Presidente afirma que segundo turno exige mobilização para enfrentar a abstenção, ampliar o debate sobre segurança pública e apresentar as diferenças entre os projetos em disputa
Em reunião com aliados após o primeiro turno das eleições, o Presidente Lula afirmou que a disputa pela Presidência será definida pela capacidade de sua campanha de mobilizar eleitores nos próximos 20 dias. O discurso, reproduzido na transcrição fornecida para esta reportagem, foi marcado por uma defesa da campanha no segundo turno, pela apresentação de propostas para a segurança pública e por críticas ao projeto político de seu adversário.
Lula procurou também falar diretamente aos candidatos aliados que não conseguiram se eleger no primeiro turno. Segundo ele, uma derrota eleitoral não elimina necessariamente o resultado político de uma campanha. Ao lembrar uma frase que atribuiu a um grande publicitário brasileiro, afirmou: “Perder é ruim. Mas se você perde e deixa uma marca, a derrota pode significar a vitória.”
Na avaliação do Presidente Lula, o desempenho eleitoral deve ser analisado também a partir do que cada campanha conseguiu apresentar à sociedade. Ele lembrou sua própria trajetória eleitoral e citou o segundo turno de 2006, quando enfrentou Geraldo Alckmin. “Eu cresci 12 milhões de votos e ele perdeu 4 milhões de votos no segundo turno”, afirmou, ressaltando que o cenário atual é diferente, mas que sua experiência indica que uma disputa pode mudar significativamente entre as duas etapas.
“Eu estou convencido que não há nenhuma razão para que a gente não seja eleito presidente da República”, declarou. Lula sustentou que não identifica impedimentos econômicos, sociais ou políticos capazes de inviabilizar sua vitória e defendeu que a campanha apresente com clareza as diferenças entre os dois projetos em disputa.
Segurança pública entra no centro da campanha
Um dos principais pontos do discurso foi a segurança pública. Lula afirmou que o modelo atual, baseado principalmente na responsabilidade dos estados, tornou-se insuficiente diante do crescimento e da sofisticação das organizações criminosas.
Segundo ele, o crime organizado passou a operar em escala muito maior e estabeleceu conexões em diferentes setores da sociedade. “A bandidagem cresceu, o crime organizado cresceu, ficaram sofisticados, se transformaram numa indústria multinacional”, disse. Na sequência, afirmou que essas organizações chegaram a penetrar em diferentes espaços institucionais e sociais.
Lula defendeu a aprovação de uma Proposta de Emenda à Constituição para ampliar a participação da União na segurança pública. Na avaliação do Presidente, a Polícia Federal precisa ter condições jurídicas e institucionais mais amplas para atuar em crimes que ultrapassam as fronteiras estaduais.
Ele citou o assassinato da vereadora Marielle Franco como exemplo da importância de uma atuação federal. “No caso da Marielle, se a Polícia Federal não entra, não tínhamos descoberto quem mandou matar Marielle”, afirmou.
A proposta, segundo Lula, também exigiria uma mudança na estrutura de financiamento e na formação das forças de segurança. Ele defendeu uma força nacional própria, com treinamento, inteligência e recursos específicos, em vez de simplesmente retirar policiais de diferentes estados para formar contingentes temporários.
“Isso tem que ser votado já. Nós não podemos esperar a posse do novo Senado pra gente votar, tem que ser agora”, afirmou.
O Presidente também associou segurança pública à presença do Estado nas comunidades. Para ele, nenhuma estratégia policial será suficiente se não vier acompanhada de políticas públicas. “Não haverá polícia capaz de resolver o problema da segurança pública se o Estado não estiver de corpo presente na comunidade levando política social”, declarou.
Lula mencionou investimentos em educação e saúde e defendeu uma presença territorial mais próxima das comunidades. A ideia, segundo ele, é combinar a atuação das forças de segurança com políticas sociais capazes de reduzir a vulnerabilidade de áreas dominadas pelo crime organizado.
Disputa econômica e programas sociais
Na parte econômica, Lula recuperou experiências de seus governos anteriores para contestar a ideia de que políticas de valorização do salário mínimo necessariamente produziriam aumento da inflação.
“Quantos anos a gente ouviu dizer que não podia aumentar o salário mínimo porque causava inflação e nós aumentamos todos os anos no primeiro mandato nosso, no segundo mandato e não teve inflação”, afirmou.
Ele também citou o governo da presidenta Dilma Rousseff e disse que a valorização do salário mínimo continuou sem produzir o efeito inflacionário previsto por seus críticos.
Lula fez uma crítica direta ao discurso de austeridade fiscal quando, segundo ele, a conta recai sobre políticas destinadas às parcelas mais pobres da população. “Toda vez nesse país que se fala em dureza fiscal, o que tá em jogo é a política de inclusão social”, declarou. Em seguida, afirmou: “Não é tirar os benefícios dos ricos, é tirar os benefícios dos pobres.”
A saúde também apareceu como parte da comparação entre os projetos eleitorais. Lula citou investimentos em policlínicas, hospitais universitários e no atendimento oncológico, defendendo que o intervalo entre o diagnóstico de câncer e o início do tratamento seja de no máximo 30 dias.
Ele sustentou que a continuidade dessas políticas dependerá da manutenção do atual projeto político no governo federal. Também afirmou que programas de infraestrutura iniciados ou planejados durante governos anteriores foram interrompidos após a mudança de governo e questionou se iniciativas atualmente em andamento seriam mantidas por seu adversário.
Lula chama eleitorado ausente para a disputa
Outro ponto central do discurso foi a abstenção. Lula chamou atenção para os cerca de 30 milhões de eleitores que não compareceram às urnas no primeiro turno e afirmou que a campanha precisa compreender as razões dessa ausência.
“O que aconteceu com essas pessoas? Eles perderam o sentido de responsabilidade. Eles não foram convencidos. Eles não gostam dos candidatos?”, questionou.
Para Lula, a ausência não pode ser interpretada automaticamente como rejeição aos candidatos que chegaram ao segundo turno. Ele observou que uma terceira candidatura com força suficiente para romper a polarização não se consolidou e defendeu que a campanha procure recuperar o interesse dos eleitores pelo processo eleitoral.
“Possivelmente tem uma causa, desinteresse, e a responsabilidade é nossa, é devolver o interesse para ele de participar do processo eleitoral”, afirmou.
O Presidente também pediu que seus aliados evitem atribuir a derrota ou o desempenho abaixo do esperado exclusivamente a erros dos adversários. “A gente não tem que ficar procurando defeito que os outros cometeram que pode ter nos prejudicado. Não. Nós temos que procurar o que que nós não fizemos corretamente, que a gente agora tem que fazer”, declarou.
A orientação foi dirigida especialmente aos candidatos derrotados. Lula pediu que eles não responsabilizem os eleitores pelo resultado.
“Não brigue com o eleitor, não, não brigue, não fale mal do eleitor porque não votou em vocês”, disse. Para ele, uma campanha eleitoral precisa compreender por que determinadas mensagens não chegaram ao eleitorado e ajustar sua comunicação.
Crítica ao adversário e defesa de uma disputa entre projetos
Lula também voltou a caracterizar a eleição como uma disputa entre projetos políticos diferentes. Afirmou que seu adversário procura se apresentar como uma alternativa ao sistema político, mas que, em sua avaliação, representa justamente setores tradicionais desse sistema.
“Ele é a cara do sistema e nós não explicarmos isso pra sociedade é um grande defeito nosso”, afirmou. Na sequência, declarou: “Aqui só tem um candidato que é antissistema, que somos nós.”
O Presidente relacionou essa discussão a questões institucionais, especialmente ao funcionamento do Supremo Tribunal Federal. Segundo ele, a campanha deverá abordar o tema da reforma do Judiciário e discutir os critérios para escolha de ministros da Suprema Corte.
Lula lembrou que participou da primeira reforma do Judiciário durante seu governo, ao lado do então ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos e do ministro Nelson Jobim. Na avaliação apresentada no discurso, aquela mudança não produziu todos os resultados esperados.
“Mas nós precisamos fazer outra reforma e precisamos definir qual é o papel da sociedade nessa reforma”, afirmou.
Entre as questões que considera necessário discutir, Lula citou os critérios para indicação de ministros do Supremo, a possibilidade de existência de mandatos e a relação entre a indicação presidencial e a aprovação pelo Senado.
“É de interesse pessoal do presidente da República? É de pressão do Congresso Nacional? É de interesse do poder econômico? Não”, questionou.
Para Lula, o debate ganhou relevância diante da desconfiança de setores da sociedade em relação à Suprema Corte. “Quando você chega numa situação em que a Suprema Corte está sob a desconfiança da sociedade, algo é muito grave”, afirmou.
Mobilização para o segundo turno
Ao longo do discurso, Lula tratou os 20 dias entre os turnos como um período de mobilização intensa. Disse que pretende ampliar sua presença em entrevistas de rádio, atividades de rua, debates e eventos de campanha.
“Eu acho que eu tenho que fazer mais rádio. Eu fiz muito pouco rádio nessa campanha. Vou ter que fazer mais rádio, vou ter que fazer mais selfie, vou ter que conversar mais e vou ter que arrumar tempo para fazer mais”, declarou.
Ele também mencionou a intenção de viajar para diferentes estados para apoiar candidatos aliados e participar de novas manifestações públicas. Citou Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí, Bahia e São Paulo, além de recordar a passeata realizada na Rua Augusta, na capital paulista.
A defesa da campanha presencial apareceu associada à própria concepção que Lula tem de política. “Eu não saberia fazer política sem isso”, afirmou ao falar das atividades de rua e do contato direto com eleitores.
O Presidente também defendeu a realização de debates no segundo turno. “Agora é tete a tete. Agora é um contra um”, disse, argumentando que esse formato permite aos eleitores comparar diretamente as posições dos dois candidatos.
Ao final, Lula voltou a falar aos candidatos que ficaram fora das disputas do segundo turno ou não conseguiram se eleger. Ele apresentou sua própria trajetória como exemplo de que derrotas eleitorais não encerram uma carreira política.
“Vocês estão conversando com uma pessoa que perdeu quatro eleição. Ninguém perdeu mais do que eu”, afirmou.
Lula encerrou o discurso com uma mensagem de confiança na vitória e pediu preparação aos aliados. “Se preparem porque nós vamos ganhar as eleições aqui”, declarou, antes de puxar uma saudação de campanha.






