Rockbridge Network, criada pelo vice-presidente dos Estados Unidos e financiada por grandes doadores da direita americana, chegou a estruturar uma operação brasileira, enquanto um de seus articuladores passou a atuar próximo ao QG de Flávio em São Paulo. Documentos, propaganda paga no exterior e novas informações sobre a atuação de Washington aumentam as suspeitas de interferência estrangeira, mas ainda não há prova pública de repasse direto de recursos à campanha
Da Redação
A quatro dias do primeiro turno da eleição presidencial, uma sequência de documentos, investigações jornalísticas e informações obtidas dentro dos governos brasileiro e americano começa a revelar uma estrutura muito maior por trás da aproximação entre a candidatura de Flávio Bolsonaro e o ecossistema político que sustenta Donald Trump nos Estados Unidos. No centro dessa história está a Rockbridge Network, organização fundada pelo atual vice-presidente americano, J.D. Vance, financiada por grandes empresários conservadores e criada nos Estados Unidos para construir aquilo que seus próprios integrantes descrevem como uma infraestrutura política de longo prazo.
Durante semanas, a suspeita mais grave foi apresentada de maneira direta: dinheiro americano estaria financiando a candidatura de Flávio Bolsonaro. A acusação partiu inicialmente do candidato Renan Santos, do Missão, e chegou ao Supremo Tribunal Federal por meio de representações do PT. Até agora, porém, não apareceu prova pública de uma transferência financeira da Rockbridge, de Donald Trump, de J.D. Vance ou do governo dos Estados Unidos para as contas eleitorais de Flávio. A campanha e os empresários citados negam financiamento estrangeiro.
O que apareceu é diferente, mas está longe de ser irrelevante.
Documentos publicados nos últimos dias mostram que a Rockbridge efetivamente iniciou um movimento para se instalar no Brasil, criou uma pessoa jurídica nos Estados Unidos chamada Rockbridge Brazil LLC e discutiu um modelo destinado a captar recursos privados para construir uma infraestrutura política e social conservadora no país. O projeto previa atuação em mídia, universidades, formação de jovens e produção de informações para parlamentares. Outro documento propunha um Conselho de Tecnologia destinado a uma eventual administração de Flávio Bolsonaro e colocava majoritariamente empresários e investidores estrangeiros em sua composição.
A revelação mais recente torna a cronologia ainda mais importante. A Rockbridge americana afirmou inicialmente que a iniciativa brasileira não havia prosperado e que terceiros estavam utilizando seu nome sem autorização. Documentos localizados posteriormente mostram, entretanto, que em janeiro de 2026, quatro meses antes da abertura formal da Rockbridge Brazil LLC, o site oficial da representação sul-coreana da organização já apresentava o Brasil entre os países para os quais a rede estava se expandindo.
A questão deixou, portanto, de ser apenas saber se alguém transferiu dólares para uma conta eleitoral. O que precisa ser investigado é se uma organização política estrangeira construiu ou tentou construir no Brasil uma infraestrutura capaz de oferecer à candidatura de Flávio Bolsonaro dinheiro, serviços, tecnologia, propaganda, inteligência política ou qualquer outro benefício economicamente mensurável.
Pela legislação brasileira, a diferença é decisiva. O financiamento estrangeiro proibido não precisa necessariamente assumir a forma rudimentar de uma transferência bancária enviada diretamente para a conta de campanha. Recursos, bens ou serviços provenientes de fontes estrangeiras também podem produzir consequências eleitorais se forem utilizados para beneficiar uma candidatura.
É exatamente por isso que a investigação precisa seguir o dinheiro, mas não apenas o dinheiro.
Precisa seguir também as empresas, os consultores, os anúncios, os serviços, os dados e as pessoas que começaram a aparecer entre Washington, o universo trumpista e o comitê eleitoral de Flávio Bolsonaro.
A rede de J.D. Vance chegou ao Brasil
A Rockbridge Network foi criada em 2019 por J.D. Vance e pelo investidor Chris Buskirk. Vance posteriormente se tornou vice-presidente dos Estados Unidos. Buskirk tornou-se também sócio de Donald Trump Jr. na 1789 Capital. A rede cresceu reunindo empresários e grandes financiadores conservadores interessados em construir uma estrutura política permanente para a direita americana, especialmente nas áreas de comunicação, tecnologia, formação de quadros e mobilização eleitoral.
Entre os nomes associados ao universo de financiadores da organização estão alguns dos personagens mais poderosos da direita tecnológica americana, incluindo Peter Thiel e Rebekah Mercer. A Rockbridge não funciona simplesmente como um comitê eleitoral tradicional. Seu modelo consiste em financiar instituições capazes de produzir influência política durante anos, criando meios de comunicação, organizações, pesquisas, redes de ativistas e estruturas destinadas a disputar diferentes espaços da sociedade.
Foi justamente esse modelo que apareceu nos documentos relacionados ao Brasil.
Um dos materiais descrevia a Rockbridge Brasil como uma espécie de fundo de venture capital político voltado à construção de uma plataforma de investimento na infraestrutura política e social brasileira. A proposta identificava três frentes prioritárias: mídia, formação de jovens e atividade legislativa. Na área de comunicação, o objetivo seria apoiar e organizar veículos conservadores. Nas universidades, financiar movimentos e formar novos quadros. No Legislativo, fornecer pesquisas e informações a parlamentares alinhados.
Os documentos também apresentavam duas categorias de integrantes. Uma delas exigiria contribuição anual de US$ 500 mil. Outra, de US$ 1 milhão. Os pagamentos poderiam ser realizados em dólares, criptomoedas, ações e diferentes estruturas empresariais. A categoria superior ofereceria inclusive participação no conselho estratégico da organização brasileira e acesso a encontros reservados com grandes doadores e políticos internacionais.
A matriz americana sustenta que o projeto acabou rejeitado, que a empresa aberta nos Estados Unidos nunca recebeu recursos e que nunca entrou efetivamente em operação. Também afirma que a proposta brasileira seria empresarial e não eleitoral.
Essa versão, entretanto, passou a conviver com documentos que mostram uma articulação mais extensa do que inicialmente admitido.
Em janeiro, uma representação oficial da própria rede já mencionava a expansão para o Brasil. Em abril, apareceu o projeto do Conselho de Tecnologia destinado a Flávio Bolsonaro. Em maio, foi registrada a Rockbridge Brazil LLC no Wyoming. No mesmo período, integrantes do circuito empresarial brasileiro viajaram aos Estados Unidos e mantiveram contatos com membros da organização.
A sequência não prova que dinheiro tenha chegado à campanha.
Mas demonstra que havia uma operação em construção.
Um articulador da Rockbridge dentro do ambiente da campanha
É nesse ponto que aparece Pedro Sang.
O empresário brasileiro participou das articulações relacionadas à chegada da Rockbridge ao país e foi apresentado nos documentos como diretor-executivo da operação brasileira, responsável por “articulação e estratégia”. Sang afirma que nunca se tornou formalmente membro da organização e que a iniciativa acabou suspensa em maio.
O problema é que seu nome reaparece depois dentro do ambiente da campanha de Flávio Bolsonaro.
Apuração jornalística identificou Sang atuando no comitê da candidatura em São Paulo, instalado num imóvel próximo ao Parque Ibirapuera. Pessoas com acesso ao QG relataram que ele participou da montagem da estrutura, procurou fornecedores, manteve contato direto com Flávio e trabalhou a partir de uma sala no segundo andar. Segundo essas fontes, dentro do comitê ele chegou a ser chamado de “Pedro da Rockbridge”.
Sang não nega que acompanhe a campanha. Afirma fazê-lo como cidadão preocupado com o futuro do país e diz desconhecer qualquer financiamento da Rockbridge destinado à candidatura.
Novamente, é necessário distinguir proximidade de prova.
A presença de um articulador relacionado à tentativa de instalação da Rockbridge dentro do ambiente eleitoral de Flávio não demonstra que a organização americana tenha financiado a campanha. Mas cria uma conexão concreta que precisa ser esclarecida: quais atividades Sang desempenhou, quem pagou por elas, quais fornecedores foram contratados, se houve serviços voluntários, quais relações foram mantidas com integrantes da rede americana e se qualquer estrutura desenvolvida durante o projeto Rockbridge Brasil acabou aproveitada eleitoralmente.
Essas perguntas são particularmente importantes porque o financiamento eleitoral não se resume a dinheiro.
Um serviço prestado gratuitamente possui valor.
Tecnologia possui valor.
Pesquisas possuem valor.
Consultoria possui valor.
Infraestrutura possui valor.
Propaganda possui valor.
Se qualquer um desses benefícios tiver origem estrangeira e for destinado a favorecer uma candidatura, a discussão jurídica muda completamente.
Propaganda paga apareceu nos Estados Unidos
Existe ainda outra frente.
Em setembro, uma investigação identificou pelo menos 11 contas estrangeiras no X publicando conteúdo pago relacionado à candidatura de Flávio Bolsonaro. Grande parte dos perfis estava ligada ao ecossistema político trumpista. As postagens promoviam principalmente o crescimento do candidato brasileiro nos mercados de previsão da Polymarket e algumas apresentavam conteúdo explicitamente favorável a Flávio.
As publicações apareciam identificadas como “parceria paga”, mas sem revelar claramente quem havia financiado a divulgação.
A campanha de Flávio afirmou não ter conhecimento dos anúncios.
O caso possui uma conexão adicional com o círculo de Trump. Donald Trump Jr. é conselheiro de empresas ligadas a esse mercado e a 1789 Capital, gestora da qual é sócio, realizou um investimento de aproximadamente US$ 500 milhões na Polymarket. O fundador da plataforma, Shayne Coplan, também participou de encontro da Rockbridge nos Estados Unidos.
Nada disso demonstra que Trump Jr., a Rockbridge ou a própria Polymarket tenham financiado propaganda eleitoral ilegal no Brasil. Mas existe uma questão objetiva que precisa ser esclarecida: quem pagou aos influenciadores estrangeiros para promover conteúdos relacionados a Flávio Bolsonaro?
A legislação eleitoral brasileira proíbe que terceiros realizem impulsionamento pago em benefício de candidatos e estabelece restrições particularmente severas quando existe origem estrangeira.
A resposta está potencialmente nos registros das plataformas e nas empresas responsáveis pelos pagamentos.
Terras raras aparecem no mesmo tabuleiro
A suspeita de financiamento ganhou dimensão ainda maior porque a aproximação política ocorre paralelamente a uma disputa estratégica pelos minerais brasileiros.
Os Estados Unidos procuram reduzir sua dependência da China no fornecimento de terras raras, especialmente dos elementos pesados utilizados em tecnologias militares, inteligência artificial, eletrônicos, energia e sistemas avançados de defesa. O Brasil possui algumas das maiores reservas conhecidas do planeta e passou a ocupar posição central nessa disputa.
Reportagem publicada nesta quarta-feira revelou que o próprio governo Trump esteve dividido entre duas prioridades em relação ao Brasil. Uma ala mais ideológica do Departamento de Estado defendia maior apoio político a Flávio Bolsonaro. Outra, ligada ao Conselho de Segurança Nacional, priorizava uma estratégia pragmática para assegurar acesso americano às terras raras brasileiras.
Segundo fontes americanas ouvidas na apuração, personagens como Darren Beattie e Christopher Landau apareciam entre os defensores de uma linha politicamente mais próxima do bolsonarismo, enquanto integrantes do Conselho de Segurança Nacional estavam concentrados principalmente na competição estratégica com a China.
Essa disputa interna não prova financiamento eleitoral.
Mas ajuda a explicar por que a eleição brasileira passou a ser observada em Washington como uma questão estratégica.
Também existe um documento relacionado às articulações empresariais da Rockbridge que projetava um alinhamento tecnológico brasileiro com os Estados Unidos e mencionava setores de energia e mineração. O material, datado de abril, tinha Flávio Bolsonaro como destinatário e apresentava a criação de um Conselho de Tecnologia com forte presença de executivos e investidores estrangeiros.
A combinação de interesses políticos, tecnológicos e minerais é justamente o que levou adversários de Flávio a levantar a hipótese de uma troca: apoio americano em contrapartida a condições favoráveis aos interesses dos Estados Unidos sobre recursos estratégicos brasileiros.
Essa acusação não está comprovada.
Empresários citados negam qualquer acordo dessa natureza.
Mas os documentos mostram que política, tecnologia, mineração e capital estrangeiro estavam sendo discutidos dentro do mesmo ambiente de aproximação.
A Abin falou em interferência americana
Há ainda um elemento que ultrapassa a Rockbridge.
Uma delegação formada por representantes da França e da Alemanha esteve em Brasília em setembro para discutir segurança eleitoral, interferência estrangeira e proteção das instituições democráticas. Segundo documentos e fontes posteriormente revelados, integrantes da Agência Brasileira de Inteligência afirmaram aos europeus existir interferência dos Estados Unidos no processo eleitoral brasileiro.
O relato atribuído à Abin mencionava ações abertas e outras formas de pressão. As informações conhecidas publicamente não demonstram que a agência tenha identificado um repasse financeiro americano à campanha de Flávio Bolsonaro.
Essa distinção é fundamental.
Interferência estrangeira é um conceito mais amplo que financiamento eleitoral. Pode envolver pressão diplomática, sanções, operações de informação, campanhas digitais, atuação de organizações privadas, ações econômicas ou outras formas de influência.
Os Estados Unidos não responderam especificamente às novas informações reveladas sobre essas reuniões.
O contexto ajuda a compreender por que a relação entre Trump e Flávio passou a receber tanta atenção. O presidente americano já manifestou publicamente simpatia pelo campo bolsonarista, e Flávio esteve neste ano na Casa Branca. Washington também adotou medidas contra o Brasil e autoridades brasileiras durante um período de forte tensão política entre os dois países.
Flávio nega receber ajuda eleitoral do governo Trump.
O que está comprovado e o que ainda precisa ser provado
A dimensão alcançada pelo caso exige precisão.
Não está comprovado que Donald Trump tenha enviado dinheiro para Flávio Bolsonaro.
Não está comprovado que J.D. Vance tenha transferido recursos para sua campanha.
Não está comprovado que a Rockbridge Network tenha financiado diretamente a candidatura presidencial do PL.
Também não existe, até agora, documento bancário público demonstrando transferência de recursos americanos para as contas eleitorais de Flávio.
Essas são acusações sob investigação e não podem ser apresentadas como fatos consumados.
O que existe é uma cadeia de fatos que justifica investigação.
Uma organização criada por J.D. Vance e financiada pelo ecossistema econômico da direita americana planejou expansão para o Brasil. Uma empresa denominada Rockbridge Brazil LLC foi constituída nos Estados Unidos. Documentos previram captação de grandes volumes de recursos privados e construção de infraestrutura política no país. Um projeto relacionado à operação foi preparado tendo Flávio Bolsonaro como destinatário. Um dos articuladores brasileiros desse processo apareceu posteriormente trabalhando próximo ao QG da campanha. Influenciadores estrangeiros ligados ao universo trumpista publicaram propaganda paga favorável ao candidato. E o próprio governo americano discute simultaneamente a eleição brasileira e interesses estratégicos sobre recursos minerais do país.
Separadamente, autoridades brasileiras relataram a representantes europeus preocupação com interferência americana na eleição.
A questão, portanto, já não pode ser reduzida à pergunta simplista sobre a existência de uma transferência bancária.
A investigação precisa reconstruir uma infraestrutura.
Quem pagou pelos serviços?
Quem financiou os anúncios?
Quem custeou viagens e eventos?
Quem pagou fornecedores?
Houve pesquisas, bancos de dados, consultorias, softwares ou serviços digitais fornecidos à candidatura?
Qual foi exatamente a atuação de Pedro Sang dentro do comitê?
A Rockbridge Brazil LLC recebeu algum recurso antes de sua alegada paralisação?
Existiram pagamentos realizados por empresas ou indivíduos ligados à rede em benefício de estruturas utilizadas posteriormente pela campanha?
São essas respostas que permitirão estabelecer se houve apenas aproximação ideológica e empresarial ou se a fronteira da legislação eleitoral brasileira foi atravessada.
A quatro dias da eleição, essa diferença é enorme.
Uma aliança política entre conservadores brasileiros e americanos pode ser politicamente controversa, mas não é, por si só, financiamento eleitoral ilegal.
Dinheiro, serviços ou benefícios econômicos estrangeiros destinados a uma candidatura são outra história.
E é justamente essa história que ainda precisa ser completamente aberta.
Porque o que as revelações das últimas semanas mostram é que, ao redor da candidatura de Flávio Bolsonaro, existe uma rede que liga empresários brasileiros, operadores políticos, investidores americanos, o universo tecnológico do Vale do Silício e personagens diretamente conectados ao governo de Donald Trump.
O dinheiro direto ainda não foi demonstrado.
A estrutura ao redor dele, entretanto, começou a aparecer.
E agora a pergunta central da investigação é descobrir quem a financiou e para quem ela efetivamente trabalhou.


