Atitude Popular

“É na luta que nós vamos conseguir ter uma transformação social”

No Café com Democracia, Florindo da Rocha Daniel e Cezar Amario defendem o fim da escala 6×1 como pauta histórica da classe trabalhadora

No programa Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular, exibido em 28 de abril, o apresentador Luiz Regadas recebeu Florindo da Rocha Daniel, estudante de Teatro da UFC e membro do DCE, e Cezar Amario, professor do IFCE e coordenador do SINDSIFCE, para debater o 1º de Maio, as lutas trabalhistas e o fim da escala 6×1.

A entrevista, transmitida pela Atitude Popular, colocou no centro do debate uma pauta que voltou a mobilizar sindicatos, estudantes, trabalhadores e movimentos sociais: a redução da jornada de trabalho sem redução salarial. Para os convidados, o fim da escala 6×1 não é apenas uma reivindicação trabalhista imediata, mas parte de uma disputa mais profunda sobre o direito ao tempo, à saúde, ao estudo, à convivência familiar e à participação política.

Cezar Amario lembrou que a luta pela diminuição da jornada acompanha a história da classe trabalhadora desde o nascimento do capitalismo industrial. Segundo ele, no Brasil, essa pauta aparece desde as primeiras grandes mobilizações operárias, como a greve geral de 1917.

É uma pauta histórica da classe trabalhadora e, portanto, uma pauta histórica do movimento sindical”, afirmou. Para o professor, a escala 6×1 é desumana porque impõe seis dias de trabalho para apenas um de descanso, restringindo a vida do trabalhador ao esgotamento.

Ele defendeu que, diante do avanço tecnológico e do aumento da produtividade, não há justificativa para manter jornadas tão exaustivas. “Hoje, com a disponibilidade tecnológica que nós temos, é perfeitamente possível diminuir a jornada de trabalho sem diminuição de salário”, disse.

Florindo da Rocha Daniel trouxe a perspectiva dos estudantes trabalhadores. Ele destacou que muitos universitários, inclusive da UFC, precisam se submeter a empregos em escala 6×1 para permanecer na universidade. Call centers, supermercados e trabalhos precarizados aparecem como alternativas comuns para quem precisa pagar alimentação, transporte, moradia e outros custos da vida estudantil.

Segundo Florindo, essa rotina compromete diretamente a permanência universitária. “A 6×1 afeta totalmente a permanência do estudante”, afirmou. Para ele, trabalhar seis dias por semana, muitas vezes em atividades desgastantes, impede que o estudante tenha tempo e energia para estudar, pesquisar e viver plenamente a experiência universitária.

O estudante também ressaltou que a escala 6×1 adoece física e mentalmente. “É uma libertação de um sistema que adoece muitas pessoas”, disse, ao defender que o fim desse modelo precisa estar no centro das mobilizações do 1º de Maio.

Durante o programa, Cezar Amario relacionou a pauta nacional do fim da escala 6×1 às reivindicações específicas dos trabalhadores da educação federal. Ele citou a luta pelas 30 horas para técnicos administrativos e a regulamentação da atividade docente nos institutos federais, com carga horária mínima de ensino compatível com pesquisa, extensão, planejamento e gestão.

O professor explicou que, durante o governo Bolsonaro, uma portaria aumentou a carga horária mínima de ensino para docentes dos institutos federais, dificultando o desenvolvimento de pesquisa e extensão. Na greve de 2024, segundo ele, a categoria conquistou a revogação dessa medida e a criação de um grupo de trabalho para regulamentar a atividade docente.

A mobilização no Ceará, explicou Cezar, vem sendo articulada pelo Fórum da Educação Federal, que reúne entidades sindicais e estudantis, como SINDSIFCE, SINTUFCE, ADUFC, DCE da UFC, DCE do IFCE, Sinasefe, Fasubra e Andes. O Fórum organizou panfletagens, debates e atividades preparatórias para o ato do 1º de Maio em Fortaleza.

Florindo também criticou a forma como grandes meios de comunicação tratam o debate sobre a escala 6×1. Para ele, parte da mídia esconde os impactos positivos da redução da jornada e reproduz o discurso patronal de que direitos trabalhistas prejudicariam a economia.

Todas as grandes mudanças trabalhistas que nós tivemos no nosso país disseram que iam acabar com a economia”, afirmou. Segundo ele, o que ocorre é o contrário: trabalhadores mais descansados vivem melhor, adoecem menos e produzem melhor.

A entrevista também dialoga com a campanha nacional que a Atitude Popular está propondo aos movimentos sociais e entidades populares em defesa da Soberania Nacional e de um Congresso Amigo do Povo. Um manifesto de lançamento da campanha está sendo redigido por um grupo de intelectuais do Ceará que vem discutindo formas de intervir no processo eleitoral deste ano. A defesa do fim da escala 6×1 se conecta diretamente a essa pauta, pois soberania também significa garantir ao povo trabalhador condições dignas de vida, tempo livre, saúde, estudo e participação política.

Apoiadores que quiserem conhecer a campanha e assinar o manifesto podem acessar:
https://campanhabrasilsoberano.com.br/

Nas considerações finais, Florindo reforçou que a pauta precisa continuar sendo repetida e organizada até virar conquista concreta. “Até a gente conquistar, a gente precisa bater nessa tecla diariamente”, afirmou. “É justamente na luta que nós vamos conseguir ter uma transformação social na nossa vida.”

Cezar Amario também chamou os trabalhadores a participarem das mobilizações e alertou que a disputa seguirá no Congresso Nacional. Para ele, o 1º de Maio é um momento de agitação e preparação, mas a luta pelo fim da escala 6×1 deve continuar depois da data.

Nós estamos defendendo o nosso lado, o lado do povo, o lado dos trabalhadores e das trabalhadoras”, concluiu.

📺 Programa Café com Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 7h30 às 8h
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
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