Presidenta do Sindaero-CE relata equipamentos deteriorados, acidentes de trabalho e falta de fiscalização no Aeroporto de Fortaleza
Da Redação
Equipamentos antigos, falhas mecânicas, trabalhadores submetidos a jornadas exaustivas e acidentes recorrentes compõem um cenário de risco no atendimento às aeronaves no Aeroporto Internacional de Fortaleza. A denúncia é da presidenta do Sindicato dos Aeroviários do Ceará, Sônia Maia, que cobra fiscalização imediata das condições de trabalho e dos maquinários utilizados pelas empresas terceirizadas.
As declarações foram dadas nesta terça-feira (8) ao programa Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular, apresentado por Luiz Regadas. Durante a entrevista, Sônia mostrou fotografias e vídeos de esteiras, plataformas elevatórias, escadas e carrinhos de transporte utilizados nas operações de solo. Denúncias semelhantes já haviam sido publicadas pelo Sindaero-CE.
Segundo a dirigente, os problemas ameaçam primeiro os trabalhadores que atuam na preparação dos voos, mas podem alcançar passageiros, tripulantes e aeronaves. Ela afirmou que o sindicato comunica irregularidades aos órgãos públicos desde 2017, sem obter uma fiscalização proporcional à gravidade dos fatos relatados.
“A primeira coisa que precisa ser feita dentro do aeroporto é uma fiscalização séria. Essa empresa já deveria ter sido interditada”, declarou.
Sônia dirigiu críticas à dnata Brasil, empresa responsável por serviços de solo, e à Fraport Brasil, concessionária que administra o Aeroporto de Fortaleza desde 2018. Segundo a sindicalista, a administradora permite que equipamentos deteriorados continuem circulando nas áreas operacionais.
A entrevista apresentou a versão do sindicato. As empresas mencionadas e os órgãos fiscalizadores não participaram do programa para responder às denúncias.
Terceirização reduziu salários e ampliou jornadas
Sônia relacionou a deterioração das condições de trabalho à expansão da terceirização nos serviços auxiliares do transporte aéreo. Segundo ela, mudanças na representação sindical e a entrada de novas empresas provocaram forte redução salarial.
A presidenta do Sindaero afirmou que trabalhadores que recebiam aproximadamente R$ 1.600 passaram a ganhar cerca de R$ 570 no período inicial da mudança. Ao mesmo tempo, jornadas que anteriormente duravam seis horas chegaram a dez horas diárias.
“Quem ganhava R$ 1.600 passou a ganhar R$ 570. Trabalhava seis horas e passou a trabalhar dez, ganhando menos”, relatou.
Para a dirigente, esse processo antecedeu a reforma trabalhista aprovada durante o governo Michel Temer e aprofundou seus efeitos no setor aéreo. A fragilização dos sindicatos permitiu que empresas reduzissem custos com salários, benefícios e manutenção.
Sônia afirmou que, no passado, os aeroviários recebiam remuneração equivalente a cerca de quatro salários mínimos e contavam com benefícios como auxílio-maternidade e fornecimento de leite para os filhos. Parte dessas conquistas desapareceu com as mudanças contratuais.
“O trabalhador aeroviário não vivia sufocado, com a corda no pescoço. Hoje, os direitos foram sendo retirados”, afirmou.
Equipamentos com décadas de uso continuam nas pistas
A sindicalista estima que alguns equipamentos utilizados atualmente no aeroporto tenham cerca de 40 anos. Parte deles teria sido transferida sucessivamente entre empresas prestadoras de serviço, sem renovação efetiva.
Segundo Sônia, quando uma companhia deixa de operar e outra assume o contrato, os mesmos maquinários recebem uma nova identificação e continuam em circulação. A manutenção, em muitos casos, se limitaria a uma pintura externa.
“A única coisa que funciona é o balde de tinta. Levam o equipamento deteriorado, dão um banho de tinta e devolvem com o mesmo problema, como se tivesse sido recuperado”, criticou.
Entre os equipamentos apresentados durante o programa estavam esteiras usadas para transportar bagagens até o interior das aeronaves, carrinhos conhecidos como dollies, plataformas elevatórias e escadas de embarque.
Os dollies são utilizados para movimentar lâminas e contêineres de carga. Quando seus pinos e sistemas de encaixe estão quebrados ou empenados, os trabalhadores precisam empurrar manualmente volumes muito pesados.
“O trabalhador entra com o punho, com o ombro, com as costas e até com o corpo inteiro, mas a carga não sai do lugar porque é humanamente impossível”, relatou.
Sônia mostrou imagens de equipamentos sem pinos e com peças danificadas que, segundo ela, continuam sendo enviados à pista.
Esteira teria perfurado aeronave da Gol
Um dos episódios mais graves relatados envolveu uma esteira que teria atingido e perfurado uma aeronave da Gol em Fortaleza. Conforme a narrativa apresentada pela dirigente, o trabalhador responsável pela operação entrou em pânico e tentou esconder o dano.
Um diretor do Sindaero, que também é mecânico de aeronaves, percebeu um ruído diferente na turbina e procurou o piloto. O sindicalista teria se recusado a liberar a aeronave sem que o comandante realizasse uma inspeção.
“O nosso diretor disse: ‘Comandante, eu preciso que o senhor desça porque essa turbina está fazendo um barulho muito estranho e eu não vou liberar essa aeronave’”, contou Sônia.
Depois da verificação, a aeronave foi retirada da operação e o voo, cancelado. Segundo ela, o avião permaneceu retido na base de Fortaleza.
A sindicalista afirmou que o caso não foi divulgado pelos grandes veículos de comunicação. Também não informou a data do incidente ou o prefixo da aeronave durante a entrevista.
Trabalhadores sofreram fraturas e traumatismo craniano
Sônia relatou que os acidentes com empregados se tornaram frequentes nas operações de solo. De acordo com ela, ocorrem aproximadamente dois episódios por semana, sem que o sindicato receba explicações satisfatórias.
Em um dos casos, um trabalhador tentava soltar uma liga utilizada para prender a carga quando foi atingido no rosto pelo gancho. A pressão para concluir rapidamente a operação teria contribuído para o acidente.
“Os gritos desse trabalhador não eram deste mundo”, disse.
Uma semana depois, outro empregado teria caído de uma plataforma elevatória. Segundo Sônia, ele sofreu traumatismo craniano, fraturou três costelas e teve uma lesão na coluna.
“Tudo isso está acontecendo dentro do Aeroporto de Fortaleza e ninguém chega para ajudar”, denunciou.
Ela também mostrou um equipamento utilizado para retirar dejetos das aeronaves. Conforme seu relato, o sistema apresentava vazamentos, espalhava resíduos e submetia os trabalhadores a mau cheiro intenso e contato com material contaminado.
Outro vídeo exibia uma escada danificada acoplada a uma aeronave. Sônia alertou que a estrutura poderia causar a queda de passageiros ou ferir trabalhadores que passassem ao lado do equipamento.
Carga quase atingiu avião abastecido e com passageiros
A presidenta do Sindaero relatou ainda um episódio em que uma carga tombou durante a operação. Ao perceber que seria atingido nas costas ou na cabeça, o operador utilizou sua experiência para lançá-la para o lado.
Segundo ela, o equipamento passou próximo de uma aeronave já abastecida e com passageiros a bordo.
“Por muito pouco, o equipamento não se chocou contra a aeronave. A carga estava atrasada porque não havia maquinário em condições de fazer o serviço”, contou.
Sônia afirmou que os atrasos começaram a afetar também o comércio exterior. Em outro episódio, mercadorias permaneceram no aeroporto durante três dias por falta de uma plataforma elevatória em funcionamento.
Sem condições de embarque, a carga precisou ser comercializada no próprio Ceará. A partir desse momento, empresários que dependiam do transporte passaram a procurar o sindicato em busca de auxílio.
“De um lado, o trabalhador pede ajuda. Do outro, o empresariado também começou a pedir ajuda porque a precarização passou a comprometer o comércio exterior”, explicou.
Segurança do voo começa antes da decolagem
Sônia contestou a percepção de que a segurança aérea depende apenas de pilotos, controladores e equipes de manutenção. Antes de uma aeronave decolar, trabalhadores de solo realizam o descarregamento, a limpeza, a troca da água, a retirada de resíduos e a organização das bagagens e cargas.
“A segurança do voo começa no solo, não somente dentro do avião”, afirmou.
A chamada equipe de rampa participa da operação desde o momento em que a aeronave é imobilizada pelos calços até o pushback, procedimento em que o avião é empurrado para deixar a posição de estacionamento.
“Quem prepara a aeronave é o trabalhador aeroviário. Quem troca a água, retira os dejetos, limpa as cadeiras e organiza embarque, desembarque, bagagem e carga é o trabalhador de solo”, explicou.
A dirigente afirmou que o piloto aparece como a figura mais conhecida da operação, mas depende do trabalho realizado por equipes numerosas e pouco visíveis.
“O piloto é meramente ilustrativo quando se olha para toda a preparação. As pessoas com a mão de obra mais pesada e séria estão atrás, no setor de rampa”, declarou.
Segundo Sônia, os trabalhadores precisam receber formação específica em safety e security, conceitos relacionados, respectivamente, à segurança operacional dos voos e à proteção contra ameaças deliberadas e patrimoniais.
“É a segurança de voo que eles estão destruindo”, denunciou.
Sindicato atribui responsabilidade à Fraport e à dnata
Sônia afirmou que a Fraport, como administradora do aeroporto, possui responsabilidade sobre os equipamentos e empresas autorizados a circular nas áreas operacionais.
Ela comparou a situação atual ao período em que o terminal era administrado pela Infraero. Segundo a sindicalista, a estatal determinava a retirada imediata dos maquinários que não apresentavam condições adequadas de funcionamento.
“Quando era a Infraero, nesse quesito ela era muito severa. Mandava retirar o equipamento do pátio”, afirmou.
Na avaliação da presidenta do Sindaero, a Fraport age com tolerância diante das condições apresentadas pela dnata. A sindicalista cobrou que a concessionária fiscalize os contratos e impeça o uso de equipamentos que coloquem trabalhadores e passageiros em risco.
“A Fraport é tão responsável quanto a dnata”, declarou.
Sônia também responsabilizou as companhias aéreas contratantes. Segundo ela, as empresas procuram reduzir os custos dos serviços de solo e negociam descontos quando ocorrem danos ou atrasos, em vez de exigir a correção das causas dos problemas.
“As companhias estão procurando o serviço mais barato. Quando acontece um dano, reduz-se um pouco o valor do contrato para que a empresa aérea não saia, e tudo continua”, acusou.
Sindicato afirma que órgãos foram acionados
A presidenta do Sindaero disse que o sindicato apresentou denúncias ao Ministério do Trabalho e Emprego e ao Ministério Público do Trabalho desde 2017. Segundo ela, as reclamações não produziram as inspeções esperadas.
Sônia relatou que, depois de aproximadamente sete anos, uma audiência reuniu uma gestora da dnata e representantes do sindicato. O procedimento, entretanto, teria sido arquivado sem uma fiscalização no aeroporto.
“A impressão que temos é que, quando chega uma reclamação com o CNPJ do sindicato, ela é arquivada”, criticou.
Ela afirmou que o Sindaero decidiu financiar com recursos próprios um documentário sobre as condições de trabalho e os riscos operacionais. A produção reúne imagens, relatos e documentos obtidos pelos dirigentes sindicais.
“O acidente aéreo pode e deve ser evitado. Ele não escolhe aeronave, não escolhe onde vai cair nem quem vai matar. É disso que estamos tratando”, disse.
A sindicalista pediu que o Ministério do Trabalho interdite os equipamentos deteriorados e obrigue as empresas a apresentar condições adequadas de operação.
“O sindicato está gritando que a vida do aeroviário também importa”, afirmou.
Caso Voepass é citado como alerta
Durante a entrevista, Sônia relacionou as denúncias ao acidente de uma aeronave da Voepass ocorrido em 2024, que matou 62 pessoas em Vinhedo, no interior de São Paulo.
Ela afirmou que, antes do desastre, já havia denunciado problemas relacionados às operações da companhia em Fortaleza. Segundo Sônia, fotografias, relatórios e registros apontavam adaptações inadequadas e falhas de segurança.
“A gente dizia: ‘A aeronave vai cair, vão matar pessoas’. A aeronave caiu exatamente do jeito que eu havia dito”, declarou.
A dirigente disse ter recebido, depois do acidente, uma mensagem afirmando que o avião havia caído da maneira descrita por ela. Sônia trabalhou com peso e balanceamento de aeronaves e afirmou que a prevenção de acidentes fazia parte de suas atribuições profissionais.
As afirmações da sindicalista sobre uma possível relação entre as irregularidades que denunciou e o acidente da Voepass representam sua avaliação. As causas de acidentes aeronáuticos são determinadas pelas investigações técnicas dos órgãos competentes.
Sônia criticou ainda a produção de um documentário sobre o desastre por não procurar o sindicato nem examinar os documentos que, segundo ela, estavam disponíveis no Ceará.
“Eu não vou romantizar uma coisa que vinha sendo denunciada dentro do aeroporto”, afirmou.
Terceirização tenta retirar identidade profissional
A presidenta do Sindaero também denunciou uma tentativa de retirar dos auxiliares de serviços a condição de aeroviários. Segundo ela, esses trabalhadores sempre estiveram incluídos no Decreto nº 1.232, de 1962, que regulamenta a profissão.
“Dentro de um sítio aeroportuário, ou você é aeroviário ou é aeroportuário. Se esses trabalhadores não são aeroportuários, o que são?”, questionou.
Sônia afirmou que uma ação judicial movida pelo sindicato afastou a tese de que os auxiliares não pertenceriam à categoria. Para ela, a divisão procura apresentar atividades essenciais como uma “subprofissão” para reduzir salários e direitos.
“É responsabilidade demais para amador. Aqui não é lugar de brincadeira nem de subprofissão. Trabalhamos com vidas”, disse.
A dirigente ressaltou que cada passageiro representa uma vida sob responsabilidade dos profissionais envolvidos na operação.
“Não são 157 ou 158 pessoas embarcadas. São 157 ou 158 vidas. A segurança está incluída no bilhete comprado pelo consumidor”, afirmou.
Periculosidade garante aumento de 30% a trabalhadores da Gol
Apesar das denúncias, Sônia destacou uma vitória obtida pelo sindicato em ação trabalhista conduzida pelo escritório Show Advogados Associados.
O processo tratou do pagamento de adicional de periculosidade a trabalhadores da Gol que atuam em determinadas funções operacionais. Uma perícia judicial contou com a participação de um perito, uma técnica de segurança do trabalho e um supervisor.
A análise reconheceu o direito ao adicional. Depois da decisão, a Gol incorporou 30% aos salários dos trabalhadores abrangidos.
“A perícia constatou que eles tinham direito e agora a Gol implementou 30% no salário”, comemorou.
O sindicato ainda busca o pagamento retroativo dos cinco anos anteriores. Segundo Sônia, a companhia estendeu o ajuste a trabalhadores de outros estados antes mesmo da abertura de novas ações.
“O trabalho jurídico foi tão bem feito que a Gol se antecipou e contemplou outros estados. De um lado estamos atentos, mas do outro também precisamos celebrar”, afirmou.
Prioridade é impedir mortes no trabalho
Ao encerrar a entrevista, Sônia afirmou que a reivindicação mais urgente não é salarial. O sindicato cobra condições mínimas de segurança para que os empregados possam trabalhar sem risco permanente de acidentes graves.
“A preocupação do sindicato é sobretudo com o trabalhador que está fazendo o papel da máquina. Tudo o que queremos é que a máquina faça o papel dela”, resumiu.
Ela pediu uma atuação coordenada do Ministério do Trabalho, Ministério Público do Trabalho, Agência Nacional de Aviação Civil, Fraport, companhias aéreas e empresas terceirizadas.
Para Sônia, a fiscalização precisa ocorrer antes de um acidente com grandes proporções. Esperar uma morte ou uma queda para adotar providências contraria o princípio básico da segurança operacional, que é a prevenção.
“O que estamos pedindo não é nada demais. Estamos solicitando uma fiscalização séria, que interdite esses equipamentos e coloque essa empresa no trilho”, concluiu.
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