“Democracia não se resume à eleição para presidente”, afirma Evaldo Lima

Historiador alerta que a renovação de dois terços do Senado e de todas as cadeiras da Câmara pode definir a capacidade de governar e a preservação dos direitos sociais

Da Redação

A eleição de 2026 não definirá somente quem ocupará a Presidência da República. O resultado das disputas para a Câmara dos Deputados e o Senado estabelecerá as condições políticas para aprovar o orçamento, preservar direitos trabalhistas, financiar políticas sociais e conter novas ameaças à democracia.

A avaliação é do historiador Evaldo Lima, entrevistado nesta quarta-feira (9) pelo programa Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular. Em conversa com o apresentador Luiz Regadas, o professor analisou a disputa pelo Congresso, a renovação de dois terços do Senado e os possíveis resultados das eleições proporcionais no Ceará.

“Democracia não se resume à eleição para presidente. Uma pergunta igualmente importante deve ser feita: quem vai governar junto com o presidente e quem terá força para impedir que o país avance?”, questionou Evaldo.

Nas eleições de outubro, estarão em disputa as 513 cadeiras da Câmara dos Deputados e 54 das 81 vagas do Senado. Os mandatos dos deputados duram quatro anos, enquanto os senadores eleitos permanecerão no cargo durante oito anos.

Para Evaldo, essa diferença torna a escolha para o Senado especialmente relevante. Uma maioria formada em 2026 continuará influenciando o país até 2035 e terá poder para decidir sobre indicações presidenciais, projetos de lei, mudanças constitucionais e pedidos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal.

Congresso pode bloquear programa aprovado nas urnas

O historiador afirmou que o eleitorado brasileiro costuma concentrar sua atenção nas candidaturas à Presidência e aos governos estaduais. A escolha dos deputados e senadores frequentemente fica para os últimos dias da campanha, quando grande parte das pessoas ainda não conhece os projetos defendidos pelos candidatos.

Essa separação pode produzir um governo eleito com amplo apoio popular, mas submetido a um Congresso comprometido com posições opostas às apresentadas na campanha presidencial.

“Um presidente pode receber milhões de votos e apresentar um projeto progressista, mas encontrar pela frente um Congresso majoritariamente conservador. Nesse caso, terá enormes dificuldades para governar”, explicou.

Evaldo utilizou o terceiro mandato do Presidente Lula como exemplo. Apesar da vitória eleitoral, o governo precisou negociar com uma maioria parlamentar conservadora e com um Centrão interessado em ampliar o controle sobre o orçamento federal.

Segundo o professor, é no Congresso que tramitam as decisões relacionadas à política tributária, aos direitos dos trabalhadores, ao financiamento da saúde e da educação e às regras ambientais. A correlação de forças entre as bancadas também determina a velocidade com que projetos do Executivo serão analisados.

“Democracia exige Executivo, mas também exige maiorias parlamentares comprometidas com o programa aprovado pela sociedade e com as regras do jogo democrático”, afirmou.

Orçamento ampliou poder de deputados e senadores

Evaldo destacou que o Legislativo acumulou novas formas de interferência sobre o orçamento. Emendas parlamentares e mecanismos de distribuição de recursos ampliaram a capacidade de deputados e senadores condicionarem votações às negociações com o governo.

Ao mesmo tempo, o Congresso reivindica mais espaço diante do Executivo e do Judiciário, mas nem sempre responde com a mesma intensidade quando as instituições democráticas são atacadas.

“Hoje, deputados e senadores têm à disposição o orçamento secreto e diferentes modalidades de emendas. O Congresso reivindica cada vez mais poder diante do Executivo e do Judiciário, mas se omite quando a democracia é ameaçada”, criticou.

A concentração de recursos sob controle parlamentar também interfere na disputa eleitoral. Deputados que já exercem mandato chegam à campanha com capacidade de anunciar obras, firmar alianças municipais e destinar emendas às suas bases.

Para Evaldo, o eleitor precisa observar como esses recursos foram utilizados e qual foi o comportamento de cada parlamentar nas votações relevantes. A presença em eventos locais não pode substituir a análise sobre direitos trabalhistas, políticas sociais e respeito à democracia.

Senado terá renovação decisiva

O Senado possui 81 cadeiras, três para cada estado e três para o Distrito Federal. A renovação ocorre alternadamente. Em uma eleição, é escolhido um terço dos senadores; na seguinte, são eleitos dois terços.

Em 2026, cada eleitor poderá votar em dois candidatos diferentes. Evaldo alertou que não é possível duplicar o voto escolhendo o mesmo número nas duas etapas. Nesse caso, o segundo voto será anulado.

“Você tem direito a votar em dois senadores e deve votar em dois nomes diferentes”, orientou.

O professor mencionou projeções segundo as quais o bolsonarismo poderia conquistar até 42 cadeiras no Senado. O número seria suficiente para estabelecer uma maioria e transformar a Casa no principal espaço de pressão contra o STF e contra um eventual novo governo Lula.

“O Senado tornou-se a prioridade absoluta do bolsonarismo. Estamos falando da possibilidade de alterar profundamente a correlação de forças de uma instituição que toma decisões fundamentais por oito anos”, advertiu.

Evaldo recordou que o Senado, durante a presidência de Rodrigo Pacheco, conteve parte das iniciativas de ruptura estimuladas por Jair Bolsonaro. Na avaliação do professor, a postura da Casa ajudou a impedir o agravamento de crises anteriores aos ataques de 8 de janeiro de 2023.

Uma maioria bolsonarista poderia modificar essa posição e acelerar pedidos de impeachment contra integrantes do Supremo. Também poderia bloquear indicações presidenciais e dificultar a composição de órgãos que dependem da aprovação dos senadores.

Duas escolhas no Ceará

No Ceará, Evaldo declarou apoio às candidaturas de Luizianne Lins e Cid Gomes. Os dois disputam as vagas da chapa apoiada pelo Presidente Lula.

“Eu já escolhi meus senadores. Vou votar em Luizianne Lins e Cid Gomes, os dois candidatos do time de Lula”, afirmou.

O historiador reforçou que os dois votos precisam ser utilizados. Concentrar a escolha em apenas uma candidatura reduz a capacidade da chapa de disputar as vagas disponíveis.

Evaldo citou ainda disputas consideradas importantes em outros estados. Em São Paulo, avaliou que Marina Silva e Simone Tebet representam duas candidaturas qualificadas, mas alertou para o risco de crescimento de nomes ligados ao bolsonarismo na reta final.

No Distrito Federal, manifestou a expectativa de derrota das candidaturas de Michelle Bolsonaro e Bia Kicis. No Piauí, apontou a disputa contra Ciro Nogueira como um dos confrontos relevantes para a composição nacional do Senado.

As avaliações foram apresentadas como prognósticos políticos do entrevistado. A definição das vagas dependerá do desempenho das campanhas e do voto dos eleitores em cada estado.

Câmara inteira será renovada

Enquanto o Senado renovará dois terços de seus integrantes, todas as 513 cadeiras da Câmara estarão em disputa. Isso cria a possibilidade de modificar a maioria conservadora, mas também permite que a extrema direita amplie sua presença.

“A gente tem uma oportunidade de redefinir completamente a correlação de forças”, afirmou Evaldo.

A Câmara inicia a análise de grande parte dos projetos enviados pelo Executivo e possui papel decisivo na abertura de processos contra o Presidente da República. Também vota reformas constitucionais, mudanças tributárias e regras relacionadas ao trabalho.

Para o historiador, a dificuldade de avançar com o fim da escala 6 por 1 mostra como a composição parlamentar interfere na vida cotidiana. Mesmo com apoio social crescente, a proposta enfrenta resistência de um Congresso dominado por partidos do Centrão e da direita.

“Temos muita dificuldade para aprovar o fim da jornada 6 por 1 porque o Congresso é majoritariamente conservador”, explicou.

O professor contestou a afirmação recorrente de que nada muda após a eleição de um presidente progressista. Antes de responsabilizar somente o Executivo, é necessário perguntar em quem essa mesma pessoa votou para a Câmara e o Senado.

Escolha de última hora favorece contradições

Evaldo chamou atenção para a distribuição de santinhos nas proximidades das seções eleitorais. Embora o descarte do material seja uma prática irregular, sua repetição indica que muitas pessoas chegam ao local de votação sem definir os candidatos proporcionais.

“Em dia de eleição, há uma derrama de santinhos perto das seções porque muitas pessoas decidem o voto a caminho da urna. Isso é um erro muito sério”, afirmou.

O eleitor pode escolher um projeto para a Presidência e, minutos depois, votar em candidatos que trabalharão para impedir sua aplicação. Essa contradição ajuda a formar governos sem maioria e amplia a dependência de acordos com partidos que não participaram do programa vencedor.

Para Evaldo, o voto parlamentar precisa ser decidido com antecedência e com base no histórico do candidato. É necessário verificar as posições sobre democracia, direitos trabalhistas, serviços públicos e soberania nacional.

Crise no STF entrou na campanha

Antes de analisar a composição do Congresso, Evaldo comentou a decisão do ministro André Mendonça que afastou Andrei Rodrigues da direção-geral da Polícia Federal e Leandro Almada da Diretoria de Inteligência.

Para o historiador, Mendonça ultrapassou os limites esperados de um ministro do Supremo e entrou diretamente na campanha de Flávio Bolsonaro. O professor citou a avaliação do jurista Walter Maierovitch, que classificou a decisão como inconstitucional, ilegal e perigosa.

“O ministro André Mendonça deixou de ser apenas ministro e entrou de vez na campanha eleitoral de Flávio Bolsonaro”, acusou.

Evaldo destacou que Andrei Rodrigues comandava a instituição responsável pela prisão de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Ao afastá-lo, Mendonça teria deslocado o foco do banqueiro investigado para os policiais responsáveis pela apuração.

“O foco deixa progressivamente de ser o banqueiro acusado de corrupção e passa a ser quem o investigou e quem o prendeu”, afirmou.

O professor também recordou que Flávio Bolsonaro havia pedido publicamente o afastamento de Andrei. Pouco depois, a decisão foi tomada por um ministro indicado ao STF por Jair Bolsonaro.

Segundo Evaldo, a coincidência precisa ser examinada diante da divulgação de gravações em que Flávio aparece negociando recursos para o filme Dark Horse com Vorcaro. A primeira reportagem sobre os áudios foi publicada pelo The Intercept Brasil.

As acusações feitas pelo historiador representam sua interpretação política dos acontecimentos. Os envolvidos têm direito de apresentar suas versões nos processos e investigações correspondentes.

“Quem prendeu Vorcaro virou acusado”

Evaldo afirmou que os acontecimentos produziram uma inversão das responsabilidades. Enquanto as investigações contra Vorcaro e seus interlocutores deveriam avançar, agentes responsáveis pela apuração passaram a ser submetidos a questionamentos e afastamentos.

“Quem prendeu Vorcaro virou acusado. Isso é muito sério”, declarou.

Para o professor, a decisão de Mendonça também pode produzir consequências processuais. Atos praticados fora das regras de competência podem gerar recursos, nulidades e, no limite, comprometer as investigações.

Um comentário apresentado durante o programa pelo jurista Inocêncio Uchoa alertou para esse risco. Segundo ele, eventuais ilegalidades cometidas durante a apuração poderiam resultar na libertação de Vorcaro e na extinção do inquérito relacionado a Flávio Bolsonaro.

Evaldo afirmou que a crise beneficia os investigados e abre uma nova frente de instabilidade a poucas semanas da eleição.

“Foi um dia muito perigoso para a democracia”, avaliou.

Senado será palco do conflito com o STF

A crise reforça, na análise do historiador, a importância da eleição para o Senado. É nessa Casa que são examinados os pedidos de impeachment contra ministros do Supremo.

Uma bancada bolsonarista majoritária poderia utilizar o instrumento como forma de pressão permanente sobre a Corte. A ameaça também poderia influenciar decisões e aprofundar a percepção pública de conflito entre as instituições.

“O bolsonarismo colocou a eleição para o Senado como prioridade porque é ali que tenta realizar o impeachment de ministros do STF”, explicou.

Evaldo defendeu uma composição parlamentar capaz de fiscalizar autoridades sem transformar o procedimento em instrumento de vingança política. O Congresso precisa exercer suas competências e preservar as instituições ao mesmo tempo.

Previsão de quatro a cinco federais para a Federação Brasil da Esperança

Ao analisar a eleição para deputado federal no Ceará, Evaldo estimou que a Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, poderá conquistar quatro cadeiras e, num cenário favorável, chegar a cinco.

Entre os nomes apontados como competitivos estão Fernando Santana, Raimundinho, Eduardo Bismarck, Inácio Arruda, Luísa Cela e Larissa Gaspar.

O professor avaliou que a desistência de Audic Mota prejudicou a chapa porque seus votos poderiam ajudar a elevar o quociente eleitoral e ampliar o número de eleitos.

“A Federação Brasil da Esperança deve eleger quatro deputados federais e pode chegar a cinco”, projetou.

O PSB também poderia conquistar quatro cadeiras. Evaldo citou Idilvan Alencar, Salmito Filho e Tainá Marinho entre os nomes mais fortes, com Robério Monteiro, Júnior Aguiar e Denis Bezerra na disputa por outra vaga.

No campo da esquerda, o PDT tentaria atingir o quociente necessário para eleger André Figueiredo, enquanto o Psol buscaria uma cadeira com Renato Roseno.

As projeções representam uma leitura política do cenário e não o resultado de pesquisa eleitoral específica apresentada durante o programa.

Centro e direita disputam espaço

Evaldo estimou que o PSD poderá eleger três deputados federais. Entre os candidatos mencionados estão Domingos Filho, Célio Studart, Fernanda Pessoa, Luiz Gastão e Tiririca.

O MDB teria possibilidade de conquistar uma ou duas cadeiras, com Yury do Paredão e Neném Coelho entre os nomes citados. O Republicanos disputaria uma vaga com Ronaldo Martins e Érika Amorim.

A federação formada por Solidariedade e PRD também poderia eleger um representante. Jordana Mano foi apontada como uma das candidaturas competitivas, beneficiada pelos votos acumulados pela chapa.

Na União Progressista, Evaldo estimou de duas a três cadeiras. Moses Rodrigues e AJ Albuquerque apareceram entre os nomes de maior força, enquanto Danilo Forte, Dayany Bittencourt e Mauro Filho disputariam outro espaço.

A extrema direita, por sua vez, poderia eleger até quatro deputados federais. O professor citou André Fernandes, Carmelo Neto, Priscila Costa, Matheus Noronha, Dr. Jaziel e Inspetor Alberto entre os candidatos com possibilidade de conquistar mandato.

“A direita pode eleger até quatro federais, e isso me preocupa muito”, afirmou.

Assembleia pode ter maior renovação

Evaldo evitou apresentar uma lista detalhada para a Assembleia Legislativa do Ceará. Segundo ele, a quantidade de candidaturas e a complexidade das chapas exigem uma análise específica.

O professor acredita, contudo, que o percentual de renovação na Assembleia poderá ser superior ao registrado na bancada federal.

“Muitos deputados não conseguirão a reeleição. Podemos ter algumas boas surpresas nesse processo”, avaliou.

Na visão do historiador, a Assembleia cearense possui atualmente um perfil mais progressista do que a Câmara dos Deputados. A eleição poderá preservar essa característica ou aproximá-la da correlação de forças nacional.

Agenda democrática precisa enfrentar desigualdades

Na parte final da entrevista, Evaldo defendeu que um Congresso comprometido com a democracia não se limite a preservar eleições regulares.

“Não basta a democracia do sistema eleitoral. Precisamos avançar ao lado da democracia social”, declarou.

Segundo ele, garantir o direito ao voto é indispensável, mas insuficiente quando milhões de pessoas permanecem sem acesso adequado a renda, educação, saúde e trabalho digno.

O próximo Congresso deverá enfrentar a desigualdade, proteger o Sistema Único de Saúde, valorizar a educação pública, fortalecer políticas universais e recuperar a centralidade do trabalho.

“É necessário construir um Congresso progressista que enfrente a desigualdade, defenda políticas públicas universais, valorize a educação e o SUS, proteja o meio ambiente e fortaleça a soberania nacional”, afirmou.

Evaldo encerrou a entrevista defendendo a eleição de uma bancada capaz de sustentar um novo governo Lula e impedir retrocessos sociais e institucionais.

“Essa é a nossa missão e nossa tarefa cidadã: construir um Congresso que ajude o Presidente Lula a governar pelo campo democrático e progressista, em defesa da soberania e da democracia”, concluiu.

Referências

  • O bêbado e a equilibrista, composição de João Bosco e Aldir Blanc, lançada em 1979
  • Palácio do Congresso Nacional, projeto de Oscar Niemeyer, inaugurado em 1960
  • Dark Horse, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro investigada pela Polícia Federal, com produção tornada pública em 2025

📺 Programa Café com Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 7h30 às 8h
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
👥 Torne-se membro do nosso canal no YouTube
💚 Apoie a comunicação popular!
📲 Pix: 85 996622120
✨ Siga o canal “Atitude Popular” no WhatsApp:
https://whatsapp.com/channel/0029Vb7GYfH8KMqiuH1UsX2O

Leia também