Na COP30 em Belém, João Arroyo, Carol Magalhães e Lidiane Freire defendem a economia solidária como resposta simultânea à crise climática e à miséria
A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, a COP30, transforma Belém do Pará em vitrine mundial das disputas em torno do futuro do planeta. Enquanto chefes de Estado, negociadores e grandes empresas ocupam os espaços mais visíveis do evento, uma outra agenda cresce pelas bordas: a das experiências concretas que tentam enfrentar, ao mesmo tempo, a emergência climática e a desigualdade social. Entre elas, a economia solidária reivindica lugar de destaque.
Foi sobre esse entrelaçamento entre clima, modelo de desenvolvimento e justiça social que se debruçou o programa Bancos da Democracia, do Instituto E-Dinheiro, veiculado pela rádio e TV Atitude Popular. A edição dedicada ao tema “A Economia Solidária na COP30” teve apresentação excepcional de Sousa Júnior, substituindo a jornalista Sara Goes, e contou com a participação do geólogo e professor João Arrosyo, pró-reitor de Pesquisa e Extensão da Universidade da Amazônia e coordenador do Comitê COP30, de Carol Magalhães, coordenadora do movimento Moeda Verde e idealizadora do Banco Social Assubank, e de Lidiane Freire, coordenadora-geral de Parcerias e Fomento da SENAES/MTE. A entrevista é a base desta reportagem.
Logo na abertura, Sousa Júnior explicou a ausência da titular do programa e registrou solidariedade a Sara, que precisou comparecer à Justiça por conta de uma queixa-crime de perseguição e assédio. O apresentador aproveitou para denunciar o machismo e a misoginia ainda presentes na sociedade brasileira e defender a necessidade de responsabilizar homens que atacam e perseguem mulheres, especialmente quando elas ocupam espaços públicos.
A partir daí, o foco foi a COP30 e o lugar da economia solidária nesse tabuleiro. Para João Arroyo, compreender a conferência exige recuperar uma longa trajetória de disputas dentro da própria ONU. Ele lembrou que as primeiras conferências sobre desenvolvimento, ainda na década de 1970, tentavam combinar combate à poluição, aquecimento global e desigualdade social. Foi só nos anos 1990 que o clima passou a ser destacado como problema isolado.
Segundo o professor, essa mudança não foi neutra. “Aí inventaram a conferência sobre o clima. O problema não é mais o desenvolvimento, o problema é o clima. O clima é a causa e não a consequência. Inverteram isso”, criticou. Do ponto de vista dele, os países ricos utilizaram o discurso climático para desviar o debate do modelo de desenvolvimento que concentra renda, destrói biomas e empurra populações inteiras para a miséria.
Arroyo insiste que devastação ambiental e pobreza caminham juntas. “Só aceita trabalhar em garimpo quem está na miséria sem opção. A mesma coisa você tirar madeira nas condições dadas. Só faz isso quem está na miséria e não tem opção”, afirmou, a partir de sua experiência de mais de 30 anos de pesquisa na Amazônia. Na leitura do professor, a miséria não é efeito colateral, mas parte do funcionamento do sistema. “A miséria é um produto para que você tenha exatamente o sucesso dessas atividades que depredam e concentram renda”, resumiu.
É nesse ponto que entra a economia solidária. Para Arroyo, ela surge como “grande contraponto” à tentativa de reduzir o debate à questão ambiental e excluir a discussão sobre concentração de renda e poder. Em Belém, a Universidade da Amazônia, em parceria com Unisol, Fórum Paraense e outras redes, montou o “território da economia solidária”, com feira, debates e encontros, em diálogo com a programação da COP30 e da sociedade civil.
Se o professor se concentra na crítica ao modelo dominante, Carol Magalhães traz o contraponto da prática concreta, ancorada em um município do interior paraense. Moradora de Igarapé-Açu, no nordeste do estado, ela coordena o movimento Moeda Verde e o Banco Social Assubank, experiência que tem chamado atenção nacional e ganhou ainda mais visibilidade durante a COP.
Carol lembra que Igarapé-Açu tem 63% da população abaixo da linha da pobreza, dois lixões a céu aberto e um passivo gigantesco em resíduos que poderiam gerar trabalho e renda. Só em materiais recicláveis, o município envia cerca de 322 toneladas por mês para o lixão, desperdiçando, segundo os cálculos da equipe, mais de R$ 100 mil mensais em potencial econômico apenas com a comercialização dos recicláveis, sem contar os custos em saúde e danos ambientais.
Diante desse cenário, o movimento Moeda Verde nasceu em 2018 como iniciativa comunitária, a partir do incômodo com o lixo comprometendo igarapés e nascentes. A proposta é simples e transformadora: moradores podem trocar resíduos recicláveis por uma moeda social com poder de compra em mais de 60 pequenos comércios da cidade. “A gente chama esse movimento de movimento Moeda Verde, que é um movimento que propõe a troca de material reciclável por uma moeda que tem poder de compra”, explicou.
Com o tempo, o grupo percebeu que havia criado, na prática, um banco comunitário. Assim nasceu o Assubank, banco social que opera microcrédito lastreado em resíduos, com foco especial em mulheres que empreendem por necessidade. Os empréstimos variam de 100 a 400 “moedas verdes”, equivalentes em valor a reais, e são pagos em seis meses com a entrega de recicláveis, processados pela cooperativa local. “Para nós, isso é revolucionário”, afirmou a coordenadora, destacando a parceria com o Sebrae para qualificação e apoio a quem acessa o crédito.
Os resultados impressionam. Carol relata que, graças ao movimento, Igarapé-Açu tem hoje produção per capita de resíduos muito inferior à média nacional e é referência em logística reversa de vidro no Pará, com mais de 115 toneladas de cacos enviados à reciclagem. Tudo isso com um lastro inicial de apenas R$ 75.500 para colocar a moeda em circulação. “Tudo isso que estou trazendo a gente faz com R$ 75.500 de lastro inicial. É pouco dinheiro para muito impacto”, sintetizou.
A experiência de Igarapé-Açu conecta-se à Rede Brasileira de Bancos Comunitários, cuja semente foi plantada em Fortaleza com o Banco Palmas. Na COP30, a rede mantém um estande na área verde do evento, promove debates sobre moedas sociais e finanças solidárias, organiza uma visita técnica a Igarapé-Açu e Mosqueiro e realiza, na Universidade Federal do Pará, o seminário “Bancos Comunitários e Ecologia Monetária”.
Na outra ponta do debate, Lidiane Freire trouxe a visão de quem hoje está dentro do governo federal, na Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego. Militante do campo há mais de duas décadas e ex-gestora da política estadual de economia solidária do Rio Grande do Norte, ela destacou que a economia solidária precisa ser compreendida como projeto de sociedade, e não apenas como linha de fomento ou vitrine de produtos.
“A responsabilidade desse programa também é encantar corações para somar forças, somar estratégia para apresentar a economia solidária como projeto, como modelo de desenvolvimento que traz justiça econômica, solidariedade e sustentabilidade do meio ambiente”, afirmou. Para Lidiane, a transição climática justa exige olhar não só para emissões de carbono, mas para educação, saúde, segurança pública, geração de renda e organização popular.
Ela explicou ainda como a economia solidária conseguiu se inserir na estrutura da COP, dividida em área azul, mais restrita a governos e delegações oficiais, e área verde, aberta a sociedade civil, movimentos e experiências. A partir da articulação entre diferentes ministérios que trabalham “economias alternativas” – solidária, circular, criativa, de impacto –, o governo federal garantiu a criação de uma feira de empreendimentos da economia solidária e da agricultura familiar na área verde, além de espaços de debate e comercialização.
Segundo Lidiane, o objetivo é mostrar que a agenda climática precisa considerar quem produz comida, recicla resíduos, organiza cooperativas e constrói alternativas nas periferias urbanas e rurais. “Economia solidária não é o produto, é como a gente se organiza”, resumiu, defendendo também a construção de uma grande rede autogestionária de comunicação popular para dar visibilidade a essas experiências.
Na parte final do programa, João Arroyo voltou a enfatizar que a COP, por si só, não resolve nada. O que importa é o que acontece “na segunda-feira”, quando as delegações forem embora. Por isso, defendeu que os diferentes atores da economia solidária aproveitem o encontro em Belém para construir estratégias de longo prazo: uma rede nacional de comunicação, rodadas de negócios, uma escola nacional de economia solidária e, sobretudo, um novo sistema econômico baseado em outros valores.
“O debate central é sobre valor”, insistiu. E arrematou com a frase que dá título a esta matéria: “Economia não é dinheiro, economia é valor”. A provocação é direta: enquanto a sociedade seguir confundindo economia com dinheiro e lucro, será difícil enfrentar um modelo que transforma florestas em mercadoria, povos em mão de obra descartável e miséria em condição permanente.
Entre análises estruturais, exemplos concretos e convites à organização, a edição de Bancos da Democracia dedicada à COP30 mostrou que, longe dos grandes palcos e dos anúncios grandiloquentes, um outro projeto de futuro está sendo costurado pela base, em múltiplos territórios. Um projeto que insiste em dizer que enfrentar a crise climática sem enfrentar a miséria é repetir o erro de separar causa e consequência. E que, na Amazônia e no Brasil, há gente disposta a fazer diferente.
📺 Programa Bancos da Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 8h30 às 9h30
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
💚 Apoie a comunicação popular!
📲 Pix: 33.829.340/0001-89




