Da Redação
Estratégia para depois das eleições de novembro prevê usar comissões, intimações e audiências para investigar contratos públicos, grandes empresas, financiadores e possíveis conflitos de interesse. A prioridade não é afastar Trump imediatamente, mas construir uma cadeia de provas que poderá sustentar um novo impeachment.
As eleições legislativas de novembro nos Estados Unidos podem alterar profundamente a correlação de forças em Washington e abrir uma nova frente de confronto contra o presidente Donald Trump. Lideranças do Partido Democrata estão preparando uma ampla agenda de investigações para ser colocada em prática caso a legenda conquiste a maioria na Câmara dos Representantes, segundo informações obtidas pela Reuters e repercutidas pelo Brasil 247.
O plano não prevê começar por um terceiro processo de impeachment contra Trump. A estratégia é mais gradual: recuperar o controle das comissões parlamentares e utilizar os poderes de fiscalização da Câmara para requisitar documentos, convocar testemunhas, realizar audiências e expedir intimações. A partir daí, os democratas pretendem investigar possíveis abusos de poder, conflitos de interesse e relações financeiras entre integrantes do governo, empresas privadas e financiadores.
O impeachment aparece como uma possibilidade posterior, condicionada ao que as investigações encontrarem. O cálculo político é evitar que a tentativa de afastar Trump seja apresentada desde o início como objetivo partidário e, em vez disso, acumular evidências antes de decidir se existem elementos suficientemente graves para avançar contra o presidente.
A diferença é importante. Os democratas parecem ter concluído que uma nova ofensiva baseada inicialmente no impeachment poderia fortalecer Trump politicamente, permitindo que o presidente mobilizasse sua base sob o argumento de estar novamente sendo perseguido pelos adversários. A prioridade, portanto, seria estabelecer primeiro uma base documental capaz de sustentar eventuais acusações.
O líder democrata na Câmara, Hakeem Jeffries, não descartou o impeachment, mas indicou que questões econômicas e possíveis casos de corrupção deverão receber atenção prioritária. Na prática, a estratégia transformaria o controle das comissões parlamentares em uma das principais armas de fiscalização sobre a Casa Branca.
O alcance potencial dessas investigações é considerável. Apple, Alphabet — controladora do Google —, Palantir, Blackstone, BlackRock e empresas ligadas a Elon Musk aparecem entre as companhias que podem ser submetidas ao escrutínio parlamentar por causa de contratos governamentais, decisões regulatórias ou relações estabelecidas com a administração. A presença dessas empresas no planejamento democrata não significa que tenham cometido irregularidades nem que já exista investigação formal contra elas. O objetivo seria examinar possíveis conexões entre decisões governamentais e interesses empresariais beneficiados por essas políticas.
Outro eixo envolve contratos relacionados ao Departamento de Segurança Interna, além de doadores, empresas contratadas pelo governo e estruturas financeiras vinculadas a Trump e à sua família. Os democratas querem investigar se dinheiro privado, acesso ao governo e decisões tomadas pelo poder público formaram relações que possam caracterizar conflitos de interesse ou favorecimento.
A movimentação já começou antes mesmo das eleições. Parlamentares democratas enviaram pedidos de informações a empresas e organizações relacionadas aos assuntos que pretendem investigar. O objetivo é preparar terreno para que, em caso de vitória eleitoral, as comissões possam rapidamente converter pedidos voluntários de informações em intimações formais dotadas do poder institucional do Congresso.
A Comissão Judiciária da Câmara possui papel particularmente importante nesse processo. Além de exercer fiscalização sobre instituições como o Departamento de Justiça, o Departamento de Segurança Interna e o FBI, é essa comissão que pode recomendar à Câmara artigos de impeachment contra autoridades federais. Os democratas que atualmente integram o colegiado já mantêm investigações e cobranças relacionadas à administração Trump.
É justamente por isso que as eleições de meio de mandato adquirem dimensão muito maior do que uma simples disputa pela composição do Legislativo. Uma vitória democrata na Câmara significaria transferência do comando das comissões, capacidade de definir agendas de investigação e, sobretudo, poder de intimação. Executivos de empresas, funcionários do governo, financiadores e outras testemunhas poderiam ser obrigados a comparecer ou apresentar documentos.
A Casa Branca, naturalmente, poderá resistir. Caso isso aconteça, Washington poderá assistir a uma sucessão de disputas judiciais sobre privilégios do Executivo, acesso a documentos e extensão dos poderes fiscalizatórios do Congresso.
Trump conhece esse terreno como nenhum outro presidente norte-americano. Ele foi submetido a dois processos de impeachment em seu primeiro mandato e absolvido pelo Senado em ambos. Uma eventual nova iniciativa seria, portanto, inédita na história dos Estados Unidos: nenhum presidente foi alvo de três impeachments.
Mas conquistar a Câmara e aprovar um impeachment não significaria automaticamente retirar Trump do cargo. A Constituição norte-americana concede exclusivamente à Câmara dos Representantes o poder de aprovar o impeachment, enquanto cabe ao Senado realizar o julgamento. Para uma condenação presidencial no Senado são necessários dois terços dos senadores presentes — uma barreira política muito mais elevada.
Essa distinção é fundamental para compreender o que está realmente em disputa em novembro. Uma maioria democrata na Câmara poderia abrir investigações, controlar comissões e eventualmente aprovar artigos de impeachment. A remoção efetiva de Trump, entretanto, dependeria de uma correlação de forças muito mais difícil de alcançar no Senado.
O embate também revela algo maior sobre a atual crise política norte-americana. O conflito entre democratas e trumpistas deixou de se restringir às eleições presidenciais e passou a envolver o funcionamento das próprias instituições do Estado, a relação entre poder político e grandes corporações, o alcance da Presidência e a capacidade do Congresso de fiscalizar o Executivo.
Nesse cenário, empresas de tecnologia, fundos financeiros, companhias de defesa e grandes contratantes do Estado podem passar para o centro da disputa. O que estará sob investigação não será apenas a conduta individual de integrantes do governo, mas potencialmente a própria rede de relações entre poder econômico e poder político construída em torno da administração Trump.
Para o Brasil e para o restante do Sul Global, o resultado também interessa diretamente. Uma Casa Branca submetida a investigações parlamentares permanentes poderá ter sua capacidade política condicionada pela disputa doméstica justamente quando Washington enfrenta uma ordem internacional mais fragmentada, a ascensão da China, a expansão do BRICS e conflitos comerciais e diplomáticos em diferentes regiões.
As eleições de novembro poderão, portanto, produzir uma mudança substancial no segundo biênio do atual mandato de Trump. Caso os democratas retomem a Câmara, o presidente continuará ocupando a Casa Branca, mas poderá passar a governar diante de um Legislativo dotado de instrumentos para investigar profundamente sua administração.
O impeachment ainda não é o plano inicial. Mas voltou a integrar o horizonte político de Washington. E, desta vez, os democratas querem chegar a essa eventual batalha somente depois de reunir documentos, testemunhos e evidências capazes de transformar uma ofensiva política em um processo institucional de consequências imprevisíveis para os Estados Unidos.






