Segundo turno coloca frente a frente projetos distintos de política externa: Lula aposta em BRICS, multipolaridade e relação estratégica com Pequim; Flávio Bolsonaro já admitiu rever permanência no bloco, mas passou a defender pragmatismo comercial com a China
Da Redação
A eleição presidencial brasileira deixou de ser acompanhada apenas como uma disputa doméstica. O segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro passou a ser observado também em Pequim, Washington, Moscou e outras capitais porque o resultado poderá alterar o comportamento da maior economia da América Latina num momento de competição crescente entre Estados Unidos e China e de expansão política do BRICS.
Esse é o eixo da análise publicada pela RT sobre a eleição brasileira. O ponto central não está em prever automaticamente uma ruptura do Brasil com um dos lados, mas em perceber que Lula e Flávio chegam ao segundo turno com trajetórias bastante diferentes em relação ao BRICS, aos Estados Unidos e à China.
A pesquisadora Zhang Jieyu, do Instituto de Estudos Latino-Americanos do China Institute of International Studies, descreveu a eleição como um momento importante para a configuração política latino-americana, para o BRICS e para as relações entre o Norte e o Sul globais. Na avaliação dela, uma mudança de governo poderia reduzir o ritmo da cooperação política entre Brasil e China, embora a dimensão econômica da relação torne improvável uma ruptura completa. United Daily
A cautela nessa avaliação é explicada por números concretos. De janeiro a setembro deste ano, o Brasil exportou US$ 84,7 bilhões para a China, quase 30% de tudo o que vendeu ao exterior no período. Os Estados Unidos, segundo principal destino, receberam US$ 27,5 bilhões. A China permanece, portanto, numa dimensão econômica difícil de substituir independentemente da orientação ideológica de quem ocupe o Palácio do Planalto. Balança Comercial
Essa realidade ajuda a compreender uma aparente contradição que atravessa a campanha de Flávio Bolsonaro.
Flávio já falou em deixar BRICS, mas agora enfatiza pragmatismo
Durante a pré-campanha, Flávio afirmou que poderia reavaliar a permanência do Brasil no BRICS. Em junho, declarou que, se assumisse a Presidência, examinaria se o país deveria continuar em um bloco que classificou como excessivamente ideológico e utilizado para confrontar os Estados Unidos.
O senador também criticou iniciativas destinadas a diminuir a dependência internacional do dólar e defendeu maior aproximação estratégica com Washington, inclusive em minerais críticos e terras raras. Em declarações anteriores, apresentou o Brasil como possível fornecedor capaz de ajudar os Estados Unidos a reduzir sua dependência chinesa nesses setores. UOL Notícias
A política norte-americana para minerais estratégicos é uma questão de segurança econômica e militar. A China domina partes fundamentais da mineração e, sobretudo, do processamento mundial de terras raras, enquanto Washington investe na construção de cadeias alternativas para setores que vão da indústria eletrônica à produção de armamentos. Reuters
Flávio também prometeu integrar o Brasil ao chamado Escudo das Américas, estrutura de cooperação em segurança impulsionada pela administração Donald Trump. Sua aproximação com o governo norte-americano é uma das diferenças mais visíveis em relação à diplomacia adotada por Lula.
Mas o discurso do candidato do PL tornou-se mais cauteloso à medida que a eleição avançou.
Nesta quinta-feira, Flávio voltou a afirmar que pretende praticar uma diplomacia pragmática e disse que não deseja obrigar o Brasil a escolher entre parceiros internacionais. Incluiu China, Estados Unidos, Israel, Índia e países do Oriente Médio entre as relações que pretende preservar caso seja eleito. Representantes da indústria brasileira também têm pressionado para que uma aproximação com Washington não coloque em risco o comércio com Pequim. UOL Notícias
Essa mudança de linguagem ajuda a mostrar os limites econômicos de uma política externa fundada exclusivamente em alinhamentos ideológicos.
Durante o governo de Jair Bolsonaro, apesar das frequentes críticas políticas feitas à China por integrantes do governo e da própria família Bolsonaro, o comércio bilateral continuou crescendo. A economia impôs limites práticos à retórica.
Flávio parece enfrentar desde já a mesma equação.
Lula transformou BRICS em instrumento de autonomia externa
O projeto de Lula parte de outra leitura do sistema internacional.
Desde o início do atual governo, o presidente procurou fortalecer o BRICS, reconstruir a presença brasileira na América do Sul e ampliar relações com China, Índia, África, Oriente Médio e outras regiões, sem abandonar comércio e negociação com Estados Unidos e Europa.
Durante a presidência brasileira do BRICS em 2025, o bloco ampliado realizou mais de 200 reuniões e avançou em agendas que incluíram saúde, inteligência artificial, financiamento climático e reforma das instituições internacionais. Lula apresentou o agrupamento como expressão de uma ordem internacional mais multipolar e aproximou sua origem política da tradição do movimento dos países não alinhados. Brics
Essa concepção também aparece nas críticas de Lula ao predomínio do dólar no comércio internacional. O presidente defende mecanismos que permitam ampliar transações em moedas nacionais e reduzir a vulnerabilidade de países emergentes às decisões monetárias tomadas em Washington.
Isso não significa que o BRICS possua uma moeda comum pronta para substituir o dólar, nem que seus integrantes mantenham posições idênticas. O grupo reúne países com interesses, regimes políticos e relações internacionais bastante diferentes.
Sua importância está justamente em oferecer uma estrutura adicional de negociação e financiamento fora das organizações tradicionalmente dominadas pelas potências ocidentais.
Para o Brasil, a participação possui ainda uma dimensão histórica. O país estava entre os fundadores do agrupamento original ao lado de Rússia, Índia e China, antes da entrada da África do Sul e da posterior expansão.
Uma eventual revisão da participação brasileira teria, portanto, consequências que ultrapassariam a diplomacia bilateral.
China observa eleição sem ignorar interesses econômicos
A atenção chinesa ao segundo turno não significa que Pequim espere necessariamente um rompimento caso Flávio vença.
A imprensa chinesa acompanhou a eleição destacando precisamente a força dos interesses econômicos entre os dois países. Analistas ouvidos pela BBC antes do primeiro turno observaram que a relação comercial adquiriu tamanho suficiente para limitar mudanças abruptas de orientação diplomática.
Essa avaliação coincide com a própria movimentação de Flávio. Em encontros reservados com representantes empresariais, o senador procurou transmitir a mensagem de que as relações comerciais com a China seriam preservadas.
O cenário que começa a aparecer, caso ele chegue ao Planalto, poderia ser de aproximação política maior com Washington acompanhada da tentativa de manter os negócios com Pequim.
É uma combinação que outros governos também procuram realizar.
O problema é que a separação entre comércio e segurança tornou-se mais difícil.
Semicondutores, inteligência artificial, telecomunicações, energia, minerais críticos, infraestrutura digital e indústria militar passaram a fazer parte da competição estratégica entre Estados Unidos e China. Decisões aparentemente comerciais produzem cada vez mais consequências geopolíticas.
Por isso, a escolha do próximo presidente brasileiro poderá ser testada em situações nas quais manter boas relações simultaneamente com Washington e Pequim deixe de ser apenas uma fórmula diplomática.
Brasil ocupa posição rara na disputa global
O peso internacional do Brasil deriva exatamente do fato de que o país não é um participante secundário nessa reorganização.
Possui território continental, uma das maiores reservas agrícolas e minerais do mundo, enorme capacidade energética, posição central na América do Sul e relações comerciais profundas com economias que competem entre si.
Também está entre os poucos países de grande porte que mantêm diálogo simultâneo com Estados Unidos, China, Rússia, União Europeia, Índia e países do Oriente Médio.
Essa posição aumenta a margem de negociação, mas também aumenta a pressão.
Para Washington, o Brasil é fundamental numa estratégia destinada a recuperar influência na América Latina e construir cadeias produtivas menos dependentes da China.
Para Pequim, o país é fornecedor estratégico de alimentos, minério, petróleo e outras matérias-primas, além de mercado para produtos industriais e investimentos.
Para o BRICS, o Brasil exerce uma função diferente: é uma grande democracia latino-americana fundadora do grupo e ajuda a impedir que o bloco seja interpretado exclusivamente como uma estrutura organizada ao redor da China e da Rússia.
É esse elemento que explica por que a eleição interessa para além do resultado brasileiro.
O segundo turno não decidirá apenas quem administrará o país a partir de janeiro. Também poderá definir como o Brasil utilizará seu peso entre as potências durante uma fase de crescente divisão da economia mundial.
Com Lula, a orientação já é conhecida: reforço do BRICS, relação estratégica com a China e tentativa de preservar autonomia em relação aos grandes blocos.
Com Flávio, o desenho permanece menos definido. Suas declarações anteriores indicam uma aproximação mais profunda com os Estados Unidos e até a possibilidade de revisão da participação no BRICS; suas manifestações mais recentes, contudo, enfatizam pragmatismo e manutenção das relações econômicas com Pequim.
Essa diferença entre campanha, interesses econômicos e realidade internacional é justamente o que torna a eleição brasileira relevante para o restante do mundo.
Em 25 de outubro, o voto será brasileiro. Seus efeitos diplomáticos, porém, serão sentidos muito além das fronteiras do país.

