Atitude Popular

“É preciso levar o cordel pra escola”

Professor Djacyr de Souza defende políticas públicas para transformar folhetos rimados em ferramenta de aprendizagem, memória urbana e identidade popular nos 300 anos de Fortaleza

A literatura de cordel, com sua métrica cadenciada, rima marcada e linguagem direta, pode ser mais do que tradição afetiva: pode virar método pedagógico, instrumento de educação patrimonial e ponte entre escola e cidade. Essa foi a defesa do professor de geografia, mestre em educação e fazedor de cultura Djacyr de Souza, em entrevista ao programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas, na Rádio e TV Atitude Popular, no dia 23 de janeiro. A conversa, transmitida pela rede de rádios e TVs comunitárias parceiras, tratou do cordel como patrimônio cultural vivo de Fortaleza — que completa 300 anos — e dos obstáculos concretos para que a produção circule, seja publicada e chegue a quem mais precisa.

Logo no início, Djacyr sintetizou o coração do argumento: o cordel não é apenas “arte popular”, mas também um “cabedal de conhecimento”, justamente por operar com “uma linguagem simples e uma linguagem direta”. Ao longo do programa, ele explicou como o formato favorece a leitura e a mediação em sala de aula, principalmente quando o texto é declamado e discutido estrofe a estrofe, aproximando os estudantes do conteúdo sem o bloqueio que muitos carregam diante da poesia.

“Eu sempre defendo que esse material possa ser utilizado como um cabedal de conhecimento, porque é uma linguagem simples e uma linguagem direta”

O que é cordel e por que se chama assim

Djacyr retomou o básico para mostrar por que o cordel segue tão atual: são folhetos compostos por estrofes rimadas, com um desenho de rima que ajuda na memorização e na compreensão. O nome vem de uma prática antiga e ainda presente em feiras e exposições: os livretos eram — e às vezes ainda são — pendurados em cordões, como se fossem varais, para serem vistos e comprados. “Porque anteriormente… eles são pendurados em um cordão que as pessoas chamavam de cordel. Daí o nome literatura de cordel”, explicou.

O entrevistado também listou autores e autoras ligados ao Ceará e ao circuito do cordel, lembrando que a tradição tem nomes consagrados e novos produtores que vêm ampliando temas e usos. Entre os citados, ele destacou Patativa do Assaré e mencionou cordelistas como Rinoldo Rinaré, Zé Maria de Fortaleza, Paiva Neves, Sávio Pinheiro, Ivonete Aragão, Mariana de Lima, Dalva de Oliveira, Guaiuan Vieira, Barros Alves e Geraldo Pardal, este último apontado como alguém que tem produzido “muito cordel” numa perspectiva educativa.

Cordel como aula de cidade: Praça do Ferreira, Poço dos Desejos e “nossa Fontana de Trevi”

Um dos pontos altos da entrevista foi quando Djacyr levou o debate para a rua, literalmente: ele apresentou trechos de cordéis próprios sobre a história e o patrimônio de Fortaleza, com passagens dedicadas ao Centro e à Praça do Ferreira. Ao ler versos sobre a cidade, ele mostrou que o cordel pode funcionar como roteiro de educação patrimonial, estimulando a curiosidade e permitindo que professores conectem texto, fotografia, caminhada e debate.

Em uma das leituras, o convidado recitou:

“Vamos falar agora da capital fortaleza, onde a cultura vigora
em pura e forte beleza, que segue de muito de mundo afora
com muita delicadeza”

E trouxe o Centro para dentro da rima:

“Lá no centro da cidade tem a praça do Ferreira…
é o coração da cidade, dessa gente hospitaleira”

Ao falar do Poço dos Desejos, Djacyr misturou memória e explicação histórica: descreveu o ponto como “uma cacimba” — e a conversa ganhou a comparação bem-humorada feita por Luiz Regadas, chamando o lugar de “a nossa Fontana de Trevi”, numa referência ao gesto de jogar moedas e fazer pedidos.

O convidado também citou elementos tradicionais do entorno da praça e do Centro, lembrando que o patrimônio é feito de edifícios, mas também de hábitos, histórias e lugares cotidianos: a Coluna da Hora, o Cine São Luiz, além de referências gastronômicas como o Leão do Sul, com seus “pastel e caldo de cana”.

“Não tem valor”: a dificuldade de publicar e vender

Se o cordel é simples no formato, o caminho para publicá-lo não é. Djacyr foi direto ao descrever a barreira econômica. Ele apontou o custo da impressão, o baixo retorno na venda e a dificuldade de dar escala a um produto popular num mercado desigual. “Há uma dificuldade ainda muito grande da publicação do material… para publicar é caro”, disse, antes de resumir o impasse no balcão: o folheto chega a ser vendido por cinco reais — e ainda assim “a pessoa dá R$ 5 chorando”.

“Quando você vai vender o produto, não tem o valor que deveria ter”

A crítica do convidado se amplia para uma visão de política cultural que, segundo ele, muitas vezes não enxerga o artista como trabalhador com custos reais. Ele defendeu que secretarias de educação e gestores públicos entrem no circuito de forma concreta, comprando folhetos, financiando circulação, levando cordelistas às escolas e pagando oficinas e cursos.

Políticas públicas: comprar folhetos, abrir escolas e levar cordelista para a sala

Para Djacyr, o eixo mais objetivo do debate é um: a escola. Ele repetiu a proposta como prioridade e detalhou como isso poderia funcionar na prática, com custo baixo diante do orçamento público.

“A primeira coisa é levar o cordel pra escola”

Ele deu um exemplo simples: se uma escola comprasse 100 folhetos a cinco reais, isso representaria R$ 500 para montar uma base inicial de leitura e trabalho. A partir daí, defendeu, o cordelista poderia ir ao espaço escolar não só para vender, mas para formar, criar dinâmica de declamação, produção de texto, jogral, debate interdisciplinar com história e geografia, e até construção de roteiros de visita ao Centro e aos equipamentos culturais.

A entrevista também trouxe uma pauta recorrente no campo cultural: a ideia de escolas abertas nos fins de semana, como espaços comunitários para esporte, palhaçaria, contação de histórias, teatro, música e literatura. Djacyr lembrou um projeto já existente no Ceará, o Escola Aberta, e criticou a realidade de equipamentos culturais fechados ou em reformas prolongadas, reduzindo o acesso público e as possibilidades de circulação para artistas e educadores.

Gestão cultural, editais e “mística” sobre a Lei Rouanet

Ao ser provocado sobre o papel do poder público, Djacyr criticou a ocupação de cargos culturais por critérios estritamente políticos e sem compromisso com a área. “Os cargos de gestão não são de pessoas comprometidas com a cultura… tudo é cargo político”, afirmou. E também apontou limites do modelo baseado quase exclusivamente em editais.

No trecho final, ele abordou a desinformação recorrente sobre financiamento cultural no Brasil, especialmente a ideia de que artistas “ganham dinheiro” automaticamente por leis de incentivo. Para ele, esse discurso virou perseguição simbólica — e precisa ser enfrentado com explicação pública.

“Tire da cabeça essa história de que artista é rico”

Ele esclareceu que não existe dinheiro “dado” de forma simples: em geral, projetos precisam ser aprovados, captar recursos e cumprir regras, o que está longe de garantir renda estável ou vida confortável para quem produz cultura.

Cordel, memória e democracia “de portas abertas”

A entrevista terminou com uma defesa que conecta cultura e política: para Djacyr, a valorização do cordel não é só estética — é democrática. Ao convocar “democratas” a se unirem em torno da cultura do Ceará, ele ligou o tema do patrimônio ao direito de participação e ao acesso a bens simbólicos.

“A democracia… se faz de portas abertas”

Entre versos sobre Fortaleza e críticas ao abandono de equipamentos culturais, o programa desenhou uma tese central: o cordel, quando tratado como patrimônio vivo, vira ferramenta de escola, turismo cultural, memória urbana e alfabetização simbólica — mas, para isso, precisa deixar de depender apenas da “marra” e do esforço individual. Precisa de compra pública, circulação, presença na escola e gestão comprometida com quem faz cultura de verdade.

📺 Programa Café com Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 7h30 às 8h
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