Professor Nelson Campos relaciona escravidão, concentração de riqueza, golpes de Estado e desinformação aos conflitos políticos enfrentados pelo Brasil atual
Da Redação
“É fundamental ter consciência do mundo em que vivemos a partir de como chegamos até aqui.” A afirmação do professor Nelson Campos orientou o debate promovido pelo programa Café com Democracia sobre a importância do conhecimento histórico para a compreensão dos problemas atuais.
Mestre em Educação pela Universidade Federal do Ceará, Nelson participou do programa apresentado por Luiz Regadas e analisou processos que ajudaram a formar a sociedade brasileira. A conversa percorreu a escravidão, a concentração de terras, a sucessão de golpes de Estado, a permanência das oligarquias e a retomada do negacionismo científico.
Para o professor, o desconhecimento do passado facilita a reprodução de ideias construídas para justificar relações de exploração. Sem informações sobre a origem das desigualdades e das instituições políticas, uma pessoa pode adotar interesses alheios como se fossem próprios.
Nelson citou o filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel para explicar a necessidade de reconhecer a condição em que se vive. “O primeiro passo para alguém se libertar é ter consciência de que se encontra preso”, afirmou.
Alienação e consciência histórica
Nelson definiu a alienação como a dificuldade de pensar e agir por conta própria. Ela ocorre quando uma pessoa adota determinada posição não por meio de uma reflexão autônoma, mas porque foi condicionada a aceitar aquela interpretação.
“Quando você não pensa por si e pensa pela cabeça de outro, está sob o controle de alguém”, explicou.
O conhecimento histórico permite identificar como valores apresentados como naturais foram construídos para atender a interesses econômicos e políticos. Instituições, hierarquias e desigualdades não surgiram espontaneamente. Foram produzidas em circunstâncias concretas e mantidas por grupos beneficiados por elas.
O professor recorreu aos conceitos do sociólogo francês Émile Durkheim para explicar mudanças na organização social. Em comunidades com pouca divisão do trabalho, predomina aquilo que Durkheim chamou de solidariedade mecânica. Já as sociedades com funções especializadas e relações de interdependência são caracterizadas pela solidariedade orgânica.
A industrialização, iniciada na Inglaterra no século XVIII, acelerou esse processo. A produção passou a ser concentrada nas fábricas, o trabalho tornou-se mais especializado e as relações entre proprietários e trabalhadores foram reorganizadas.
O Brasil entrou tardiamente nesse processo. Sua economia permaneceu durante séculos submetida aos interesses coloniais e baseada na exportação de matérias-primas.
Ideias usadas para justificar a escravidão
Ao percorrer os diferentes modos de organização econômica, Nelson chamou atenção para as justificativas ideológicas utilizadas na manutenção da escravidão.
O professor citou Aristóteles, nascido em Estagira, na antiga Macedônia, para mostrar como uma determinada concepção filosófica poderia apresentar a desigualdade como parte da natureza humana.
Segundo essa visão, algumas pessoas nasceriam com capacidade para pensar e governar, enquanto outras existiriam para executar trabalhos e obedecer. A dominação deixava de ser interpretada como imposição social e passava a parecer resultado de diferenças naturais.
“Isso é uma justificativa ideológica da escravidão”, afirmou Nelson.
A transformação de pessoas em propriedade foi mantida por séculos por meio de leis, costumes, instituições religiosas e teorias destinadas a legitimar o poder de determinados grupos.
Com a desagregação do Império Romano do Ocidente, no século V, novas relações de dependência se desenvolveram na Europa. No sistema feudal, os senhores controlavam a terra e submetiam os camponeses a obrigações econômicas e políticas.
A sociedade era apresentada como uma divisão entre aqueles que rezavam, os que guerreavam e os que trabalhavam. O discurso atribuía a cada grupo uma função aparentemente natural, embora o trabalho sustentasse as demais ordens.
O uso político da religião
Nelson também analisou a relação entre poder político e religião nas monarquias absolutistas. Os reis justificavam a concentração de autoridade por meio da doutrina do direito divino.
Contrariar o monarca poderia ser apresentado como uma afronta à vontade de Deus. Dessa forma, a obediência política adquiria um caráter religioso.
“Se você observar a história, o nome de Deus foi usado para justificar todo tipo de pilantragem”, afirmou o professor.
A Reforma Protestante alterou parte dessas relações. Na Inglaterra, Henrique VIII rompeu com a autoridade do papa e instituiu a Igreja Anglicana no século XVI, tornando o monarca também chefe da instituição religiosa nacional.
Para Nelson, o episódio mostra como argumentos religiosos podem ser adaptados às necessidades do poder. A mesma autoridade que antes reivindicava legitimidade por meio da Igreja Católica passou a controlar uma igreja própria.
Escravidão e formação do Brasil
No território que viria a constituir o Brasil, os colonizadores portugueses escravizaram inicialmente integrantes dos povos originários. Com a expansão da produção de açúcar, intensificaram o tráfico de africanos escravizados.
Homens, mulheres e crianças foram tratados como mercadorias, vendidos em leilões e submetidos a trabalhos forçados. A construção ideológica da superioridade branca procurou legitimar esse sistema.
“Quem disse que o branco era superior ao negro? Foi o branco. Para quê? Para justificar a dominação e a imposição dos seus interesses”, disse Nelson.
A escravidão foi oficialmente abolida em 13 de maio de 1888. A medida, contudo, não foi acompanhada de políticas de acesso à terra, moradia, educação e trabalho remunerado.
“A libertação foi jurídica. Não foi uma libertação acompanhada de oportunidades sociais. Disseram: ‘Você é livre, agora se vire para sobreviver’”, explicou.
Para o professor, parte das desigualdades atuais decorre dessa abolição incompleta. A população negra passou a ser considerada livre perante a lei, mas permaneceu afastada dos meios necessários ao exercício efetivo dessa liberdade.
A presença desproporcional de pessoas negras entre os trabalhadores com menor renda e na população carcerária não pode ser analisada sem considerar esse processo.
A resistência negra
A escravidão nunca foi aceita passivamente. Fugias, revoltas, organizações comunitárias e quilombos acompanharam todo o período colonial e imperial.
Nelson citou o Quilombo dos Palmares e Zumbi como referências da resistência negra. O Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra é celebrado em 20 de novembro, data associada à morte do líder quilombola, ocorrida em 1695.
A lembrança dessas resistências altera uma narrativa que apresenta a abolição como simples concessão das instituições imperiais. Pessoas escravizadas atuaram de maneira decisiva para enfraquecer o sistema e construir caminhos de liberdade.
Conhecer essa história também permite compreender por que as políticas de reparação e igualdade racial não representam privilégios. Elas procuram enfrentar consequências de uma desigualdade institucionalizada durante mais de três séculos.
Terra, riqueza e poder concentrados
A formação econômica brasileira foi marcada pela concentração fundiária. Desde o período colonial, grandes propriedades controladas por poucos proprietários organizavam a produção voltada à exportação.
Portugal determinava quais produtos seriam explorados e restringia atividades que pudessem concorrer com o comércio metropolitano. O território fornecia matérias-primas e importava parte dos produtos manufaturados.
Pau-brasil, açúcar, algodão, ouro e café ocuparam posições diferentes ao longo desse processo. As mudanças de produto não modificaram a estrutura básica de concentração da propriedade e subordinação externa.
Nelson relacionou esse modelo às oligarquias que ainda influenciam a política.
“Oligarquia é um grupo pequeno, politicamente dominante, que exerce o poder em favor do próprio grupo”, definiu.
Essa concentração ajuda a explicar a permanência de famílias que atravessam gerações nos cargos eletivos. Filhos, netos, cônjuges e outros parentes sucedem lideranças anteriores, preservando redes econômicas e eleitorais.
A formalidade democrática não elimina essas estruturas. Quando o acesso à educação, à comunicação e aos recursos de campanha permanece desigual, grupos historicamente poderosos dispõem de vantagens para conservar seus espaços.
Educação limitada aos interesses dominantes
O professor também relacionou o analfabetismo à formação econômica do país. Durante grande parte da história brasileira, as elites não consideravam necessário oferecer escolarização à maioria dos trabalhadores.
“Não se queria gente pensando. Gente pensando dá o maior problema”, afirmou.
Numa economia agrária sustentada pelo trabalho escravizado e, posteriormente, por relações precárias, a educação popular não era prioridade. A escolarização passou a receber maior atenção quando as transformações econômicas exigiram trabalhadores qualificados.
Para Nelson, esse processo mostra que o acesso ao conhecimento não foi historicamente tratado como direito universal. A expansão do ensino ocorreu sob pressão das mudanças produtivas e das reivindicações sociais.
A educação, contudo, pode ultrapassar as necessidades do mercado. Ao desenvolver capacidade de análise, oferece instrumentos para que trabalhadores compreendam as relações das quais participam e intervenham nelas.
Golpes atravessam a história republicana
Nelson dedicou parte da entrevista aos golpes de Estado que marcaram a política brasileira. A própria Proclamação da República, em 1889, foi conduzida por militares e contou com apoio de setores econômicos ligados à produção de café.
O marechal Deodoro da Fonseca assumiu o governo e, em 1891, tentou fechar o Congresso Nacional. Pressionado por uma reação política e militar, renunciou.
Floriano Peixoto assumiu a Presidência e permaneceu no cargo sem convocar a eleição prevista por setores que contestavam a sucessão. Seu governo reprimiu duramente movimentos adversários, razão pela qual recebeu o apelido de Marechal de Ferro.
Em 1930, Getúlio Vargas chegou ao poder após a deposição de Washington Luís e o impedimento da posse de Júlio Prestes. Quatro anos depois, uma nova Constituição foi promulgada.
Em 1937, Vargas utilizou a divulgação do falso Plano Cohen, apresentado como preparação de uma insurreição comunista, para estabelecer a ditadura do Estado Novo.
“Para evitar um golpe, eles deram um golpe”, resumiu Nelson.
A justificativa do combate ao comunismo serviu para fechar o Congresso, extinguir partidos, substituir governadores por interventores e ampliar a repressão.
A contradição durante a Segunda Guerra
O Estado Novo entrou em contradição ao participar da Segunda Guerra Mundial. Soldados da Força Expedicionária Brasileira foram enviados à Itália para combater o nazismo e o fascismo enquanto o Brasil permanecia sob uma ditadura.
“Mandaram soldados brasileiros combater uma ditadura no exterior quando existia uma ditadura no Brasil”, observou Nelson.
Vargas foi deposto pelos militares em outubro de 1945. Anos depois, retornou à Presidência pelo voto direto e permaneceu no cargo até o suicídio, em 24 de agosto de 1954.
A história republicana ainda registraria novas tentativas de ruptura, como os levantes de Jacareacanga e Aragarças contra o governo de Juscelino Kubitschek, além do golpe militar de 1964.
Para o professor, conhecer essa recorrência é indispensável para compreender a tentativa de golpe associada aos ataques de 8 de janeiro de 2023.
Anistia não é sinônimo de pacificação
Nelson criticou propostas de anistia para participantes de ações destinadas a impedir ou reverter o resultado eleitoral.
O argumento utilizado por seus defensores é que o perdão pacificaria o país. O professor considera que a ausência de responsabilização pode estimular novas tentativas de ruptura.
“Não se consegue pacificar fazendo de conta que essas pessoas não fizeram nada. Elas saíram quebrando tudo e causaram prejuízo à nação”, afirmou.
Nelson comparou o caso brasileiro à experiência da Argentina, onde integrantes da ditadura foram julgados e presos. Para ele, a responsabilização estabelece limites e mostra que a violência contra a ordem democrática produz consequências.
O perdão concedido sem investigação suficiente pode reforçar a percepção de que uma tentativa de golpe somente será punida quando fracassar e mesmo assim por pouco tempo.
A pandemia e o retorno do negacionismo
A entrevista também abordou a retomada de conteúdos que defendem cloroquina, ivermectina e outros medicamentos sem eficácia comprovada contra a covid-19.
Nelson lembrou que o Brasil ultrapassou 700 mil mortes associadas à doença. Apesar da experiência recente, discursos contrários às vacinas voltaram a circular.
“Parece que não aprenderam nada com a pandemia”, lamentou.
O professor demonstrou preocupação com políticos e profissionais da saúde que continuam divulgando informações contrárias às evidências científicas. Esse comportamento afeta não apenas a vacinação contra a covid-19, mas também a cobertura de imunizantes destinados a outras doenças.
A queda na vacinação cria condições para o retorno de enfermidades controladas, como poliomielite e sarampo.
Para Nelson, a vacinação infantil depende da decisão dos responsáveis. Quando os pais são influenciados pela desinformação, colocam as crianças e a comunidade em risco.
“A criança não decide por si. Quem decide são os pais. Se os pais possuem uma mentalidade estreita, fica difícil evitar a propagação das doenças”, afirmou.
Desinformação e poder político
O professor relacionou o negacionismo a disputas políticas mais amplas. Nos Estados Unidos, autoridades ligadas ao governo Trump difundem desconfiança contra vacinas e instituições científicas.
Essas mensagens circulam internacionalmente por meio das redes sociais e encontram correspondentes entre políticos brasileiros.
Para Nelson, a desinformação não pode ser tratada apenas como falta de conhecimento. Em muitos casos, ela é utilizada para formar identidades políticas, atacar instituições e criar desconfiança em relação ao Estado.
A pandemia mostrou como conteúdos falsos podem interferir em decisões de saúde. As disputas eleitorais demonstram que a mesma estratégia pode ser aplicada contra urnas, tribunais e resultados oficiais.
Estados Unidos e eleições brasileiras
Nelson afirmou que o governo norte-americano atua para influenciar a eleição brasileira de 2026. A expectativa, segundo ele, é de que uma eventual derrota da extrema direita seja apresentada como consequência de fraude eleitoral.
A estratégia repete o comportamento de Donald Trump depois de perder a eleição de 2020 para Joe Biden. Trump recusou-se a reconhecer o resultado e estimulou uma campanha de deslegitimação do processo eleitoral.
A ofensiva culminou na invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021.
“Se o candidato deles for derrotado, vão dizer que houve fraude. Foi o que aconteceu nos Estados Unidos quando Trump perdeu”, afirmou Nelson.
O professor relacionou o episódio norte-americano aos ataques de 8 de janeiro no Brasil. Nos dois casos, grupos mobilizados por acusações sem provas tentaram impedir a transição ou reverter o resultado das urnas.
Cuba e a pressão econômica
A conversa também tratou do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos a Cuba desde a década de 1960. Nelson afirmou que as restrições dificultam a aquisição de equipamentos, medicamentos e componentes necessários ao funcionamento de serviços públicos.
Problemas provocados ou agravados pelo bloqueio são frequentemente apresentados como resultado exclusivo da incapacidade do governo cubano.
Para o professor, a finalidade dessa pressão é ampliar o descontentamento interno e provocar uma mudança política sem a necessidade de uma invasão direta.
Nelson manifestou preocupação com declarações de Donald Trump sobre o controle de Cuba e com a utilização da superioridade militar norte-americana para pressionar outros países.
As guerras e a disputa pela verdade
“A primeira vítima de uma guerra é a verdade”, afirmou Nelson na parte final da entrevista.
Segundo o professor, guerras costumam ser justificadas por versões destinadas a esconder interesses econômicos e territoriais. Soldados são convocados a lutar por objetivos definidos por grupos que controlam o poder político.
Nelson mencionou as guerras napoleônicas como exemplo. A disputa entre França e Inglaterra pelo controle econômico da Europa foi apresentada como questão nacional, enquanto trabalhadores eram enviados aos campos de batalha.
O Bloqueio Continental decretado por Napoleão Bonaparte em 1806 pretendia impedir que países europeus comprassem mercadorias inglesas. A medida beneficiava os interesses econômicos da burguesia francesa, embora os custos humanos fossem suportados pelos soldados.
A mesma lógica, afirmou, aparece em guerras posteriores, nas quais interesses estratégicos são apresentados como defesa da liberdade ou da segurança.
“As guerras se baseiam em grandes mentiras”, declarou.
Conhecer para não repetir
Ao longo do programa, Nelson Campos defendeu que o estudo da história não seja reduzido à memorização de datas e nomes. Sua função é revelar relações entre processos anteriores e conflitos atuais.
A desigualdade racial não pode ser compreendida sem a escravidão. A concentração de renda está ligada à formação colonial e à propriedade da terra. As ameaças de ruptura institucional dialogam com uma sequência de golpes e anistias. O negacionismo contemporâneo repete a utilização política da desinformação.
Conhecer esses processos não determina automaticamente uma posição política, mas oferece condições para reconhecer discursos usados anteriormente para legitimar autoritarismo e exclusão.
“É fundamental ter consciência da realidade. Essa consciência não nos dá o direito de oprimir outras pessoas. Temos que criar uma sociedade solidária e fraterna”, concluiu o professor.
Referências
Fenomenologia do espírito | Georg Wilhelm Friedrich Hegel | 1807
Da divisão do trabalho social | Émile Durkheim | 1893
Política | Aristóteles | século IV a.C.
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