Lula muda estratégia e pretende participar do maior número possível de debates contra Flávio no segundo turno

Edinho Silva afirma que presidente quer confrontar diretamente Flávio Bolsonaro nos encontros de televisão; decisão marca mudança em relação ao primeiro turno, quando Lula não participou dos debates, mas campanha ainda não definiu quais convites serão aceitos

Da Redação

Luiz Inácio Lula da Silva pretende participar do maior número possível de debates presidenciais no segundo turno contra Flávio Bolsonaro. A informação foi confirmada nesta segunda-feira, 5 de outubro, pelo presidente nacional do PT e coordenador da campanha, Edinho Silva, que anunciou uma mudança importante na estratégia adotada durante a primeira etapa da eleição. Depois de não comparecer aos debates realizados antes do primeiro turno, Lula pretende utilizar agora os confrontos diretos como parte da campanha que culminará na votação de 25 de outubro.

Em entrevista à GloboNews, Edinho afirmou que ainda não é possível determinar quantos convites serão aceitos, porque as emissoras estão organizando seus calendários e a campanha precisará compatibilizar os encontros com a agenda eleitoral. A orientação, entretanto, está definida: dentro dessas possibilidades, Lula pretende comparecer ao maior número possível. Segundo o presidente do PT, o candidato quer utilizar os debates para apresentar diretamente suas propostas e estabelecer contraste com aquelas defendidas por Flávio Bolsonaro.

A decisão não surgiu somente depois da abertura das urnas. Na sexta-feira anterior ao primeiro turno, Edinho já havia anunciado que Lula participaria de debates numa eventual segunda etapa da eleição. Naquele momento, a explicação apresentada pela campanha era que o presidente fazia uma distinção entre os formatos. Lula vinha criticando os encontros com cinco ou seis candidatos, nos quais cada participante dispõe de períodos curtos de fala e pode passar vários minutos sem conseguir responder diretamente a um adversário. Num segundo turno, segundo essa interpretação, o modelo muda porque os dois candidatos podem permanecer frente a frente durante praticamente todo o programa.

Na quinta-feira passada, em entrevista ao Flow Podcast, Lula havia sido bastante explícito sobre essa avaliação. Criticou os debates do primeiro turno por considerar que eles favoreciam frases de efeito, interrupções e tentativas de produzir momentos para circulação nas redes sociais, em vez de discussões prolongadas sobre políticas públicas. Ao mesmo tempo, afirmou considerar melhor o formato do segundo turno, que descreveu como um confronto “tête-à-tête”. Agora que esse cenário efetivamente se concretizou, sua campanha confirma que pretende participar dos encontros.

A mudança ocorre depois de Flávio Bolsonaro terminar o primeiro turno na primeira colocação. A diferença entre os dois candidatos foi inferior a dois pontos percentuais dos votos válidos, colocando as campanhas diante de três semanas nas quais cada aparição pública terá importância para a disputa. Nesse contexto, os debates passam a ocupar espaço relevante porque oferecem aos eleitores a possibilidade de assistir aos dois candidatos respondendo às mesmas questões, questionando diretamente um ao outro e tendo suas propostas confrontadas em tempo real.

O primeiro desses encontros pode ocorrer já no próximo domingo, 11 de outubro. A Band prevê realizar um debate presidencial nessa data, embora, até esta segunda-feira, as duas campanhas ainda não tenham confirmado oficialmente a presença de seus candidatos no programa. Outro encontro previsto é o debate da TV Globo, marcado para 23 de outubro, dois dias antes da votação. O calendário completo ainda está sendo organizado, e Lula não assumiu compromisso público de comparecer a todos os programas.

A diferença entre o primeiro e o segundo turno

A ausência de Lula nos debates do primeiro turno foi uma decisão deliberada da campanha e acabou se transformando em assunto político durante a reta final. O presidente não participou do encontro promovido pela Band no começo da campanha e também decidiu não comparecer ao debate previsto pela Globo. Na noite em que o programa da emissora deveria acontecer, Lula participou de uma entrevista no Flow Podcast.

O debate da Globo acabou posteriormente cancelado. Flávio Bolsonaro, que havia confirmado participação mesmo sem Lula, desistiu depois de uma série de decisões judiciais alterar as condições previstas para o encontro. Entre elas estava uma decisão impedindo a emissora de manter no cenário um púlpito vazio identificado com o nome de Lula, além da inclusão de Renan Santos, do Missão, entre os participantes.

Com apenas Lula e Flávio na disputa, desaparece justamente a principal objeção apresentada pela campanha petista ao formato anterior. Em vez de perguntas distribuídas entre vários candidatos e grandes intervalos entre uma intervenção e outra, o segundo turno permite blocos de confronto direto e períodos maiores para discussão entre os dois concorrentes.

Edinho afirmou que essa diferença é central para explicar a nova posição. Segundo ele, Lula “quer esse confronto” e pretende colocar frente a frente os projetos apresentados pelas duas candidaturas. A participação em debates, portanto, não está sendo tratada pela coordenação apenas como cumprimento de agenda de televisão, mas como um componente da estratégia eleitoral adotada para esta nova etapa.

Flávio Bolsonaro também sinaliza disposição para participar. Integrantes de sua campanha disseram nesta segunda-feira que o candidato está preparado para os encontros, embora as confirmações individuais ainda dependam dos convites e das negociações com as emissoras. Durante o primeiro turno, a equipe de Flávio havia adotado a posição de que ele participaria dos debates caso Lula também estivesse presente. Na reta final, chegou a confirmar presença na Globo sem o adversário, mas desistiu horas antes do programa, que posteriormente foi cancelado.

O resultado é que, apesar de uma campanha presidencial longa e fortemente polarizada, Lula e Flávio chegaram ao segundo turno sem terem se enfrentado diretamente num debate televisivo durante a primeira etapa.

Isso deverá mudar nas próximas semanas.

Campanha também reconhece problemas na primeira etapa

A ampliação da presença de Lula nos debates faz parte de uma reorganização mais abrangente da campanha. Na mesma entrevista em que confirmou a nova estratégia, Edinho Silva reconheceu problemas operacionais durante o primeiro turno. Um deles ocorreu na produção e distribuição dos materiais eleitorais nos estados.

Segundo o presidente do PT, a campanha havia decidido descentralizar parte dessa produção, permitindo que estruturas estaduais desenvolvessem seus próprios materiais e conteúdos. A experiência, segundo sua avaliação, não funcionou como planejado porque as organizações partidárias possuem capacidades diferentes em cada região. Algumas dispunham de estruturas maiores de comunicação e produção, enquanto outras enfrentaram dificuldades.

Edinho afirmou que a coordenação corrigiu o modelo e que os materiais preparados especificamente para o segundo turno já começaram a ser produzidos e encaminhados aos estados. A declaração revela que a revisão da campanha não ficará restrita aos debates: comunicação, distribuição de conteúdo e articulação territorial também estão passando por mudanças.

Minas Gerais aparece entre os estados que receberão atenção especial. A campanha avalia a votação obtida em diferentes regiões e discute como reorganizar a presença de Lula nos estados durante as três semanas restantes. Governadores, candidatos eleitos e lideranças regionais deverão participar dessa mobilização.

Outro movimento envolve Geraldo Alckmin. A campanha pretende ampliar a presença do vice-presidente nas atividades do segundo turno e na interlocução com diferentes segmentos sociais e econômicos. Nesta segunda-feira também surgiu a informação, atribuída pela Reuters a duas fontes familiarizadas com as discussões, de que Lula considera anunciar Alckmin como futuro ministro da Fazenda caso seja reeleito. O plano continua em avaliação e não foi oficialmente anunciado.

Essas movimentações mostram que a campanha entrou numa fase de revisão depois do primeiro turno. Os debates são uma das mudanças mais visíveis porque representam uma alteração pública de comportamento do próprio candidato, mas fazem parte de uma reorganização mais ampla da estratégia eleitoral.

O primeiro confronto colocará frente a frente duas campanhas que até agora evitaram o encontro

A confirmação da presença de Lula transforma os debates numa oportunidade de comparação direta entre os candidatos, mas não permite antecipar qual deles será beneficiado pelo formato. O desempenho depende das perguntas, das regras negociadas com as emissoras, das respostas dos candidatos e da maneira como os eleitores interpretarão os confrontos.

Para Lula, haverá perguntas relacionadas ao atual governo, à economia, à segurança pública, às contas públicas e às propostas para um eventual novo mandato. Flávio, por sua vez, deverá responder sobre seu programa de governo, sua trajetória política, as posições assumidas durante a campanha e as propostas que pretende executar caso seja eleito.

Os próprios acontecimentos desta segunda-feira também ampliaram a quantidade de temas que poderão aparecer nos encontros. Donald Trump elogiou publicamente o desempenho eleitoral de Flávio Bolsonaro e afirmou esperar uma disputa apertada no segundo turno. Paralelamente, a campanha de Lula passou a discutir com maior intensidade reformas institucionais e mudanças na estratégia econômica. Esses assuntos podem aparecer diretamente nas perguntas e nos confrontos entre os candidatos.

A estrutura do segundo turno também elimina um elemento presente nos debates anteriores: não haverá candidatos menores capazes de alterar a dinâmica entre os dois primeiros colocados. Cada pergunta feita por Lula poderá receber resposta direta de Flávio, e vice-versa. Cada acusação poderá ser contestada pelo adversário dentro do próprio programa.

Essa característica explica por que a coordenação petista apresenta agora os debates de maneira diferente daquela adotada no primeiro turno.

Lula criticava o modelo anterior por considerar que a multiplicidade de participantes impedia uma discussão continuada. Flávio condicionava parte de sua participação à presença de Lula. Nenhum dos dois acabou comparecendo aos encontros realizados durante a primeira etapa.

O segundo turno retira esse argumento de ambos.

Agora existem apenas dois candidatos.

Edinho Silva afirma que Lula quer participar do maior número possível de encontros. A campanha de Flávio também sinaliza disposição para o confronto. As emissoras começam a organizar os programas e negociar as regras.

Ainda não está definido quantas vezes os dois estarão frente a frente.

Mas, depois de um primeiro turno inteiro sem um único debate entre Lula e Flávio Bolsonaro, a campanha presidencial entra numa etapa em que esse encontro deverá finalmente acontecer — e poderá se repetir várias vezes antes de os brasileiros voltarem às urnas em 25 de outubro.