Atitude Popular

“É um ataque à democracia”

Estudo analisou mais de 6 mil mensagens no Telegram e ouviu 28 mulheres de 13 partidos sobre como a violência digital tenta expulsá-las da política

A violência de gênero facilitada pela tecnologia se consolidou como um dos instrumentos mais eficazes de intimidação e sabotagem da participação feminina na vida pública no Brasil. “É um ataque à democracia”, afirmou a pesquisadora Julie Ricard ao explicar como ameaças, humilhações e campanhas de deslegitimação online miram mulheres que ocupam espaços de poder e tentam empurrá-las de volta ao silêncio.

A discussão ocorreu no programa “Democracia no Ar”, da Rádio e TV Atitude Popular, apresentado excepcionalmente por Luís Regadas, com comentários da professora de filosofia Sandra Helena. A conversa teve como base um estudo coordenado por Ricard, doutoranda em administração pública e especialista em desinformação, políticas públicas, tecnologia, gênero e democracia. A pesquisa foi realizada pela Data-Pop Alliance, organização internacional sem fins lucrativos, com financiamento de uma entidade do terceiro setor sediada no Reino Unido, e publicada no final do ano passado.

O relatório buscou entender como se manifesta a violência digital direcionada a mulheres na política e o que está sendo feito para enfrentá-la, com atenção especial ao papel dos partidos. Para isso, a equipe realizou entrevistas com 28 mulheres, entre eleitas e lideranças partidárias, de 13 partidos, e analisou mais de 6.000 mensagens em grupos públicos do Telegram, incluindo espaços dedicados a política e ambientes conspiracionistas.

Ricard explicou que a violência atinge mulheres de forma diferenciada conforme o perfil demográfico, reproduzindo desigualdades estruturais do país. Segundo ela, mulheres negras enfrentam violências racializadas, mulheres indígenas recebem ataques que reforçam visões coloniais, mulheres trans são alvo de agressões intensificadas por cobranças de conformidade de gênero, e mulheres brancas também sofrem uma diversidade de ataques, com recorrência de agressões relacionadas à idade e à aparência física.

Apesar dessas especificidades, há um eixo comum que atravessa os casos relatados nas entrevistas e observados nas mensagens analisadas. Ataques misóginos que procuram recolocar a mulher no espaço privado, insinuando que ela é incapaz de sustentar posições próprias, que age por emoção ou que apenas reproduz a vontade de homens influentes no entorno político. “Todos esses ataques buscam deslegitimar a presença das mulheres nesse espaço público, buscam questionar sua autonomia”, sintetizou Ricard, ao descrever a lógica que tenta degradar reputações e corroer a legitimidade do poder conquistado.

A pesquisadora também chamou atenção para um padrão conhecido na política, mas que ganha uma camada específica quando o alvo é uma mulher. Acusações de corrupção, por exemplo, aparecem tanto contra homens quanto contra mulheres, mas, segundo ela, no caso feminino o ataque costuma vir acompanhado de moralização e punição simbólica, porque se espera, em visões essencialistas, que mulheres sejam “boas” e “puras”. Ao mesmo tempo, surgem agressões centradas em estereótipos de gênero, como xingamentos que as tratam como “loucas”, além de ataques ao corpo, à personalidade e à aparência.

Um dos pontos centrais do estudo, de acordo com Ricard, é que a escalada do assédio não se limita ao período eleitoral. A violência se intensifica quando as mulheres ganham relevância, visibilidade e poder. “A violência contra mulheres na política se intensifica quando as mulheres adquirem poder”, disse. Na leitura da pesquisadora, essa dinâmica confirma que a agressão funciona como ferramenta de expulsão, um recado de que a presença feminina no espaço decisório será punida.

Sandra Helena trouxe para o debate o caso de Dilma Rousseff como exemplo emblemático de violência de gênero na política, inclusive na cobertura de grandes veículos. Ela lembrou que Dilma foi submetida a uma vigilância milimétrica sobre roupas, cabelo, gestos e postura, um tipo de julgamento raramente aplicado a homens. Para a professora, esse processo de rebaixamento se torna tão intenso que se infiltra no cotidiano e na memória social. “A coisa é tão forte que ela cala em nós”, afirmou, ao comentar a naturalização que apaga a gravidade do que foi vivido.

A professora também insistiu que o debate não pode perder de vista o desfecho extremo que a espiral de violência pode alcançar. Ao mencionar Marielle Franco, Sandra Helena destacou que, em alguns casos, a violência não termina no simbólico. Ela se materializa no físico e encerra trajetórias de forma irreversível, transformando o espaço público em território de risco permanente.

Ao tratar da polarização, Ricard afirmou que a violência política de gênero atinge mulheres de todos os campos ideológicos. “A resposta curta é sim: todas as mulheres, independentemente do seu lugar no espectro político, sofrem violência política de gênero, inclusive no âmbito digital.” Ela explicou que a pesquisa buscou contemplar mulheres na esquerda e na direita, ainda que a divisão em dois blocos seja reducionista, e apontou um dado que causou impacto durante o programa. Mulheres de direita relataram com frequência sofrer ataques vindos do próprio campo político, inclusive de aliados e ex-aliados, sobretudo quando se afastam de expectativas rígidas sobre como uma mulher “de direita” deveria se comportar. “As mulheres de direita, quase todas relatam sofrer violência que vem do próprio campo delas”, disse.

Ao discutir exemplos, Luís Regadas citou a repercussão de ataques a Carla Zambelli em determinados momentos de crise no campo bolsonarista. Ricard explicou que a equipe não entrevistou Zambelli, mas buscou seu nome nas mensagens do Telegram por se tratarem de grupos públicos, e destacou que ataques de deslegitimação podem servir como piso para escaladas posteriores, ao classificar a mulher como “traidora” e, assim, abrir espaço para “correções” mais violentas.

Em seguida, Ricard leu um depoimento de uma entrevistada, anonimizada por critérios éticos da pesquisa, que exemplifica o nível de brutalidade relatado no estudo. “Me ameaçaram de morte, me ameaçaram de estupro, ameaçaram estuprar minha filha e depois degolar minha filha na minha frente entre algumas das ameaças que eu sofri nas redes sociais”, relatou uma mulher branca de direita entrevistada pela pesquisa. O trecho, embora extremo, não foi apresentado como exceção isolada, mas como expressão de um padrão em que o ataque à mulher se amplia para a família.

A pesquisadora afirmou que ameaças e agressões direcionadas a filhos e filhas aparecem como uma das ferramentas mais perversas da violência política de gênero. Ela relatou entrevistas em que as participantes não conseguiram conter lágrimas ao lembrar de episódios em que montagens sexualizadas chegaram ao celular de crianças ou em que familiares foram ameaçados. “Esse aspecto é muito característico da violência que se dá contra mulheres na política, porque isso não acontece com os homens”, disse, argumentando que o mecanismo se ancora em estereótipos que associam a mulher ao cuidado e, portanto, tentam atingi-la por onde dói mais.

Ricard também descreveu a dimensão concreta do medo provocado pela violência digital, especialmente quando há divulgação de dados pessoais, o doxxing. Segundo ela, os impactos se acumulam e produzem efeitos emocionais, logísticos e financeiros. Há casos de mudança de residência, restrição de deslocamentos, relatos de mulheres que passam a dormir em gabinetes ou hotéis e situações em que se discute escolta e proteção reforçada. Quando a estrutura partidária não arca com isso, a conta pode recair sobre a própria mulher.

A pergunta que atravessa o fenômeno, disse Ricard, é o que isso produz na democracia. O estudo encontrou relatos de desistência e de resistência. Algumas mulheres afirmaram que o custo psicológico e o estresse as adoeceram, levando a internações e ao abandono da vida política. Outras disseram que a agressão, por tentar expulsá-las, também pode acionar um efeito inverso, de permanência e enfrentamento. Ricard ponderou que o estudo tem vocação qualitativa e não pretende medir qual efeito é mais frequente, mas insistiu que o cenário aponta para um processo de deterioração democrática. Para ela, se mulheres são afastadas do espaço de representação e decisão, a base do regime democrático é atingida.

No bloco final, a discussão avançou para o papel dos partidos. Ricard afirmou que a equipe entrevistou partidos de diferentes campos e analisou estatutos e sites dos 20 partidos com representação na Câmara dos Deputados. Ela descreveu diferenças ideológicas até no vocabulário. Partidos de esquerda tendem a mencionar “gênero” com mais frequência em documentos internos, e parte deles associa a palavra à violência. Já em partidos de direita e extrema direita, a menção a “gênero” é bem mais rara, fala-se mais em “mulheres”, e, segundo ela, não houve referência a “violência de gênero” nos estatutos analisados. Nos sites, o conteúdo é mais atualizado, mas a assimetria ainda aparece.

Na prática, Ricard relatou que respostas partidárias costumam ser pontuais e acionadas sobretudo em situações percebidas como ameaça física direta. Ela citou relatos, no campo da esquerda, de apoio para escolta, mudança de residência e medidas de proteção mais caras, enquanto afirmou não ter ouvido relatos equivalentes no campo da direita. Ainda assim, sua avaliação foi que nenhum partido apresenta um sistema robusto e consistente. Para ela, falta um protocolo claro, com caminhos definidos para acolhimento, registro, proteção e responsabilização.

Sandra Helena, por sua vez, defendeu que as organizações políticas monitorem redes de forma profissional, com capacidade de levar ameaças a sério antes que se tornem tragédia, e sugeriu a criação de mecanismos de acionamento rápido, semelhantes a um botão de pânico, articulando partidos, casas legislativas e instituições de justiça. A professora lembrou que nenhum protocolo é infalível, mas que a ausência de protocolos aprofunda o risco.

Ricard concordou e trouxe uma frase de uma entrevistada que, segundo ela, resume uma direção necessária. “Quando existe alguma ação de violência contra a mulher na política, acho que precisa ser uma união de forças, independentemente de partido político, de ideologia para ajudar as mulheres.” A pesquisadora mencionou ainda recomendações presentes no relatório, como reconhecer formalmente a violência digital contra mulheres na política como violência política de gênero, desenvolver protocolos internos, pressionar para que plataformas tratem o problema como prioridade de moderação, e criar formas de dar visibilidade ao que ocorre em nível local, onde ataques graves podem permanecer invisíveis fora dos grandes centros.

A conversa terminou com um alerta que ficou martelando desde a fala inicial da convidada. Se a violência digital funciona como ferramenta para expulsar mulheres do debate público, ela não é apenas agressão individual, nem “ruído” de rede social. Ela se torna um método de controle e de veto à presença feminina no poder, corroendo a democracia por dentro. “É um ataque à democracia”, insistiu Ricard, como síntese e denúncia.

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