Desconfiança no STF salta dez pontos em um mês e chega a 56%, mostra Quaest

Da Redação

Levantamento divulgado às vésperas da sessão extraordinária sobre o caso Moraes-Vorcaro registra queda expressiva da confiança na Corte; outros institutos também detectam desgaste, mas os dados mostram uma sociedade que simultaneamente critica o poder do Supremo e reconhece sua importância para a democracia

A crise que atravessa o Supremo Tribunal Federal já produziu um efeito mensurável fora dos gabinetes dos ministros. Pesquisa Quaest divulgada nesta segunda-feira, 14 de setembro, mostra que 56% dos brasileiros afirmam não confiar no STF, contra 46% em agosto — uma alta de dez pontos percentuais em apenas um mês. No sentido contrário, a parcela que diz confiar muito na Corte caiu pela metade, de 18% para 9%. Outros 30% responderam confiar pouco no Supremo, ante 33% anteriormente. O levantamento ouviu presencialmente 2.004 pessoas entre 10 e 13 de setembro, tem margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-03607/2026.

Os números são especialmente relevantes pela velocidade da mudança. Em março deste ano, outra rodada da Genial/Quaest já havia identificado deterioração da imagem institucional: 49% declaravam não confiar no Supremo e 43% diziam confiar. Naquele momento, a desconfiança já havia superado a confiança na série comparável apresentada pelo instituto. Seis meses depois, o indicador negativo chega a 56%. As perguntas e categorias de resposta das diferentes rodadas precisam ser observadas com cuidado antes de comparações lineares, mas a direção geral é inequívoca: a reputação do tribunal atravessa um período de forte desgaste.

O momento da coleta ajuda a compreender a relevância política do resultado, mas não autoriza estabelecer causalidade automática. As entrevistas ocorreram entre quinta-feira, 10, e domingo, 13, justamente durante a escalada da crise envolvendo Alexandre de Moraes, André Mendonça, a Polícia Federal e as investigações sobre Daniel Vorcaro e o Banco Master. Nesse intervalo, o país acompanhou decisões conflitantes sobre o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, disputas pelo acesso aos dados do celular de Vorcaro, acusações entre integrantes da Corte e a intervenção do presidente Edson Fachin para suspender decisões e levar parte da controvérsia ao plenário. Em 9 de setembro, Fachin anunciou oficialmente decisões em três procedimentos distintos e reorganizou a condução institucional da crise.

Seria precipitado, entretanto, afirmar que os dez pontos de aumento da desconfiança foram produzidos exclusivamente pelos acontecimentos das últimas semanas. A erosão antecede a atual fase da crise. Em março, a própria Quaest já mostrava forte polarização na percepção do tribunal: 71% dos entrevistados identificados como lulistas confiavam no STF, enquanto 84% dos identificados como bolsonaristas declaravam não confiar. Entre os independentes, a desconfiança já superava ligeiramente a confiança, 51% a 36%. O dado revelava uma dificuldade estrutural para uma instituição cuja legitimidade depende precisamente da percepção de que suas decisões não pertencem a um dos campos da disputa política.

O que torna o resultado de setembro particularmente importante é que outros levantamentos recentes apontam desgaste semelhante, embora utilizando perguntas e metodologias diferentes. Pesquisa Meio/Ideia realizada entre 4 e 7 de setembro encontrou 21,3% dos entrevistados dizendo não ter nenhuma confiança no STF e outros 28,4% declarando pouca confiança. Apenas 7,3% afirmaram ter muita confiança. Mais sensível ainda, 51,6% concordaram com a afirmação de que ministros do Supremo decidem mais por interesse próprio do que pela lei. Como as categorias de resposta não são iguais às da Quaest, os percentuais não podem ser simplesmente somados ou tratados como a mesma medida. A convergência está na direção do fenômeno: diferentes pesquisas estão captando deterioração da percepção pública sobre a Corte.

O Datafolha acrescentou neste fim de semana uma aparente contradição que ajuda a compreender melhor o estado da opinião pública. Nada menos que 76% dos entrevistados disseram considerar que os ministros do STF possuem poder excessivo e 77% avaliaram que a instituição era mais respeitada no passado. Ao mesmo tempo, 71% afirmaram considerar o Supremo importante para a defesa da democracia brasileira. A pesquisa ouviu 2.002 eleitores entre 8 e 10 de setembro, em 125 municípios, com margem de erro de dois pontos percentuais.

Esse cruzamento é provavelmente mais revelador do que qualquer número isolado. Uma parcela expressiva da sociedade pode considerar o STF indispensável para a ordem democrática e, simultaneamente, acreditar que seus integrantes acumularam poder excessivo. Pode reconhecer a função constitucional da instituição e desaprovar a maneira como ela vem sendo exercida. Desconfiança no Supremo, portanto, não equivale automaticamente a rejeição da democracia constitucional nem a apoio a ataques contra a Corte.

A diferença é decisiva porque a legitimidade de um tribunal constitucional possui duas dimensões que não são idênticas. Existe a legitimidade jurídica, derivada da Constituição, das competências institucionais e da validade das decisões. E existe a legitimidade social, relacionada à confiança de que essas competências são exercidas segundo regras estáveis, impessoais e compreensíveis. Uma decisão judicial não deixa de valer porque é impopular. Mas uma instituição que sistematicamente perde confiança pública enfrenta dificuldades crescentes para fazer com que suas decisões sejam percebidas como aplicação do direito, e não simplesmente como exercício de poder.

A atual crise é especialmente corrosiva porque atinge exatamente essa fronteira. O caso Master colocou ministros do Supremo diante de investigações e alegações que alcançam integrantes da própria Corte. André Mendonça conduziu diligências que produziram elementos relacionados a Alexandre de Moraes; Moraes contestou o procedimento e acusou o colega de atuação seletiva; decisões sobre a direção da Polícia Federal entraram em choque; Fachin precisou suspender comandos conflitantes e transferir parte da controvérsia para o plenário. Nenhuma dessas acusações, isoladamente, comprova irregularidade de Moraes ou Mendonça. Mas o espetáculo institucional produzido pela sequência de decisões é, por si, um problema reputacional.

A Quaest também mediu como a população enxerga especificamente o conflito entre os dois ministros. Segundo o levantamento, 37% consideram que Mendonça tem agido corretamente no embate, enquanto 16% apontam Moraes. O dado não constitui julgamento jurídico sobre a conduta de nenhum deles. Mede percepção pública em meio a uma controvérsia ainda em desenvolvimento, formada a partir das informações disponíveis aos entrevistados durante os dias da pesquisa.

Essa diferença entre percepção e prova precisa permanecer no centro da cobertura. Pesquisas de opinião podem medir confiança, reputação e avaliação política; não podem determinar se uma diligência foi legal, se uma mensagem demonstra interferência ou se um ministro cometeu irregularidade. Essas perguntas pertencem ao campo da prova e do devido processo. Da mesma maneira, a existência de uma investigação não comprova culpa, e contatos encontrados no celular de Vorcaro não demonstram automaticamente atuação ilícita de seus interlocutores.

Há ainda outro resultado da mesma rodada da Quaest que impede transformar o desgaste do STF numa conclusão automática sobre a eleição presidencial. Segundo o levantamento, 67% afirmam que a crise da Corte não altera sua escolha para presidente; 22% dizem que os acontecimentos reforçam a opção que já possuem e apenas 7% admitem considerar uma mudança de candidato. Ou seja: a crise institucional repercute fortemente sobre a imagem do Supremo, mas os próprios dados disponíveis não autorizam concluir que essa deterioração esteja sendo mecanicamente transferida para o voto.

A preocupação dos entrevistados com corrupção, contudo, cresceu. Nesta rodada, 22% passaram a apontá-la como o principal problema do país. O aumento ocorre enquanto o caso Master ocupa espaço crescente no debate público e eleitoral. Também aqui é preciso evitar causalidade que a pesquisa não demonstra: o levantamento registra as duas coisas simultaneamente, mas não permite afirmar que cada entrevistado passou a preocupar-se com corrupção especificamente por causa das revelações relacionadas ao banco ou ao STF.

O conjunto das pesquisas produz uma fotografia mais complexa do que a simples afirmação de que “o brasileiro não confia no Supremo”. O que aparece é uma instituição reconhecida por grande parcela da sociedade como importante para a democracia, mas percebida também como excessivamente poderosa e cada vez menos confiável. Essa combinação é particularmente delicada porque revela que a crítica ao tribunal já ultrapassa os segmentos que historicamente mantêm posição hostil à Corte.

Para o próprio STF, a resposta mais consistente a esse quadro dificilmente virá de uma batalha de comunicação. Confiança institucional não pode ser decretada nem recuperada pela simples defesa corporativa dos ministros. Ela depende de decisões cuja lógica possa ser compreendida, procedimentos previsíveis, critérios aplicados igualmente aos envolvidos, transparência compatível com a proteção de investigações e capacidade de corrigir eventuais erros sem transformar divergências jurídicas em guerras pessoais.

É exatamente por isso que a sessão extraordinária desta terça-feira ganhou importância muito maior do que o destino imediato da Petição relacionada a Moraes. O tribunal estará diante de um problema que envolve seus próprios integrantes, a Polícia Federal, a PGR e um conjunto de informações retiradas do celular de Daniel Vorcaro. O STF terá de demonstrar que consegue investigar fatos capazes de atingir seus ministros sem produzir nem imunidade corporativa nem atalhos processuais.

Os 56% registrados pela Quaest não são um veredicto sobre a constitucionalidade das decisões do Supremo e muito menos uma autorização para ataques à instituição. São um sinal de opinião pública. E sinais dessa magnitude merecem atenção precisamente porque tribunais constitucionais não deveriam governar segundo pesquisas.

A resposta institucional adequada, portanto, não é tentar conquistar popularidade, mas reconstruir previsibilidade e confiança por meio das próprias regras. A pesquisa mostra que o problema já chegou à sociedade. A sessão desta terça-feira começará a mostrar se o Supremo consegue responder a ele como Corte — e não como uma soma de onze ministros em conflito.

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