“Energia e soberania nacional são intrínsecas”, diz Guilherme Estrella

Geólogo que participou da descoberta do pré-sal afirma que a transição energética só fará sentido se vier acompanhada de redução das desigualdades, fortalecimento da Petrobras e ampliação da soberania brasileira

Da Redação

A relação entre transição energética, soberania nacional e desenvolvimento econômico esteve no centro do debate do programa Trilhas da Soberania, produzido em parceria pela TV Código Aberto, Rádio e TV Atitude Popular, Rede Lawfare Nunca Mais, Satélite de Ideias e TV Travessia. O convidado foi o geólogo aposentado da Petrobras Guilherme Estrella, um dos principais nomes da descoberta do pré-sal, que defendeu a necessidade de tratar a política energética como uma estratégia de Estado voltada ao desenvolvimento nacional.

Ao longo da entrevista, Estrella sustentou que a transição energética não pode ser reduzida à substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis. Para ele, a discussão envolve disputas geopolíticas, política industrial, ciência, tecnologia, distribuição de renda e o papel estratégico da Petrobras na economia brasileira.

Segundo o geólogo, o Brasil reúne condições excepcionais para ocupar posição de destaque na nova configuração mundial por combinar grandes reservas de petróleo, potencial hidrelétrico, energia eólica, solar, biomassa e abundância de recursos naturais. O desafio, afirmou, é transformar essa riqueza em desenvolvimento social.

“Energia e soberania nacional são intrínsecas.”

Transição energética exige planejamento global

Estrella afirmou que o aquecimento global deve ser enfrentado com seriedade, mas criticou abordagens que, segundo ele, ignoram fatores como o desmatamento e a distribuição desigual das responsabilidades entre os países.

Na avaliação do ex-diretor da Petrobras, reduzir emissões exige tanto substituir progressivamente combustíveis fósseis quanto ampliar a preservação e recuperação das florestas, responsáveis por retirar carbono da atmosfera. Ele também observou que a maior parte das emissões históricas foi produzida pelas economias industrializadas, enquanto a contribuição brasileira permanece relativamente menor.

Ao comentar o cenário internacional, destacou que países como a China continuam altamente dependentes do carvão, o que demonstra que a transição energética será necessariamente um processo longo.

“A maior chaga do Brasil é a injustiça social”

Embora defenda a expansão das energias renováveis, Estrella afirmou que a prioridade do país deve ser enfrentar a desigualdade.

Segundo ele, um projeto energético só será bem-sucedido se contribuir para reduzir o custo da energia, estimular a indústria nacional e melhorar as condições de vida da população.

Durante a entrevista, criticou o fato de um país autossuficiente em petróleo continuar praticando preços influenciados pelo mercado internacional.

“Transição energética tem que ser feita, mas não com custo elevado para o cidadão brasileiro.”

Na avaliação do geólogo, energia barata é condição indispensável para fortalecer a competitividade da indústria nacional e ampliar o consumo interno.

Petrobras e soberania tecnológica

Questionado sobre soberania digital, Estrella recordou que informações estratégicas da Petrobras sempre receberam tratamento rigoroso.

Ele relembrou, inclusive, o episódio em que um computador utilizado na coleta de dados durante estudos do pré-sal foi roubado após desembarcar no Rio de Janeiro, reforçando a importância da proteção das informações geológicas.

Segundo ele, o modelo original do pré-sal, que estabelecia a Petrobras como operadora única, garantia que os dados estratégicos permanecessem sob controle da empresa brasileira.

A descoberta do pré-sal

Estrella rejeitou o rótulo de “pai do pré-sal”. Segundo ele, a descoberta foi resultado de décadas de trabalho coletivo desenvolvido por equipes técnicas da Petrobras.

Ele explicou que a exploração da camada do pré-sal exigiu investimentos elevados, grande capacidade científica e decisões políticas capazes de assumir riscos que empresas privadas evitaram.

O geólogo lembrou que um dos primeiros poços perfurados consumiu cerca de US$ 240 milhões e não encontrou petróleo comercial. Ainda assim, os dados obtidos permitiram reinterpretar a geologia da região e chegar posteriormente ao campo de Tupi, marco da descoberta do pré-sal.

Também destacou que a Petrobras desenvolveu tecnologia inédita para perfuração em lâminas d’água superiores a 2 mil metros, consolidando reconhecimento internacional pela capacidade de inovação.

Lava Jato e indústria nacional

Outro tema abordado foi a Operação Lava Jato.

Estrella afirmou que o combate à corrupção era necessário, mas criticou os efeitos da operação sobre a indústria brasileira de engenharia e construção naval.

Segundo ele, empresas estratégicas perderam capacidade produtiva e tecnológica, comprometendo cadeias industriais construídas ao longo de décadas.

Na sua avaliação, o atual governo trabalha para recuperar parte dessa estrutura por meio da retomada de investimentos da Petrobras e da política de conteúdo nacional.

Margem Equatorial

Sobre a Margem Equatorial, o geólogo afirmou que a região permanece pouco explorada do ponto de vista geológico e possui elevado potencial para novas descobertas.

Ele declarou confiar plenamente na capacidade técnica da Petrobras para conduzir pesquisas e operações de exploração, destacando o histórico da companhia em segurança operacional e inovação tecnológica.

Ao comentar a exploração de petróleo na Amazônia, lembrou a produção em Urucu como exemplo de operação conduzida há décadas sem registros relevantes de acidentes ambientais, segundo sua avaliação.

Energia no centro da disputa mundial

Durante a conversa, Estrella relacionou conflitos internacionais recentes à disputa por recursos energéticos, citando o Oriente Médio como exemplo de como petróleo e gás continuam ocupando posição estratégica na política global.

Para ele, enquanto o petróleo responder por parcela majoritária da matriz energética mundial, países detentores de grandes reservas continuarão desempenhando papel decisivo nas relações internacionais.

Encerrando a entrevista, defendeu que o Brasil aproveite suas riquezas naturais para promover desenvolvimento econômico, fortalecer sua indústria e reduzir desigualdades sociais.

“Somos um país riquíssimo. Não é aceitável conviver com tanta pobreza tendo tamanha riqueza energética.”


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