Coordenadora do Núcleo de Evangélicos do PT no Ceará defende diálogo permanente com o eleitorado religioso e afirma que mulheres evangélicas são fundamentais na disputa de 2026
Da Redação
A presença do eleitorado evangélico e das mulheres no cenário das Eleições 2026 foi o tema central da edição de terça-feira (22/09) do Café com Democracia, programa da Rádio e TV Atitude Popular. A entrevista com a dentista e coordenadora do Núcleo de Evangélicos do PT no Ceará, Dra. Sinhara Gracia, foi conduzida pelo cientista político e radialista Luiz Regadas e discutiu a relação entre religião, voto, políticas públicas e participação feminina na política.
Ao longo dos cerca de 30 minutos de conversa, Sinhara defendeu uma aproximação permanente da esquerda com os evangélicos e criticou o uso de igrejas e espaços religiosos como instrumentos de orientação eleitoral. A entrevistada sustentou que a identificação religiosa não determina uma posição política e afirmou que sua própria experiência como mulher evangélica orienta sua defesa de políticas voltadas aos trabalhadores, às mulheres e às populações mais pobres.
O debate ocorre em um momento no qual o voto evangélico continua sendo um dos principais segmentos analisados nas pesquisas eleitorais. Levantamento Datafolha divulgado em setembro mostra Flávio Bolsonaro com 48% das intenções de voto entre evangélicos, contra 26% de Lula. No mesmo levantamento, o eleitorado evangélico corresponde a 28% da amostra.
A própria atuação do PT junto a esse público ganhou novos contornos em setembro. O partido passou a divulgar materiais específicos voltados aos evangélicos, buscando apresentar uma leitura segundo a qual a participação política cristã pode estar associada à defesa de políticas sociais e ao voto livre, sem orientação de lideranças religiosas.
“Uma pessoa cristã pode ser de esquerda”
Ao comentar a dificuldade histórica da esquerda em dialogar com parte do eleitorado evangélico, Sinhara afirmou que existe uma associação recorrente entre o PT e determinadas pautas morais utilizadas por lideranças religiosas para produzir rejeição ao partido.
Para ela, a identificação entre cristianismo e direita não corresponde à diversidade existente entre os próprios fiéis.
“Eu entendo que isso é um equívoco. […] Uma pessoa cristã não pode ser de esquerda. E pode sim”, afirmou.
A entrevistada explicou que sua referência política está relacionada à maneira como interpreta os ensinamentos de Jesus Cristo, especialmente em relação ao cuidado com pessoas vulneráveis e à preocupação com desigualdades sociais.
“Eu tento votar em quem vai favorecer os mais pobres, em quem vai favorecer os trabalhadores, as pessoas para terem também os seus direitos”, declarou.
Sinhara também rejeitou a tentativa de apresentar Jesus como integrante de uma corrente partidária contemporânea. Para ela, a fé cristã não pertence a partidos políticos.
“A nossa fé não pertence nem ao PL, nem ao PT, nem a partido algum. E Jesus está acima de todos esses partidos”, afirmou.
A partir dessa distinção, a entrevistada argumentou que a aproximação entre cristianismo e política deve ocorrer pela discussão de princípios e políticas públicas, e não pela transformação das igrejas em espaços de campanha.
A disputa pelo voto evangélico
A entrevista recuperou o peso do eleitorado evangélico nas eleições presidenciais recentes. Em 2022, pesquisas do Datafolha mostraram que Jair Bolsonaro mantinha ampla vantagem sobre Lula entre os evangélicos. Na última rodada do instituto antes do segundo turno daquele ano, Bolsonaro tinha 62% contra 32% de Lula nesse segmento. O mesmo levantamento apontava que 16% dos eleitores evangélicos afirmavam ter recebido orientação de pastores para votar no candidato do PL.
Para Sinhara, a esquerda precisa superar uma postura episódica e construir presença contínua entre os fiéis.
Ela relatou que parte dos evangélicos progressistas se afastou das igrejas por discordar do uso dos púlpitos como espaços de disputa eleitoral. Na avaliação da coordenadora, esse afastamento cria um vazio que pode ser ocupado exclusivamente por grupos políticos conservadores.
“Os nossos irmãos precisam voltar para a igreja, estar lá sim e conversar com as pessoas e não deixar só para na época das eleições a gente pensar nesse coletivo, nesse eleitorado”, afirmou.
A estratégia defendida por Sinhara passa, portanto, por uma presença cotidiana nas comunidades religiosas, sem limitar o diálogo aos períodos eleitorais.
“A gente precisa ali no dia a dia estar dentro, ocupar os espaços das nossas igrejas com o nosso serviço, com o nosso amor”, disse.
“A igreja não pode ser curral eleitoral”
Outro ponto destacado na entrevista foi a atuação de pastores durante períodos eleitorais. Sinhara criticou lideranças que utilizam o púlpito para declarar apoio a candidatos ou orientar diretamente o voto dos fiéis.
Para ela, a liberdade religiosa também precisa incluir a liberdade política de cada integrante da comunidade.
“Um pastor de respeito, ele não cita em quem ele vai votar. Ele é neutro. Ele não precisa ficar colocando que vai votar em partido de esquerda, em partido de direita”, afirmou.
A coordenadora também defendeu que os eleitores evangélicos sejam estimulados a avaliar políticas públicas e propostas concretas, em vez de tomar decisões a partir do temor de cometer um suposto pecado eleitoral.
A frase ganhou uma tradução visual na camiseta usada pela entrevistada durante o programa. De um lado, estava a mensagem “A minha fé é em Cristo e eu voto em Lula”. Do outro, “Não é pecado votar em 13”.
Sinhara explicou que a peça procura responder a uma narrativa que, segundo ela, ainda circula em comunidades religiosas e associa o voto em Lula ou na esquerda ao pecado.
“O pastor não tem que manipular o voto de ninguém”, afirmou.
Mulheres são maioria do eleitorado
A segunda frente do debate foi o voto feminino. Os dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral mostram que as mulheres representam 52,84% do eleitorado brasileiro habilitado a votar em 2026, com mais de 83,8 milhões de eleitoras.
A importância desse segmento também aparece nas pesquisas eleitorais. Levantamento Datafolha divulgado em setembro apontou que as mulheres correspondem a 53% do eleitorado e formam a maioria entre os eleitores que ainda não definiram seu voto.
Durante o programa, Sinhara destacou particularmente as mulheres evangélicas, que, segundo ela, ocupam posição relevante dentro das próprias comunidades religiosas.
“É um trabalho que a gente sabe, como você falou no início, as mulheres, o maior eleitorado é de mulheres, né? Mais de 50%. No meio evangélico nós temos também, a maioria são mulheres”, afirmou.
Ela defendeu que a esquerda trate essas eleitoras como sujeitos políticos, sem presumir que a religião determine automaticamente suas escolhas.
A entrevistada também relacionou a questão eleitoral a temas como violência doméstica, saúde e proteção social.
Reconstrução dentária para vítimas de violência
Como dentista, Sinhara destacou uma política pública voltada especificamente às mulheres vítimas de violência doméstica.
Em abril de 2025, foi sancionada a Lei nº 15.116, que criou o Programa de Reconstrução Dentária para Mulheres Vítimas de Violência Doméstica no âmbito do SUS. A legislação prevê serviços de reconstrução e reparação dentária, incluindo próteses e outros procedimentos, conforme as necessidades das pacientes.
A política continua em vigor e, em agosto de 2026, o Ministério das Mulheres informou que o programa pode oferecer restaurações, tratamento de canal, próteses, implantes e outros procedimentos, conforme avaliação das equipes de saúde.
Sinhara apresentou a medida como exemplo de política pública diretamente relacionada às consequências da violência contra mulheres.
“Ele teve o cuidado de fazer uma lei onde prioriza o tratamento da reconstrução dentária dessas mulheres pelo SUS”, afirmou.
Fé, políticas sociais e experiência cotidiana
A entrevistada também procurou deslocar o debate eleitoral das chamadas pautas morais para questões materiais que afetam diretamente as famílias.
Ela citou programas de combate à fome e serviços públicos de saúde como exemplos de políticas que, em sua avaliação, deveriam ocupar espaço maior no debate entre os eleitores religiosos.
No Ceará, o programa Ceará Sem Fome alcançou, em abril de 2026, a marca de 70 milhões de refeições distribuídas e contava com mais de 1.300 cozinhas em funcionamento. Os dados são do Governo do Ceará.
Na área da saúde, o Hospital Universitário do Ceará, inaugurado em março de 2025, já havia realizado mais de 125 mil atendimentos até março de 2026, segundo o Governo do Estado. A unidade foi projetada com capacidade de aproximadamente 800 leitos e oferece atendimento de alta complexidade.
Sinhara apresentou esses números como exemplos de políticas que podem ser discutidas com eleitores religiosos a partir de seus efeitos concretos sobre a vida das famílias.
“Eu fundamento o meu voto nisso, em cuidar, em servir, em amparar”, afirmou.
“A gente precisa construir pontes e não muros”
A relação entre religião e política apareceu na entrevista também como um problema de convivência democrática. Sinhara relatou ter perdido seguidores e recebido críticas de pessoas de sua própria comunidade religiosa depois de assumir publicamente sua posição política.
Para ela, a reação revela a dificuldade de alguns grupos em conviver com diferentes escolhas eleitorais dentro da mesma comunidade de fé.
“Se a gente quer representar o evangelho, realmente a gente tem que construir pontes e não muros”, afirmou.
A coordenadora defendeu ainda que os cristãos progressistas não abandonem as igrejas por divergências políticas. Segundo ela, a saída de fiéis críticos do uso político das instituições religiosas acaba deixando esses espaços mais sujeitos à atuação de grupos que defendem determinada candidatura.
A entrevistada mencionou o crescimento do grupo de evangélicos que não mantém vínculo regular com uma igreja, chamados no debate público de “desigrejados”, e afirmou que esse fenômeno precisa ser enfrentado também com participação ativa dos cristãos progressistas.
A escolha das mulheres mais velhas
No encerramento, Sinhara chamou atenção para a participação das mulheres idosas na eleição. Ela defendeu que familiares ajudem eleitoras mais velhas a exercer seu direito de voto, sempre preservando a autonomia de cada pessoa.
“Vamos chamar nossas avós, nossas mães, que são mulheres com mais de 70 anos. Esse eleitorado é um eleitorado que a gente precisa estar junto”, afirmou.
A fala veio acompanhada de uma ressalva sobre o respeito à escolha individual.
A entrevistada também voltou a defender que o voto seja orientado por consciência própria, sem pressão de pastores, familiares ou grupos políticos.
“Vote com liberdade, votem com consciência. Votem com amor, não votem com ódio, não queiram mal de ninguém”, declarou ao encerrar sua participação.
Sinhara também rejeitou a caracterização de que sua posição política significaria defesa do aborto. Afirmou ser contrária ao aborto e identificou o tema como uma questão frequentemente utilizada na disputa política para associar a esquerda ao que considera uma representação distorcida de suas posições religiosas.
“Sou uma mulher de Deus, missionária do Senhor. Sou muito feliz com a minha fé em Cristo”, afirmou.
O voto religioso como disputa política
A entrevista expôs uma questão que ganhou peso nas eleições brasileiras: a disputa política dentro de comunidades religiosas. O crescimento do eleitorado evangélico transformou esse segmento em um grupo relevante para as campanhas presidenciais, mas os dados também mostram que a identidade religiosa não elimina diferenças internas.
O Datafolha de setembro registra a vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Lula entre evangélicos, enquanto Lula aparece à frente entre católicos. Ao mesmo tempo, pesquisas recentes indicam que as mulheres são maioria no eleitorado e que uma parcela significativa delas ainda não havia definido seu voto.
Esse cenário explica a importância atribuída por campanhas e organizações políticas ao diálogo com mulheres e evangélicos, mas também evidencia que esses grupos não constituem blocos políticos homogêneos.
A entrevista do Café com Democracia apresentou, a partir da perspectiva de uma liderança evangélica ligada ao PT, uma proposta de aproximação baseada na presença cotidiana nas comunidades religiosas, na defesa do voto livre e na discussão de políticas públicas.
Para Sinhara, sua identidade religiosa e sua escolha política não são incompatíveis.
“É possível sim votar em Lula, que não é pecado. É muito bom votar em quem cuida das pessoas”, afirmou.
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