Jornalista afirma que Diretoria de Jornalismo será extinta; Eduardo Moreira diz que cortes fazem parte de uma reorganização para garantir a sustentabilidade financeira do instituto
Da Redação
Uma troca de cartas entre o jornalista Leandro Demori e o empresário Eduardo Moreira revelou divergências sobre a condução do Instituto Conhecimento Liberta (ICL) e tornou público um processo de reestruturação que inclui redução de custos e mudanças na direção do jornalismo.
Demori anunciou sua saída da empresa por meio de uma carta dirigida ao Conselho Editorial do ICL. No texto, ele afirma que a instituição atravessa dificuldades de arrecadação e diz que foi informado de que a Diretoria de Jornalismo, cargo que ocupava, seria extinta.
Segundo o jornalista, antes da decisão definitiva, a direção solicitou que ele promovesse uma redução de 30% no orçamento do setor.
“Tive uma reunião com a direção geral da empresa, na qual fui comunicado de que a Diretoria de Jornalismo, cargo que ocupo, seria extinta. Antes disso, no entanto, solicitaram que eu operasse um corte de 30% no orçamento da área.”
Na carta, Demori ressalta que as despesas do jornalismo eram acompanhadas e aprovadas pelo Comitê de Gestão de Jornalismo e Conteúdo e sustenta que as dificuldades financeiras decorrem de decisões tomadas pela direção da empresa.
“Esse orçamento sempre foi monitorado, controlado e aprovado pelo Comitê de Gestão de Jornalismo e Conteúdo. O ponto central das dificuldades financeiras atuais, portanto, não tem origem na área que hoje corre o risco de ser penalizada.”
O jornalista afirma ainda que tentou discutir alternativas antes da implementação das mudanças.
“Pedi à gestão que fizéssemos uma reunião ampliada com todos os diretores de áreas para construir uma solução conjunta, que consultássemos os sócios e que ouvíssemos novamente este Conselho antes de qualquer mudança ser implementada.”
Segundo Demori, a proposta não foi aceita e, na sexta-feira, ele foi informado de que não faria mais parte da empresa.
“Fui informado de que não faço mais parte dos planos do ICL, nem na Diretoria de Jornalismo e nem em qualquer outra iniciativa.”
A resposta de Eduardo Moreira
Pouco depois da divulgação da carta de Demori, Eduardo Moreira encaminhou uma mensagem aos profissionais do ICL apresentando sua versão sobre o processo de reorganização.
Segundo ele, o instituto iniciou uma nova fase administrativa para adequar seus custos à capacidade de investimento.
“O ICL entrou em uma nova etapa de sua história. Para que possamos garantir a continuidade e o fortalecimento do projeto no longo prazo, precisamos adequar nossa estrutura de custos à nossa capacidade de investimento.”
Moreira afirma que a revisão não se restringe ao jornalismo e vem sendo realizada em todas as áreas da empresa.
“Somos centenas de pessoas construindo um dos projetos mais ousados do país. Justamente por isso, temos a obrigação de agir com responsabilidade, fazendo os ajustes necessários para que o ICL continue crescendo sem abrir mão de sua independência.”
O fundador do instituto também explicou que o modelo de financiamento da organização depende exclusivamente da comercialização de cursos.
“Nosso modelo de negócios sempre foi simples: o jornalismo é financiado exclusivamente pelos cursos. Nunca contamos com verbas de publicidade ou propaganda, nem pública nem privada.”
Ao justificar as mudanças, Moreira afirmou que a decisão não representa uma avaliação sobre os profissionais afetados.
“Essa decisão não representa um julgamento sobre a qualidade profissional ou humana das pessoas envolvidas. Representa, exclusivamente, uma adequação à realidade financeira do projeto.”
A carta informa ainda que a programação eleitoral será mantida, que novos diretores serão anunciados para os principais programas jornalísticos e que o ICL prepara a mudança para uma nova sede, investimento que, segundo Moreira, será realizado com recursos próprios.
Um contraste inevitável
A troca pública de cartas também expõe um contraste difícil de ignorar. Eduardo Moreira construiu sua projeção nacional como analista de economia e defensor de modelos alternativos de gestão, frequentemente criticando a condução da política econômica do governo Lula. Agora, é o próprio ICL que passa por um processo de reestruturação motivado por limitações financeiras, com redução de custos, extinção de cargos e mudanças na direção do jornalismo.
Quando até os maiores precisam cortar gastos
O episódio também ajuda a dimensionar os desafios enfrentados pela mídia independente brasileira. O ICL tornou-se um dos maiores projetos de comunicação progressista do país, reunindo centenas de colaboradores, milhões de seguidores nas redes sociais e um modelo próprio de financiamento baseado na venda de cursos.
Ainda assim, a direção afirma que precisou reduzir despesas para preservar a sustentabilidade financeira da instituição. A realidade costuma ser ainda mais dura para veículos populares de menor porte, que dependem de pequenas doações, trabalho colaborativo e receitas muito mais limitadas. É o caso da Atitude Popular, cuja estrutura é incomparavelmente menor e que enfrenta diariamente os desafios de manter um projeto jornalístico sem grandes patrocinadores ou contratos publicitários.
Se até um dos maiores projetos da mídia independente brasileira afirma precisar reorganizar suas contas para continuar crescendo, a situação enfrentada por iniciativas populares revela o tamanho das dificuldades impostas ao setor. A Atitude Popular conhece essa realidade de perto. Sem grandes patrocinadores ou investidores, o veículo depende do apoio de seus leitores e espectadores para manter sua operação. Uma das iniciativas em andamento é a rifa solidária organizada pela equipe, criada justamente para arrecadar recursos destinados à manutenção do projeto. Em um ambiente de custos crescentes e receitas limitadas, iniciativas como essa ajudam a garantir a continuidade de um jornalismo comprometido com o interesse público.
As especulações sobre a crise
A divulgação das duas cartas também alimentou diferentes interpretações entre profissionais da comunicação e usuários das redes sociais.
Uma das hipóteses atribui parte das dificuldades a mudanças na linha editorial do instituto. Segundo essa leitura, críticas frequentes dirigidas ao Supremo Tribunal Federal poderiam ter reduzido o alcance orgânico dos conteúdos publicados nas plataformas digitais. Alguns observadores argumentam que investimentos em impulsionamento poderiam ter abafado a identificação da queda de audiência espontânea.
Até o momento, porém, não foram apresentados dados públicos que confirmem essa hipótese.
Outra interpretação menciona o programa ICL Eterno, modalidade criada pelo instituto para oferecer acesso permanente aos cursos mediante pagamento único. Nas redes sociais surgiram comentários sugerindo que a iniciativa teria provocado frustração em parte dos apoiadores. No entanto, é característico do público que financia o ICL o interesse não apenas pelo acesso aos cursos, mas também pelo interesse em sustentar financeiramente um veículo de comunicação alinhado às suas posições políticas.
Nas redes sociais, alguns usuários também levantaram a hipótese de que a repercussão das cartas pudesse acabar beneficiando o ICL Eterno ao gerar grande visibilidade para o projeto. Até o momento, essa interpretação não passa de especulação. Não há fatos conhecidos que indiquem que a crise tenha sido planejada como estratégia de divulgação.
Disputa por espaço dentro da mídia progressista
A reestruturação também recolocou em discussão a posição ocupada pelo ICL dentro do próprio campo progressista. Nos últimos anos, Eduardo Moreira passou a defender publicamente um processo acelerado de expansão do instituto, com a criação de novos programas, novos canais e novos formatos de produção.
Ao mesmo tempo, tornaram-se frequentes críticas dirigidas a outros veículos de comunicação independentes durante transmissões e publicações do próprio ICL. Em diferentes ocasiões, Moreira afirmou que pretendia ampliar o alcance do instituto a ponto de “acabar com a concorrência”.
Esse posicionamento foi recebido de maneiras distintas. Parte do público considera natural que um veículo busque crescer e conquistar audiência. Outra parte avalia que a estratégia acabou produzindo tensões desnecessárias com iniciativas que compartilham o mesmo campo político e disputam uma base semelhante de apoiadores.
Independentemente das interpretações, a saída de Leandro Demori ocorre em um momento que expõe não apenas os desafios financeiros enfrentados pelo ICL, mas também os debates sobre o modelo de crescimento, a gestão e o papel que o instituto pretende ocupar na comunicação progressista brasileira.






