Atitude Popular

“É quase uma vergonha um país como o Brasil ainda ter um salário mínimo desse patamar”

Balanço político de 2025 expõe desafios estruturais e aposta em 2026 como ano decisivo para mudar o Congresso

O diagnóstico é duro e vem de alguém que conhece o Estado brasileiro por dentro: ex-deputado federal, ex-ministro da Previdência e Assistência Social, ex-ministro do Trabalho e Emprego, Ricardo Berzoini avalia que o Brasil caminha na direção certa ao reduzir pobreza e desigualdade, mas insiste em um ponto incômodo: “é quase uma vergonha um país como o Brasil ainda ter um salário mínimo desse patamar”.

As declarações foram dadas em entrevista ao programa “Café com Democracia”, da Rádio e TV Atitude Popular, apresentado por Luiz Regadas, que fez com Berzoini um balanço político de 2025 e as perspectivas para 2026, ano de eleições gerais.

Desigualdade em queda, mas país ainda “difícil de governar”

Logo no início da conversa, Berzoini comenta os dados recentes do Ipea sobre pobreza e desigualdade, que apontam o menor patamar em 30 anos. Para ele, o movimento é real e resultado de uma política econômica voltada à geração de emprego, recomposição do salário mínimo e ampliação das políticas sociais.

“Esses dados mostram que o Brasil está no caminho certo: diminui a extrema pobreza, diminui a pobreza e aumenta a classe média assalariada”, afirma.

Ele lembra que o Brasil é, historicamente, um país marcado pela escravidão e pela falta de um projeto consistente de industrialização e inclusão social, com raras exceções: Getúlio Vargas, um pouco Juscelino, e depois os governos Lula e Dilma.

Mesmo reconhecendo avanços, o ex-ministro não romantiza o cenário: lembra que o país ainda está na 63ª posição mundial em renda per capita e entre os piores do mundo em distribuição de renda. Por isso, insiste no caráter estrutural da desigualdade: “o Brasil é um país difícil de governar, especialmente com esse Congresso que está aí”.

Salário mínimo, emprego e reindustrialização

Berzoini faz questão de relacionar salário mínimo, política industrial e qualidade do emprego. Ele destaca que, sem a política de valorização do mínimo, hoje o piso estaria “na casa de R$ 1.100”, bem abaixo do valor atual, e critica abertamente os setores que atacam essa política:

“A direita critica o tempo todo a política de aumento real do salário mínimo porque quer que o dinheiro vá para salvar bancos e subsidiar grandes empresas, e não para o bolso do povo.”

Para o ex-ministro, no entanto, salário mínimo sozinho não resolve. Ele sublinha que a reindustrialização é a chave para melhorar a renda do trabalho e a qualidade dos empregos:

“Uma das formas de avançar é ter mais indústrias. A indústria puxa o salário para cima. Quando o mercado de trabalho fica forte, começa uma disputa por trabalhadores, e o salário praticado sobe.”

Ele cita o período de grandes obras para Copa do Mundo e Olimpíadas, no governo Dilma, quando empresas da construção civil chegaram a elevar salários de R$ 2 mil para R$ 3 mil para conseguir contratar mão de obra. Na avaliação de Berzoini, é esse tipo de aquecimento do mercado de trabalho, combinado com ciência, tecnologia e inovação, que sustenta aumento de renda de forma mais consistente.

Data centers, água e desenvolvimento: “festejar o investimento, sem prejudicar o povo”

Questionado sobre os megaprojetos de data centers no Ceará e o consumo de água em um estado historicamente marcado pela seca, Berzoini adota uma posição de apoio crítico.

Ele reconhece a importância dos investimentos — citando também a nova fábrica de carros elétricos e outros projetos anunciados pelo governo Lula —, mas defende que a expansão tecnológica não pode competir com o abastecimento humano e a agricultura:

“É claro que vamos festejar o investimento, mas não podemos deixar que ele prejudique o abastecimento do povo. Tem que encontrar formas seguras, como a dessalinização da água do mar, e isso precisa passar pelo crivo do meio ambiente e das agências de água do estado.”

Para o ex-ministro, o desafio é combinar projetos de alta tecnologia com responsabilidade socioambiental, evitando repetir o padrão histórico de desenvolvimento excludente e predatório.

Previdência: “nunca houve rombo, isso é falácia”

Ao tratar de Previdência e Assistência Social, Berzoini mira um alvo conhecido: o discurso permanente de que o sistema estaria “quebrado”. Ele desmonta o argumento lembrando que a Constituição desenhou a seguridade social como um sistema financiado por múltiplas fontes, e não apenas pelas contribuições sobre folha de pagamento:

“Não tem rombo, nunca teve rombo. Previdência pública é compromisso social da Constituição com o povo brasileiro.”

Segundo ele, quando a grande mídia fala em déficit, desconsidera deliberadamente fontes como a Cofins e a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), ambas destinadas justamente a financiar a seguridade social.

Berzoini também aponta os interesses por trás da narrativa alarmista:

“As grandes empresas de comunicação são patrocinadas por bancos. Os bancos querem desmoralizar a Previdência pública para vender planos privados, que, em grande parte, são um péssimo negócio para o trabalhador.”

Ele defende o fortalecimento da Previdência pública, com mais fiscalização para combater fraudes, combate à sonegação e enfrentamento da pejotização e do falso MEI, que retiram recursos do sistema ao disfarçar relações de trabalho assalariado como contratos entre empresas.

Um Congresso “conservador, oportunista e sem visão de país”

Se há um ponto em que o tom de Berzoini sobe, é ao falar do Congresso Nacional. Ele define o atual parlamento como “muito conservador e muito oportunista”, e critica a prática permanente de chantagem e toma-lá-dá-cá.

A disputa em torno da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal é, para ele, exemplar:

“Cria-se uma celeuma em cima de uma prerrogativa do presidente. Ao Senado cabe examinar se o indicado tem biografia e nada que o desabone, não decidir se ele é ‘o melhor’ ou usar isso para barganhar cargos.”

Berzoini associa esse comportamento à baixa qualidade da representação política e devolve a responsabilidade à sociedade:

“Esse Congresso de qualidade tão baixa é responsabilidade nossa. Nós é que elegemos. Muita gente vota achando que tanto faz, e não tanto faz. Faz muita diferença.”

Para 2026, ele enxerga uma oportunidade rara de correção de rota: eleição para presidente, 27 governadores, 54 senadores e toda a Câmara dos Deputados e assembleias legislativas. Daí o alerta:

“Quando reclamamos da política, precisamos lembrar que, a cada quatro anos, vamos às urnas. O voto não pode ser um ato isolado. 2026 tem que ser um ano de preparação, mobilização e informação, para melhorar de verdade a qualidade do Congresso.”

Correios, bancos públicos e o papel do Estado

Outro tema sensível abordado na entrevista foi a situação dos Correios. Berzoini, que já presidiu o Conselho de Administração da empresa quando foi ministro das Comunicações, rejeita a ideia de privatização e defende um plano de capitalização via bancos públicos.

Ele lembra que os Correios faturam cerca de R$ 16 bilhões por ano, mas enfrentam perdas com a mudança na tributação de encomendas internacionais e a concorrência de grandes operadores logísticos estrangeiros. Daí a necessidade de um empréstimo para reequilibrar as contas.

O ex-ministro critica duramente a possibilidade de o socorro ser feito por bancos privados com juros elevados:

“É um absurdo pensar em empréstimo com taxa de 132% do CDI. Os bancos públicos deveriam ser chamados a emprestar a juros bem mais baixos. Correio é serviço público, patrimônio do país.”

Para ilustrar, ele cita o caso dos Estados Unidos, onde o serviço postal tem prejuízo anual bilionário, mas ninguém cogita privatizá-lo, justamente por sua função estratégica.

Bets, futebol e uma “doença social”

As casas de apostas esportivas — as chamadas bets — também entraram no radar da conversa. Fã de futebol, Berzoini diz ver com preocupação o impacto das apostas tanto no esporte quanto na vida das famílias:

“Tem famílias sendo dizimadas pelo vício em apostas. Isso é uma doença social, tão grave quanto qualquer droga.”

Ele critica o grau de mercantilização do futebol brasileiro, aponta a saída precoce de jovens talentos para a Europa e defende uma legislação que impeça a exportação de jogadores antes de um período mínimo como profissionais, para elevar o nível técnico dos campeonatos nacionais.

Ao associar o patrocínio pesado das bets aos clubes e à cultura de apostas, o ex-ministro defende um debate mais duro sobre regulação, prevenção e tratamento desse tipo de dependência.

Defesa e soberania: investimento que também é política industrial

Instigado sobre a necessidade de o Brasil fortalecer sua defesa frente às tensões geopolíticas e à presença militar dos Estados Unidos na região, Berzoini resgata o Plano Nacional de Defesa, aprovado em 2009, ainda no segundo governo Lula.

Ele lembra que os frutos de políticas de longo prazo demoram a aparecer: os submarinos contratados naquele período estão sendo entregues agora, assim como os caças Gripen, desenvolvidos em parceria com a Suécia. O país também opera um sistema de satélites de monitoramento de fronteiras fruto de investimentos iniciados há mais de uma década.

Para ele, defesa não é apenas gasto militar: é também política industrial e tecnológica:

“A indústria de armamentos e equipamentos de defesa já foi muito mais forte no Brasil. Retomar esse setor, com produção local e transferência de tecnologia, é ao mesmo tempo fortalecer a soberania e gerar emprego qualificado.”

Berzoini defende que parte dos investimentos em defesa seja retirada das amarras do arcabouço fiscal, desde que articulada a um projeto nacional de desenvolvimento industrial.

2026: entre o risco de retrocesso e a chance de virar o jogo

Encerrando a entrevista, o ex-ministro volta ao ponto que considera decisivo: o papel do eleitorado na definição dos rumos do país. Ele elogia o governo Lula por retomar políticas de desenvolvimento, infraestrutura e inclusão social mesmo em meio a um Congresso hostil, mas insiste que isso não será sustentável sem uma mudança profunda na composição do parlamento:

“Esse congresso que está aí é um congresso com muita corrupção, muito interesse particular e pouco interesse nacional. Só o povo pode mudar isso.”

Para Berzoini, 2026 será um divisor de águas. Ou o país consolida o caminho de redução das desigualdades, reindustrialização e fortalecimento de políticas públicas, ou abre espaço para novos ataques à democracia, à soberania e aos direitos sociais. A diferença, insiste, será feita fora dos gabinetes:

“O papel da liderança é levar informação de qualidade. Mas quem decide, no fim, é o povo, quando vota com consciência. Sem isso, a gente continua vendo o Congresso como um fator de desesperança.”

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