a perguntar como estavam as eleições no Brasil, e Lula respondeu ressaltando o caráter democrático e seguro do processo eleitoral.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, procura transformar a eleição numa avaliação do governo Lula e explorar principalmente segurança pública, corrupção e temas de costumes. A consolidação de sua candidatura mostra que o sobrenome Bolsonaro continua possuindo enorme capacidade de mobilização eleitoral, mesmo sem Jair Bolsonaro diretamente na disputa.
Mas Flávio enfrenta vulnerabilidades próprias. Sua rejeição continua elevada, e a campanha terá de ampliar seu eleitorado para além do núcleo bolsonarista se quiser superar Lula num segundo turno. O mesmo problema existe do outro lado: Lula possui uma base muito consolidada, mas também encontra resistência significativa entre setores do eleitorado que rejeitam o PT.
É justamente essa rejeição cruzada que ajuda a explicar por que o segundo turno aparece tão apertado. A eleição de 2026 começa menos como uma disputa aberta entre numerosos projetos com possibilidades semelhantes e mais como uma batalha entre dois grandes campos políticos que já chegam à campanha com dezenas de milhões de eleitores potenciais.
Há ainda uma variável decisiva: os candidatos menores. Com Lula e Flávio somando 72% no cenário principal, aproximadamente três em cada dez eleitores ainda estão distribuídos entre outras candidaturas, brancos, nulos e indecisos. É nesse universo que poderá estar a diferença entre uma vitória e uma derrota em outubro.
Para Lula, crescer alguns pontos no primeiro turno teria enorme importância estratégica. Quanto mais próximo estiver da maioria absoluta dos votos válidos, maior será a possibilidade de construir uma narrativa de favoritismo e até pressionar pelo voto útil. Para Flávio, o objetivo inverso será impedir essa aproximação e transformar desde já a eleição numa escolha binária entre lulismo e bolsonarismo.
Os candidatos intermediários terão de resistir a essa pressão. Caiado, Zema e Renan Santos precisam convencer o eleitor de que existe espaço para uma alternativa. Se permanecerem abaixo dos 5%, a tendência é que sofram progressivamente com o voto útil à medida que a eleição se aproximar.
O Datafolha divulgado nesta sexta-feira, portanto, não mostra uma eleição decidida. Muito menos autoriza qualquer conclusão sobre o resultado de outubro. O que ele mostra é uma estrutura de disputa já bastante definida.
Lula entra na campanha oficial na liderança, com 39%. Flávio Bolsonaro aparece seis pontos atrás, com 33%. Os demais candidatos estão muito distantes. E, quando a eleição é reduzida aos dois principais adversários, o confronto chega a 47% contra 43%.
Para o campo de Lula, há uma notícia positiva inequívoca: mesmo enfrentando o desgaste natural de quem governa, o presidente continua liderando tanto o primeiro quanto o segundo turno. Mas existe também uma advertência impossível de ignorar: a eleição está competitiva e Flávio Bolsonaro conseguiu reduzir parte da distância que o separava do presidente no primeiro turno.
O próximo período será decisivo porque a campanha finalmente chegou às ruas. Até agora, pesquisas mediram principalmente identidades políticas consolidadas, avaliação de governo e força das marcas Lula e Bolsonaro. A partir da propaganda eleitoral, dos debates e da mobilização territorial, os candidatos terão a oportunidade de disputar mais intensamente os eleitores ainda disponíveis.
A fotografia do dia 21 de agosto é, portanto, de vantagem para Lula — mas não de tranquilidade. O presidente continua na frente. Flávio Bolsonaro continua perseguindo. E tudo indica que o Brasil caminha para uma eleição presidencial extremamente polarizada e disputada.






