Deputado do PL articulou encontro reservado entre Vorcaro e André Mendonça em instituto ligado ao ministro

Da Redação

Mensagens extraídas do celular do ex-controlador do Banco Master mostram que Cezinha de Madureira organizou a reunião realizada em São Paulo, informou a Vorcaro que o ministro já o aguardava e, segundo áudios divulgados nesta quarta-feira, havia conversado anteriormente com Mendonça sobre a situação do banco no Banco Central. O ministro confirma que recebeu o banqueiro, mas afirma que a conversa tratou exclusivamente de um processo sobre precatórios e nega qualquer favorecimento.

As revelações sobre a relação entre Daniel Vorcaro e integrantes do sistema político e judicial brasileiro ganharam um novo capítulo nesta quarta-feira com a divulgação de mensagens que mostram a participação direta do deputado federal Cezinha de Madureira, do PL de São Paulo, na organização de uma reunião entre o então controlador do Banco Master e o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. O encontro aconteceu em março de 2025, em São Paulo, fora das instalações do STF, num endereço onde funciona o Instituto ITER, instituição fundada pelo próprio Mendonça dois anos antes.

O material foi originalmente obtido pelo jornalista Paulo Motoryn, da newsletter Noites Húngaras, a partir de mensagens, áudios e registros encontrados no celular de Vorcaro. O conjunto permite reconstruir com bastante precisão a articulação realizada para aproximar o banqueiro do ministro. Não demonstra, entretanto, que Mendonça tenha concedido qualquer benefício ilegal ao empresário ou interferido em órgãos públicos em seu favor — distinção fundamental diante da gravidade política do episódio.

A sequência começa antes da reunião efetivamente realizada. Conversas envolvendo o advogado Ciro Rocha Soares, que atuava para interesses ligados ao Banco Master, mostram um esforço para conseguir acesso ao ministro. Em um áudio enviado a Vorcaro em fevereiro de 2025, Ciro afirmou que Mendonça queria recebê-lo e acrescentou que o magistrado já conhecia a situação enfrentada pelo banco no Banco Central. Segundo o advogado, tanto ele quanto Cezinha de Madureira haviam conversado com Mendonça sobre o tema.

A formulação chama atenção porque contrasta com a versão apresentada posteriormente pelo ministro. André Mendonça confirma que recebeu Daniel Vorcaro, mas afirma que o Banco Master e os problemas da instituição perante o Banco Central não foram objeto da conversa. Segundo seu gabinete, a audiência tratou da Suspensão de Tutela Provisória 976, processo relacionado ao pagamento de precatórios envolvendo créditos ligados à Agroindustrial Tabu e nos quais o Master possuía interesse econômico. O ministro afirma ainda que se limitou a ouvir o empresário.

Essa diferença entre o que os intermediários diziam antes da reunião e a versão do ministro sobre aquilo que efetivamente foi discutido transforma o episódio numa questão relevante de transparência institucional. Até agora, não há uma ata pública ou registro integral do encontro capaz de estabelecer de maneira independente todos os assuntos abordados.

“Ministro já está te esperando”

As mensagens publicadas pelo Brasil 247 mostram que Cezinha de Madureira não desempenhou papel meramente incidental. Foi o deputado quem comunicou a Vorcaro a confirmação da audiência. Em 13 de março de 2025, informou que o encontro seria realizado às 17 horas do dia seguinte, em São Paulo, e transmitiu ao banqueiro o endereço: Alameda Santos, 647, 16º andar. Vorcaro respondeu confirmando o compromisso, enquanto o parlamentar afirmou que estaria no local para recebê-lo.

No dia seguinte, os registros acompanham o deslocamento do banqueiro. Às 16h37, Vorcaro avisou Cezinha que estava a caminho. Poucos minutos depois, o deputado respondeu que Mendonça já estava esperando por ele. Paralelamente, mensagens enviadas ao motorista do empresário registram o mesmo endereço e sua movimentação até o imóvel. Vorcaro voltou a procurar o motorista às 18h40, dizendo que estava saindo.

Esse intervalo levou a reportagem original a registrar que o banqueiro permaneceu cerca de duas horas no imóvel. Mendonça, porém, disse posteriormente que a conversa entre os dois durou aproximadamente 20 a 30 minutos. As duas informações não são necessariamente contraditórias: a permanência de Vorcaro no local não prova que ele tenha passado todo o período reunido diretamente com o ministro.

O local escolhido também passou a integrar os questionamentos. A reunião não aconteceu no gabinete do ministro no Supremo, em Brasília, nem numa dependência oficial da Corte. O endereço corresponde ao Instituto ITER, entidade de ensino criada por Mendonça em 2023. A agenda pública do magistrado não registrava o encontro com Vorcaro, segundo as reportagens que revelaram o episódio.

Receber partes, empresários e advogados interessados em processos não constitui, por si só, irregularidade. Ministros de tribunais superiores mantêm rotineiramente audiências com representantes de partes e escritórios. O aspecto sensível neste caso está na maneira como a aproximação foi construída, na ausência de registro público do compromisso e no fato de que os intermediários afirmavam anteriormente ter levado ao ministro informações relacionadas à situação do Master no Banco Central.

Cezinha possui vínculos políticos e religiosos com o campo evangélico que também compõe a trajetória pública de Mendonça. O deputado é uma figura de destaque ligada à Assembleia de Deus Ministério de Madureira e atua na Frente Parlamentar Evangélica, enquanto o ministro, pastor presbiteriano, foi indicado ao Supremo por Jair Bolsonaro em 2021 depois de o então presidente anunciar que pretendia colocar na Corte um nome “terrivelmente evangélico”. O vínculo religioso, naturalmente, não demonstra qualquer irregularidade; ajuda apenas a explicar um dos canais sociais pelos quais a aproximação teria ocorrido.

Segundo Mendonça, o pedido para receber Vorcaro chegou por intermédio de Cezinha e de pessoas próximas à Igreja Batista da Lagoinha. O ministro sustenta que recebeu o banqueiro uma única vez e que o encontro se restringiu ao processo sobre os precatórios. Também afirma que recebeu o advogado ligado ao caso em outra ocasião, separadamente.

O que os áudios acrescentam ao caso

O elemento mais delicado não é apenas a existência da reunião, mas aquilo que aparece nas conversas preparatórias. Ciro Rocha Soares informou a Vorcaro que Mendonça já conhecia a situação enfrentada pelo Master perante o Banco Central porque o próprio advogado havia explicado o assunto e porque Cezinha também teria conversado anteriormente com o ministro.

Em outro material divulgado nesta quarta-feira, Ciro aparece enviando a Vorcaro uma fotografia ao lado de Mendonça e afirmando estar “trabalhando por você”. Segundo o UOL, o advogado sustenta que sua atuação consistia na interlocução normal realizada por profissionais da advocacia para conseguir audiências e apresentar assuntos de clientes a autoridades. Ele também ressalta que, naquele momento, Vorcaro não era investigado criminalmente no caso que posteriormente chegaria ao STF e Mendonça ainda não era relator das investigações sobre o Banco Master.

Essa cronologia é essencial. O encontro ocorreu em março de 2025. Mendonça somente assumiria posteriormente a relatoria de investigações relacionadas ao Master no Supremo. Não é correto, portanto, afirmar que Vorcaro se reuniu naquele momento com o “relator do caso Master”, porque essa condição ainda não existia.

O que tornou a reunião institucionalmente mais sensível foi justamente o que aconteceu depois. Mendonça tornou-se responsável por decisões importantes dentro das apurações relacionadas ao banco e, nos últimos dias, determinou a produção e a divulgação de informações que expuseram mensagens entre Vorcaro e Alexandre de Moraes. Sua atuação passou a gerar uma forte crise dentro do Supremo, além de atritos com integrantes da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República.

Com a revelação do encontro de 2025, surge uma situação particularmente delicada: o ministro que hoje conduz uma investigação destinada a esclarecer a rede de relações do banqueiro também aparece dentro dessa mesma rede de contatos, ainda que, até agora, em condições muito diferentes das atribuídas a outras autoridades.

Isso não demonstra conflito de interesses automaticamente. Tampouco prova participação de Mendonça em qualquer esquema. Mas exige que as circunstâncias sejam esclarecidas integralmente, sobretudo porque o próprio ministro adotou uma postura rigorosa na exposição das relações mantidas por Vorcaro com outros integrantes das instituições de Estado.

O episódio ganha ainda uma dimensão adicional porque Cezinha de Madureira também passou recentemente a aparecer em outra frente investigativa. Segundo o Brasil 247, a Polícia Federal apreendeu R$ 510 mil em espécie com Valéria Linhares, esposa do deputado, durante uma abordagem no Aeroporto de Congonhas em agosto. O veículo informou ainda que ela foi assistida pelo advogado Daniel Bialski, profissional que também integra a defesa de Vorcaro. Esses fatos pertencem a uma apuração distinta e, por si sós, não estabelecem relação ilícita entre a apreensão do dinheiro e a reunião organizada em 2025.

A cautela é necessária porque o caso Master se transformou numa extensa rede de investigações na qual contatos políticos, relações profissionais, negócios, audiências e eventuais ilícitos aparecem misturados. Nem todo contato com Vorcaro constitui prova de crime. Nem toda reunião significa favorecimento. O trabalho jornalístico precisa separar com precisão aquilo que está documentado daquilo que ainda precisa ser demonstrado.

Neste episódio, o que está documentado é relevante: Cezinha de Madureira organizou a aproximação, marcou a reunião e informou a Vorcaro que Mendonça já o aguardava; mensagens anteriores indicam que pessoas ligadas ao banqueiro diziam ter tratado com o ministro da situação do Master no Banco Central; Vorcaro compareceu ao instituto fundado pelo magistrado; e Mendonça confirma que recebeu o empresário.

O que não está provado é igualmente importante: não há, no material divulgado até agora, evidência de que Mendonça tenha prometido favores, interferido no Banco Central, utilizado seu cargo para proteger Vorcaro ou tomado decisão judicial destinada a beneficiar ilegalmente o Master. O ministro sustenta, inclusive, que sua atuação posterior no processo de precatórios contrariou o interesse defendido pelo empresário.

A questão que permanece é institucional. Se a investigação do Banco Master pretende reconstruir com rigor a capacidade que Daniel Vorcaro possuía de acessar autoridades e mobilizar intermediários dentro de Brasília, as relações do banqueiro precisam ser examinadas com a mesma régua, independentemente de quem apareça nas mensagens.

O caso deixa de ser apenas sobre um empresário que buscava políticos e autoridades. Ele passa a revelar como funcionavam os canais informais que davam a Vorcaro acesso a centros de decisão do Estado brasileiro. No episódio agora conhecido, um deputado federal atuou diretamente para levá-lo até um ministro do Supremo, enquanto pessoas próximas ao banqueiro diziam ao empresário que a situação do banco no Banco Central já havia sido apresentada previamente ao magistrado.

Nenhum desses elementos permite antecipar uma conclusão criminal. Mas são suficientes para tornar necessária uma pergunta simples e objetiva: qual era exatamente a natureza da relação entre Daniel Vorcaro, seus intermediários e André Mendonça — e por que um encontro dessa relevância permaneceu desconhecido até que as mensagens do celular do banqueiro viessem a público?

Essa resposta agora interessa não apenas ao caso Master. Interessa à credibilidade das instituições responsáveis por investigá-lo.

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