Evento inspirado em uma gíria da geração Z viralizou, chegou a várias cidades, entrou na universidade e até virou alvo de disputa política
Da Redação
O que começou como uma brincadeira publicada no TikTok transformou-se em um dos fenômenos culturais mais curiosos de 2026. O campeonato de “farmar aura”, realizado pela primeira vez em Juazeiro do Norte, ultrapassou as redes sociais, inspirou competições em diferentes cidades brasileiras e passou a ser tema de debates sobre juventude, linguagem digital, convivência entre gerações e ocupação dos espaços públicos.
A tendência ganhou novo capítulo em Cuiabá, onde o prefeito Abilio Brunini tentou impedir a realização de uma edição do evento em um parque público e acabou viralizando ao declarar: “Eu sou hétero, não sei o que é isso”, ao ser questionado sobre o significado da expressão. Depois da proibição, os organizadores transferiram a competição para a Universidade Federal de Mato Grosso, onde o campeonato foi realizado.
No Ceará, tudo começou em Juazeiro do Norte
A primeira competição aconteceu em junho, na Praça do Giradouro, em Juazeiro do Norte. O idealizador, conhecido nas redes como Corre Jhow, contou que a iniciativa surgiu depois que ele viu um meme no TikTok. O primeiro cartaz foi criado com auxílio de inteligência artificial e divulgado inicialmente no Instagram. Como a publicação teve pouca repercussão, ele decidiu compartilhar o convite no TikTok.
A reação foi imediata. O conteúdo começou a circular, atraiu a atenção de jovens e levou dezenas de participantes e espectadores à praça. Vídeos da competição viralizaram e ajudaram a espalhar o formato para outras cidades. Segundo o organizador, a dimensão alcançada pelo evento superou completamente a expectativa inicial.
O que significa “farmar aura”?
A palavra “farmar” deriva do verbo inglês to farm, que originalmente significa cultivar ou colher. Nos videogames, porém, o termo passou a designar a repetição de determinadas ações para acumular recursos, experiência ou recompensas. Já “aura”, na linguagem das redes sociais, representa carisma, presença, estilo ou a imagem que uma pessoa transmite. Assim, “farmar aura” significa acumular prestígio simbólico por meio de atitudes consideradas marcantes ou estilosas.
Na prática, “farmar aura” significa realizar alguma ação considerada marcante, estilosa ou impressionante para conquistar prestígio simbólico diante de outras pessoas. É como acumular “pontos de respeito” ou de carisma. Quem consegue transmitir essa imagem costuma ser chamado de “sigma”. Já quem tenta reproduzir esse comportamento sem convencer o público pode acabar sendo apelidado, em tom de brincadeira, de “beta”.
Como funciona a competição
As regras podem variar de uma cidade para outra, mas a lógica permanece semelhante. Os participantes entram individualmente ou em dupla e precisam conquistar o público e os jurados por meio de poses, danças, entradas marcantes, coreografias, cambalhotas, personagens e improvisos. Na edição realizada em Juazeiro do Norte, os competidores foram avaliados em três categorias:
- aura;
- ego;
- criatividade.
O público também participou da escolha dos vencedores. Cada competidor podia adotar um nome fictício, inspirado em personagens ou celebridades. Segundo Corre Jhow, o objetivo era provocar reação imediata da plateia, de maneira semelhante ao que acontece em batalhas de rap. Quanto maior o impacto da apresentação, maior a pontuação simbólica de “aura” e “ego”.
Depois da repercussão da primeira edição, Corre Jhow confirmou que uma nova competição está sendo organizada. Desta vez, a proposta é ampliar a estrutura, buscar patrocinadores e oferecer troféus e medalhas aos vencedores. O organizador também anunciou que pretende apresentar novas atrações e produzir um vídeo especial para divulgar o evento.
Segundo ele, a procura do público e os pedidos por uma nova edição foram determinantes para a continuidade do projeto. A expectativa é que o segundo campeonato seja maior e mais organizado do que o primeiro.
Em poucas semanas, competições semelhantes começaram a aparecer em outros estados. Além do Ceará, campeonatos foram realizados ou anunciados em cidades de São Paulo, Mato Grosso, Goiás, Pará, Piauí e outras regiões. Em Suzano, na Região Metropolitana de São Paulo, uma edição reuniu mais de 200 participantes e alcançou milhões de visualizações nas redes sociais.
O sucesso mostra como uma brincadeira digital pode rapidamente ganhar formato presencial, mobilizar comunidades locais e voltar para a internet em vídeos, memes e disputas de popularidade.
Quando o meme virou disputa política
O crescimento do fenômeno também produziu uma controvérsia política. Em Cuiabá, o prefeito Abilio Brunini proibiu a realização de um campeonato no Parque das Águas. A justificativa apresentada foi a de que o evento não atendia ao interesse público. Ao ser questionado sobre o significado da expressão, o prefeito respondeu:
“O que é farmar aura? Cara, não sei, eu sou hétero.”
A declaração gerou críticas e uma onda de memes. A associação entre uma gíria da internet e orientação sexual foi interpretada como preconceituosa e desinformada por usuários das redes sociais. Com a proibição, os organizadores buscaram outro espaço para realizar a competição.
O evento acabou sendo transferido para a Universidade Federal de Mato Grosso. O campeonato havia surgido a partir de uma pesquisa sobre comunicação digital e conflitos entre gerações. A proposta era observar como expressões juvenis, memes e comportamentos das redes sociais são recebidos por diferentes grupos.
A repercussão do episódio levou o estudante responsável pela organização a considerar o tema como objeto de seu Trabalho de Conclusão de Curso. A realização dentro da universidade também ampliou o debate sobre liberdade cultural, ocupação de espaços públicos e a distância entre autoridades políticas e a linguagem usada por jovens.
De onde surgiu a tendência
A expressão ganhou força a partir de um vídeo viral publicado em 2025. As imagens mostravam um participante de uma corrida de barcos na Indonésia fazendo uma pose considerada extremamente estilosa na proa da embarcação. O vídeo foi transformado em meme e passou a simbolizar alguém que estaria “ganhando aura”.
A partir daí, usuários começaram a reproduzir o gesto, criar desafios e atribuir pontuações imaginárias a situações cotidianas. A linguagem se espalhou principalmente entre integrantes das gerações Z e Alfa.
Mais do que uma brincadeira
O campeonato de “farmar aura” combina aspectos antigos da sociabilidade juvenil com a linguagem das plataformas digitais. A busca por reconhecimento, pertencimento, estilo e aprovação do grupo não é nova. O que muda é a forma como esses comportamentos são apresentados, avaliados e compartilhados.
As competições transformam em espetáculo presencial uma dinâmica que já acontece diariamente nas redes: pessoas criando imagens de si mesmas, buscando atenção, acumulando curtidas e tentando construir uma identidade diante do público.
A expressão pode desaparecer ou ser substituída por outra gíria, mas o sucesso dos campeonatos mostra como memes podem ultrapassar as telas e criar encontros, eventos e novas formas de convivência.
Um raro fenômeno presencial entre jovens hiperconectados
Além do humor e da criatividade, o sucesso dos campeonatos de “farmar aura” chama atenção por outro aspecto: trata-se de uma atividade que incentiva encontros presenciais entre jovens em uma geração frequentemente associada ao uso intensivo das redes sociais.
Em vez de disputas baseadas em violência, humilhação ou desafios de risco, as competições premiam criatividade, improviso, carisma e capacidade de divertir o público. O objetivo não é eliminar adversários nem provocar conflitos, mas conquistar aplausos por meio de apresentações bem-humoradas e performances espontâneas.
O fenômeno também contrasta com uma parte do ambiente digital contemporâneo, frequentemente marcado por polarização, sectarismo, ataques pessoais e discursos de ódio. Nesse contexto, o campeonato transforma uma linguagem nascida na internet em uma experiência coletiva de convivência, na qual jovens ocupam praças, parques e universidades para brincar, socializar e produzir conteúdo de forma colaborativa.
Embora a expressão “farmar aura” possa desaparecer com a rapidez típica dos memes, o sucesso do evento revela uma demanda por espaços de encontro e interação fora das telas. Em vez de apenas consumir conteúdos nas plataformas digitais, centenas de jovens passaram a criar eventos presenciais em que o principal prêmio é o reconhecimento do grupo e a participação em uma atividade lúdica, criativa e, em essência, pacífica.

