Da Redação
Agências anticorrupção investigam suposto esquema de lavagem de cerca de US$ 3,4 milhões envolvendo integrantes do alto escalão, parlamentares e executivos de banco estatal; Zelensky demitiu uma vice-chefe de seu gabinete em meio às buscas, enquanto crise se soma a sucessivos casos que atingem pessoas próximas ao poder em Kiev
Uma nova investigação de corrupção chegou ao coração da administração do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky e amplia a pressão política sobre um governo que atravessa, simultaneamente, uma guerra prolongada contra a Rússia, disputas internas e sucessivos escândalos envolvendo integrantes ou antigos integrantes de seu círculo de poder. As autoridades anticorrupção da própria Ucrânia abriram uma grande operação para investigar uma suposta organização criminosa que teria utilizado um banco estatal para lavar aproximadamente US$ 3,4 milhões. Entre os alvos estão pessoas ligadas à administração presidencial, parlamentares e executivos do sistema financeiro.
A investigação é conduzida pelo Escritório Nacional Anticorrupção da Ucrânia, o NABU, em conjunto com a Procuradoria Especializada Anticorrupção, a SAPO. As duas instituições anunciaram a operação nesta quarta-feira (19) e realizaram buscas relacionadas a figuras importantes do poder político ucraniano. A operação ganhou o codinome “Forrest Gump” e investiga uma rede que, segundo as autoridades, teria movimentado dinheiro por meio do Sense Bank, instituição controlada pelo Estado ucraniano.
A dimensão política do caso ficou evidente quando Zelensky demitiu Iryna Mudra, uma das vice-chefes do Gabinete Presidencial. A decisão ocorreu no mesmo dia em que investigadores anticorrupção realizaram buscas relacionadas à investigação. Mudra ocupava uma posição de grande relevância na estrutura presidencial e havia sido ministra-adjunta da Justiça antes de chegar ao gabinete de Zelensky. A imprensa ucraniana informou que seu advogado confirmou que ela havia sido formalmente acusada pelo NABU, embora diferentes reportagens tenham apresentado informações divergentes nas primeiras horas da operação sobre sua condição processual.
A reportagem da RT utilizada como ponto de partida para esta matéria apresenta o episódio como mais um escândalo atingindo a administração Zelensky. Essa interpretação corresponde parcialmente ao quadro factual — existe de fato uma investigação de grande dimensão alcançando integrantes da estrutura presidencial —, mas é necessário fazer uma distinção essencial: até o momento, as informações públicas não indicam que Zelensky seja pessoalmente acusado de participar do esquema investigado. Em investigações anteriores envolvendo integrantes de seu círculo político, as próprias autoridades anticorrupção ucranianas também fizeram essa diferenciação.
O caso atual, entretanto, possui ramificações importantes. Segundo informações publicadas pelo Financial Times, a investigação examina um esquema de aproximadamente US$ 3,4 milhões que teria utilizado o Sense Bank para movimentar recursos destinados, entre outras finalidades investigadas, ao pagamento de fiança do ex-ministro da Energia German Galushchenko, personagem de outro grande escândalo de corrupção envolvendo o setor energético ucraniano.
A conexão entre os episódios ajuda a compreender por que o novo caso provoca tamanho impacto. A Ucrânia já havia sido abalada por uma investigação de enorme repercussão sobre corrupção na Energoatom, estatal responsável pela geração nuclear. As autoridades investigaram suspeitas de cobrança de propinas de empresas que forneciam produtos e serviços à companhia. O episódio atingiu pessoas próximas ao governo e provocou mudanças importantes na administração do setor energético.
Agora, as autoridades procuram saber se parte do dinheiro relacionado a essas redes percorreu outros caminhos dentro do sistema político e financeiro. O que começa a emergir, portanto, não é necessariamente um único esquema centralizado, mas uma sucessão de investigações que alcançam diferentes áreas de um Estado submetido a gastos extraordinários desde o início da guerra.
Essa circunstância torna a corrupção particularmente sensível para a sociedade ucraniana. O país depende de enorme assistência financeira e militar dos Estados Unidos e da Europa para sustentar sua defesa e o funcionamento do Estado. Ao mesmo tempo, milhões de ucranianos enfrentam deslocamento, destruição de infraestrutura, mobilização militar e perda de familiares. Nesse contexto, qualquer suspeita de enriquecimento ilícito, desvio de recursos públicos ou utilização privilegiada do Estado possui um peso social muito maior.
O problema também é estratégico. Cada novo escândalo oferece argumentos aos setores políticos ocidentais que questionam a continuidade do financiamento a Kiev. Isso não significa que recursos enviados pelos aliados tenham sido necessariamente desviados nos casos agora investigados — seria incorreto fazer essa associação sem provas. Significa que a percepção de corrupção pode comprometer a confiança política necessária para sustentar programas bilionários de assistência.
A União Europeia possui outro interesse direto na questão. O combate à corrupção é um dos elementos fundamentais do processo de aproximação institucional da Ucrânia com o bloco. Kiev precisa demonstrar que dispõe de instituições capazes de investigar integrantes do próprio governo, políticos influentes e grandes interesses econômicos. Paradoxalmente, portanto, a existência das investigações produz duas leituras simultâneas: revela a persistência de graves problemas de corrupção, mas também demonstra que órgãos ucranianos estão efetivamente investigando pessoas próximas ao centro do poder.
Essa contradição é fundamental para compreender a situação sem propaganda de nenhum dos lados.
A existência de corrupção na Ucrânia não é uma invenção russa. O problema antecede a guerra e durante décadas foi reconhecido pelos próprios governos ucranianos, pela União Europeia, por instituições internacionais e por organizações da sociedade civil do país. Ao mesmo tempo, a existência de corrupção tampouco significa que toda a administração ucraniana seja criminosa ou que todas as acusações feitas por Moscou contra Kiev sejam automaticamente verdadeiras.
O episódio atual adquire peso adicional porque ocorre depois de uma grave disputa entre Zelensky e as instituições anticorrupção. Em julho de 2025, uma iniciativa legislativa apoiada pelo governo reduziu a independência do NABU e da SAPO, provocando manifestações públicas e forte reação de parceiros europeus. Diante da pressão, Zelensky posteriormente apoiou uma legislação destinada a restaurar a autonomia das duas instituições.
Pouco mais de um ano depois, são justamente essas estruturas que realizam operações dentro da administração presidencial.
O resultado cria uma situação politicamente desconfortável para Zelensky. Impedir ou enfraquecer as investigações poderia provocar nova crise com a sociedade ucraniana e com a União Europeia. Permitir que avancem, por outro lado, pode produzir novas revelações envolvendo integrantes de sua própria estrutura de governo. Para uma administração que construiu parte de sua legitimidade original sobre a promessa de combater a corrupção das antigas elites ucranianas, essa contradição é especialmente corrosiva.
Zelensky chegou à Presidência em 2019 como um candidato antissistema, prometendo enfrentar oligarcas e práticas que haviam marcado a política ucraniana durante décadas. Sete anos depois, a guerra transformou completamente sua Presidência, mas não eliminou os antigos problemas estruturais do país. As investigações atuais mostram que corrupção, influência econômica sobre o Estado e redes informais de poder continuam sendo questões centrais da política ucraniana.
A crise já ultrapassa a esfera policial. O ex-ministro da Defesa Mykhailo Fedorov, afastado recentemente do cargo, passou a defender a realização de eleições mesmo durante a guerra e afirmou que o país enfrenta uma crise sistêmica de governança relacionada, entre outras questões, à corrupção. A iniciativa colocou uma antiga figura importante do governo em confronto aberto com Zelensky.
É necessário, entretanto, dimensionar essa disputa corretamente. A convocação de eleições durante a lei marcial enfrenta obstáculos legais e logísticos enormes. Milhões de ucranianos encontram-se deslocados dentro e fora do país, centenas de milhares servem nas Forças Armadas e partes do território permanecem sob controle russo. Além disso, informações recentes indicam que a proposta de Fedorov não conquistou apoio popular suficiente para produzir uma mobilização nacional pela realização imediata do pleito. Pesquisas citadas pela Reuters mostram que a maioria dos ucranianos continua contrária à realização de eleições enquanto a guerra estiver em andamento, e a aprovação de Zelensky permanece próxima de 60%.
Isso significa que falar neste momento em colapso iminente do governo seria exagerado.
O que existe é algo diferente e politicamente significativo: uma acumulação de pressões sobre a administração Zelensky. Guerra prolongada, dependência de financiamento estrangeiro, disputas dentro do governo, investigações de corrupção e questionamentos sobre o funcionamento das instituições estão se sobrepondo.
A Rússia acompanha esse processo atentamente. O Kremlin afirmou nesta quinta-feira (20) que as divergências demonstrariam uma fragmentação crescente do sistema político ucraniano e voltou a questionar a legitimidade de Zelensky diante da ausência de eleições durante a guerra. Moscou utiliza há anos essa questão como parte de sua argumentação política contra Kiev.
Essa narrativa, porém, precisa ser contextualizada. A impossibilidade de realizar eleições sob lei marcial está prevista na legislação ucraniana, e o país continua submetido a uma invasão e a ataques militares russos. Portanto, a ausência de eleições não pode ser apresentada isoladamente como prova de que Zelensky simplesmente decidiu cancelar o processo democrático para permanecer no poder.
Isso não elimina outra pergunta legítima: por quanto tempo um Estado pode permanecer sob poderes extraordinários de guerra sem que mecanismos de controle democrático sejam progressivamente enfraquecidos?
Essa é uma discussão que transcende Zelensky e alcança qualquer democracia submetida durante anos a uma situação de emergência. Guerras concentram poder no Executivo, ampliam sigilos, aumentam gastos públicos extraordinários, reduzem transparência em áreas de segurança e criam enormes contratos emergenciais. Exatamente por isso, sistemas anticorrupção independentes tornam-se ainda mais importantes durante conflitos.
Sob uma perspectiva do Sul Global, existe ainda uma questão frequentemente obscurecida pela polarização informacional da guerra. Durante quatro anos, grande parte da cobertura ocidental construiu uma representação extremamente simplificada da política ucraniana, frequentemente subordinando suas contradições internas à necessidade de apoiar o país diante da invasão russa. Reconhecer a responsabilidade de Moscou pela guerra não exige transformar Kiev em um Estado acima de qualquer crítica.
Da mesma maneira, denunciar corrupção na Ucrânia não exige aderir automaticamente à narrativa do Kremlin.
O interesse jornalístico está precisamente em separar essas duas coisas.
O novo escândalo é real. As buscas são reais. A investigação é conduzida por instituições ucranianas. Pessoas próximas ao centro do poder estão sendo investigadas. Zelensky demitiu uma integrante importante de sua administração em meio à crise. Ao mesmo tempo, não existe, até agora, acusação pública que demonstre participação pessoal do presidente no esquema investigado.
Essa distinção será decisiva nas próximas semanas.
Se a operação revelar uma estrutura de corrupção capaz de alcançar níveis ainda mais altos do governo, Zelensky poderá enfrentar a maior crise política de sua Presidência desde o início da guerra. Se, ao contrário, as investigações permanecerem circunscritas a determinados funcionários e agentes econômicos, a capacidade das próprias instituições ucranianas de investigá-los poderá servir como argumento de que o sistema anticorrupção continua funcionando apesar das pressões políticas.
Por enquanto, a principal conclusão é outra: a guerra não suspendeu as contradições internas da Ucrânia. Pelo contrário, o enorme fluxo de dinheiro, armas, contratos e recursos públicos produzido pelo conflito tornou transparência e controle institucional ainda mais importantes.
Para um governo que depende simultaneamente da resistência de sua população e de dezenas de bilhões de dólares de apoio externo, corrupção não é apenas um problema moral ou administrativo. É uma vulnerabilidade estratégica.
E quanto mais as investigações se aproximam do centro do poder em Kiev, mais difícil será para Zelensky tratar essa vulnerabilidade como um problema periférico.






