Presidente da Fundação Cepema debateu no Café com Democracia a atualidade do pensamento de Milton Santos diante da crise ambiental, da desigualdade urbana e da expansão do capitalismo nas periferias
O centenário de nascimento de Milton Santos voltou a mobilizar debates sobre urbanização, desigualdade social, racismo estrutural e crise ambiental no Brasil. Durante participação no programa “Café com Democracia”, da TV Atitude Popular, no último dia 12 de maio, o presidente da Fundação Cepema, Adalberto Alencar, afirmou que a obra do intelectual baiano permanece indispensável para compreender os conflitos urbanos e os mecanismos contemporâneos do capitalismo.
A entrevista, apresentada por Luiz Regadas, teve como eixo o tema “O legado crítico de Milton Santos: território, poder e desigualdade”. Ao longo da conversa, Adalberto relacionou as formulações do geógrafo brasileiro às transformações ocorridas nas periferias urbanas, ao avanço do sistema financeiro sobre o cotidiano da classe trabalhadora e às mudanças sociais provocadas pela globalização.
Logo no início da entrevista, Adalberto classificou Milton Santos como um dos maiores intelectuais da história brasileira.
“Milton Santos foi um geógrafo, economista, ambientalista, cientista social. Para mim, Milton Santos está entre os três maiores cientistas brasileiros que esse Brasil negro e nordestino produziu”, afirmou.
O dirigente lembrou que Milton Santos foi o único brasileiro a receber, em 1994, o chamado “Nobel da Geografia”, referência ao Prêmio Vautrin Lud. Para ele, a principal contribuição do pensador esteve na elaboração de instrumentos teóricos capazes de interpretar a realidade dos países periféricos dentro da lógica da expansão capitalista.
Segundo Adalberto, o intelectual baiano conseguiu romper com leituras europeias tradicionais sobre urbanização ao demonstrar que os territórios do chamado “terceiro mundo” possuíam dinâmicas próprias, marcadas pela colonização, pelo racismo e pela desigualdade estrutural.
“Ele foi capaz de elaborar um arcabouço teórico para compreensão das periferias pelo mundo no terceiro mundo”, resumiu.
Ao comentar o impacto da urbanização nas grandes cidades brasileiras, Adalberto citou exemplos de Fortaleza e da Região Metropolitana para mostrar como Milton Santos antecipou processos hoje visíveis na vida cotidiana. Ele mencionou bairros como Barra do Ceará, Jangurussu, Quintino Cunha, Vila Velha e Messejana para ilustrar a maneira como o capitalismo reorganiza paisagem, moradia, trabalho e circulação econômica.
Para o entrevistado, o pensamento do geógrafo continua atual justamente porque ajuda a interpretar fenômenos que atravessam o século XXI, desde a precarização do trabalho até o crescimento da violência urbana e da crise ambiental.
“Nunca Milton esteve tão atual”, declarou.
Durante a entrevista, Adalberto também associou as formulações de Milton Santos às transformações do trabalho mediado por plataformas digitais. Segundo ele, empresas de aplicativo deixaram de atuar apenas como intermediadoras de serviços para se tornarem estruturas financeiras que lucram com o endividamento da população trabalhadora.
“O 99 não é só um aplicativo de transporte. Ele é um banco, é uma agiotagem”, afirmou, ao comentar os mecanismos de antecipação de crédito oferecidos aos motoristas.
O dirigente ainda relacionou o pensamento do geógrafo ao debate sobre financeirização da economia e dependência dos governos em relação ao sistema bancário. Citando o filósofo italiano Maurizio Lazzarato, ele argumentou que o capitalismo contemporâneo transformou o endividamento em mecanismo permanente de controle social.
Ao longo da conversa, Adalberto insistiu que Milton Santos não fazia uma crítica moralista ao capitalismo, mas uma análise concreta de seus mecanismos de funcionamento nos territórios periféricos.
“Enquanto existir capitalismo, Milton está atual. Enquanto existir capitalismo, Marx está atual. Para mim, Milton é o marxista tropical”, afirmou.
Outro ponto destacado pelo entrevistado foi a relação entre cultura periférica e leitura territorial. Ao mencionar o grupo Racionais MC’s e o rapper Mano Brown, Adalberto afirmou que o rap brasileiro expressa, em linguagem artística, muitas das questões analisadas por Milton Santos.
Segundo ele, os territórios periféricos produzem formas próprias de linguagem, identidade e resistência social. Nesse contexto, o hip hop aparece como expressão cultural diretamente ligada às experiências urbanas das classes trabalhadoras.
A entrevista também abordou a dificuldade histórica da esquerda brasileira em incorporar plenamente a obra de Milton Santos nos debates políticos e sindicais. Para Adalberto, muitos setores progressistas compreenderam parcialmente as transformações provocadas pela urbanização acelerada e pela reorganização produtiva do capitalismo nas últimas décadas.
Ele observou que categorias profissionais cresceram de forma intensa em cidades médias e periferias urbanas sem que parte do movimento sindical conseguisse interpretar adequadamente essa nova configuração social.
Ao final da conversa, Adalberto afirmou que a obra de Milton Santos continua fundamental para compreender tanto a expansão do fascismo quanto as disputas políticas nos territórios urbanos brasileiros.
“Para compreender como um jovem da periferia vota num candidato de direita, é preciso retornar a Milton Santos para compreender a realidade, os fluxos, a música, a arte e a potência das periferias”, declarou.
Além da homenagem ao centenário do geógrafo, a Fundação Cepema anunciou durante o programa a realização de um curso virtual sobre território, urbanização e pensamento crítico, com transmissões semanais pelas redes da entidade.
Referências
- Por uma outra globalização
Autor: Milton Santos
Ano de publicação: 2000 - A natureza do espaço
Autor: Milton Santos
Ano de publicação: 1996 - O governo do homem endividado
Autor: Maurizio Lazzarato
Ano de publicação: 2011 na edição original italiana. No Brasil, a edição mais conhecida saiu em 2017 pela editora n-1 edições.
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