Enquanto o Brasil contava mortos pela Covid, Flávio Bolsonaro participava de suruba em lancha com empresários interessados em vender vacinas, revela piauí

Investigação publicada pela revista piauí reconstitui passeio realizado em julho de 2020, com garotas de programa, empresários da Precisa Medicamentos e o filho do então presidente Jair Bolsonaro. Uma testemunha afirma que Flávio recebeu um Rolex ao final da confraternização. Meses depois, o senador intermediou uma reunião de um dos empresários com o presidente do BNDES.

Da Redação

Enquanto o Brasil enfrentava uma das fases mais dramáticas da pandemia de Covid-19, com hospitais sob pressão, famílias isoladas e mais de mil mortes diárias, o senador Flávio Bolsonaro (PL), filho do então presidente Jair Bolsonaro e atual candidato à Presidência da República, participava de uma festa em uma lancha no Lago Paranoá, em Brasília, organizada por empresários interessados em fechar negócios com o governo federal. O encontro, ocorrido em 17 de julho de 2020, reuniu o parlamentar, representantes da Precisa Medicamentos e três garotas de programa transportadas de São Paulo em um jatinho particular. Segundo uma testemunha ouvida pela revista piauí, que revelou o episódio em reportagem publicada na quarta-feira (21), a confraternização terminou com a entrega de um relógio Rolex ao senador pelo empresário Danilo Berndt Trento, um dos envolvidos nas negociações para fornecer vacinas contra a Covid-19 ao Ministério da Saúde.

A investigação, assinada pelos jornalistas João Batista Jr., Ana Clara Costa e Breno Pires, apresenta uma reconstrução detalhada daquele dia a partir de entrevistas, registros de voos, informações financeiras e documentos reunidos por comissões parlamentares de inquérito. O episódio ganhou repercussão nesta quinta-feira, 22 de outubro, depois de ser noticiado também pelo Brasil 247 e pela Folha de S.Paulo. Seu significado político ultrapassa o caráter privado da confraternização: os organizadores eram empresários com interesses comerciais perante o governo Jair Bolsonaro, e o convidado era o filho do presidente da República, com acesso a autoridades e participação em discussões relacionadas aos negócios da empresa.

Na noite de 16 de julho de 2020, o consórcio de veículos de imprensa responsável pelo acompanhamento da pandemia registrou 1.299 mortes por Covid-19 em apenas 24 horas. O país acumulava 76.822 vítimas fatais desde o início da emergência sanitária. Poucos minutos depois da divulgação desses números, às 20h49, um jato executivo Embraer Phenom 300, de prefixo PR-SAD, decolou do aeroporto de Congonhas, em São Paulo, com destino a Brasília.

A aeronave transportava Danilo Trento, diretor institucional da Precisa Medicamentos; Francisco Maximiano, proprietário da empresa; Raphael Barão, empresário responsável pela organização de viagens e eventos; e três garotas de programa. O avião pousou em Brasília às 22h12, e o grupo seguiu para o hotel Meliá Brasil 21, onde passou a noite.

Na manhã seguinte, por volta das 10h30, alimentos, cerveja, vodca, gim e outras bebidas foram levados a uma lancha de aproximadamente 20 metros, equipada com cabine, no Lago Paranoá. Trento, as três mulheres e o condutor da embarcação chegaram primeiro. Pouco depois, Flávio Bolsonaro embarcou acompanhado de Alexandre Santini, então amigo e sócio do senador em uma franquia da Kopenhagen, no Rio de Janeiro.

O grupo percorreu o lago, fez uma parada no restaurante flutuante Alô Grau e comprou mais comida e bebidas. A conta, no valor de R$ 1.949, foi paga por Raphael Barão. Conforme a reconstrução da piauí, os participantes demonstravam preocupação com a possibilidade de serem fotografados ou filmados durante a confraternização.

Uma pessoa que estava na embarcação relatou à revista que Flávio Bolsonaro desceu à cabine acompanhado de uma das mulheres e que o mesmo ocorreu posteriormente com outra participante. A reportagem não apresentou registros audiovisuais públicos capazes de confirmar o que ocorreu no interior da cabine, e os detalhes dependem do depoimento obtido pelos jornalistas.

A presença de garotas de programa em um evento privado não representa, por si só, a prática de crime. O exercício voluntário da prostituição por pessoas adultas não é criminalizado no Brasil. A questão de interesse público, nesse caso, está na possível utilização de hospitalidade privada, presentes e relações pessoais para ampliar o acesso de empresários a autoridades responsáveis por decisões governamentais.

O episódio que concentra os questionamentos mais relevantes teria ocorrido ao final do passeio, por volta das 15 horas. Segundo a testemunha entrevistada pela piauí, Danilo Trento retirou de seu pulso um relógio Rolex com pulseira de tonalidade prateada e colocou o acessório no braço de Flávio Bolsonaro. O senador teria deixado a lancha usando o presente.

A entrega do relógio é uma alegação da fonte ouvida pela revista, ainda não estabelecida por decisão judicial ou comprovação pública independente. O modelo, o valor e as circunstâncias jurídicas da possível transferência de propriedade não foram esclarecidos.

O relato, entretanto, adquire relevância porque o empresário apontado como responsável pelo presente tinha interesses comerciais perante o governo federal. Trento integrava a direção da Precisa Medicamentos, companhia que buscava negociar o fornecimento da vacina indiana Covaxin ao Ministério da Saúde.

A eventual entrega de um presente de luxo a um parlamentar, especialmente por alguém que depende de decisões do poder público para seus negócios, exige esclarecimentos sobre sua finalidade e sobre possíveis contrapartidas. Isso não significa que o recebimento esteja comprovado ou que tenha havido corrupção. Para estabelecer uma irregularidade, seria necessário examinar as circunstâncias da transferência, as normas aplicáveis e eventuais atos praticados em benefício do empresário.

Naquela mesma noite, quando os participantes já haviam deixado Brasília, o Brasil registraria mais 1.110 mortes por Covid-19. A distância entre a emergência sanitária enfrentada pela população e o ambiente privado descrito pela reportagem constitui um dos aspectos mais marcantes do episódio.

A Precisa, a Covaxin e a CPI da Pandemia

A Precisa Medicamentos já possuía contratos com o governo federal e buscava ampliar sua presença no setor de saúde durante a pandemia. Francisco Maximiano e Danilo Trento apresentavam-se como representantes comerciais do laboratório indiano Bharat Biotech, responsável pelo desenvolvimento da Covaxin, e procuravam negociar o fornecimento de vacinas para o Brasil.

As relações da empresa com o Ministério da Saúde tornaram-se objeto de investigação em 2021, quando a CPI da Pandemia examinou suspeitas de irregularidades no processo de compra do imunizante. O contrato previa a aquisição de doses por aproximadamente R$ 80 cada, valor superior aos preços de algumas outras propostas de vacinas que haviam sido apresentadas ao governo brasileiro em condições e momentos distintos.

A comparação entre preços exigia considerar aspectos contratuais, prazos e condições de fornecimento, mas integrou o debate sobre os critérios utilizados pelo Ministério da Saúde na negociação.

O caso ganhou repercussão depois que o servidor Luis Ricardo Miranda relatou ter sofrido pressões incomuns relacionadas à tramitação de documentos para importação da vacina. Seu irmão, o então deputado federal Luis Miranda, também apresentou informações sobre o episódio, levando os parlamentares da CPI a examinar os procedimentos de contratação.

O negócio acabou suspenso, e o governo não realizou o pagamento inicial relacionado ao contrato investigado. A ausência de desembolso não elimina a necessidade de esclarecer possíveis irregularidades na negociação, mas impede afirmar que o valor integral do contrato tenha sido efetivamente desviado.

Durante os trabalhos da comissão, Flávio Bolsonaro fez manifestações públicas em defesa da atuação da Precisa. Em uma sessão com Emanuela Medrades, representante da empresa, elogiou os esforços para negociar a vacina, argumentando que a iniciativa buscava economizar recursos públicos.

A CPI também procurou esclarecer as relações entre Maximiano, Trento e integrantes da família Bolsonaro. Questionado sobre eventual intermediação de Flávio para facilitar o acesso da Precisa ao alto escalão do Ministério da Saúde, Maximiano negou que isso tivesse ocorrido.

Danilo Trento reconheceu ter encontrado o senador em eventos públicos, mas não apresentou à comissão a descrição do encontro privado agora revelado pela piauí.

O relatório final da CPI recomendou o indiciamento de 78 pessoas, entre elas Flávio Bolsonaro, Danilo Trento e Francisco Maximiano. Uma recomendação parlamentar não equivale a denúncia criminal formal ou condenação judicial, e as responsabilidades dependem da avaliação das autoridades competentes.

A importância da nova reportagem está em acrescentar informações sobre uma relação pessoal e empresarial que já havia provocado questionamentos durante a investigação parlamentar. O passeio de lancha teria ocorrido antes da fase mais conhecida das negociações e antes da instalação da CPI, permitindo reexaminar a cronologia dos contatos entre o senador e os empresários.

Os registros financeiros também oferecem elementos adicionais. Segundo a piauí, a empresa Barão Turismo recebeu aproximadamente R$ 4 milhões de companhias ligadas ao grupo econômico da Precisa Medicamentos durante 2020.

Raphael Barão atuava na organização de viagens dos empresários, inclusive deslocamentos internacionais relacionados aos negócios da empresa. Essas atividades podem corresponder a serviços legítimos de logística e turismo, mas a documentação foi examinada pelas CPIs diante de dúvidas sobre a efetiva prestação dos serviços e a destinação dos pagamentos.

A existência de movimentações financeiras elevadas não comprova automaticamente lavagem de dinheiro. Para estabelecer uma irregularidade, seria necessário verificar contratos, pagamentos, serviços prestados e eventual utilização das operações para ocultar recursos.

Três meses depois, Flávio abriu acesso ao presidente do BNDES

A investigação também recuperou um episódio ocorrido em 20 de outubro de 2020, aproximadamente três meses depois da festa.

Naquela data, Flávio Bolsonaro participou de uma reunião virtual entre Francisco Maximiano, outro executivo ligado ao empresário e o então presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano.

O encontro tinha como objetivo discutir possibilidades de financiamento para um empreendimento de telecomunicações associado a Maximiano.

O próprio senador reconheceu anteriormente que havia solicitado a reunião. Na ocasião, explicou que pretendia permitir ao banco examinar uma proposta de expansão do acesso à internet nas regiões Norte e Nordeste.

Flávio também afirmou que não mantinha relações comerciais ou financeiras com Maximiano.

O BNDES informou que nenhum financiamento foi contratado em decorrência das reuniões.

A intermediação de um encontro entre empresários e uma instituição pública não constitui, por si só, conduta ilícita. Parlamentares frequentemente apresentam demandas de seus estados, setores econômicos ou interlocutores às autoridades responsáveis por políticas de desenvolvimento.

A relevância do episódio está na existência de uma ação institucional concreta do senador que beneficiou o acesso de um empresário privado à direção do banco. Quando essa informação é considerada ao lado do relato sobre a confraternização e o possível presente, surgem perguntas que precisam ser respondidas mediante documentação.

A questão central é esclarecer se existiu alguma relação entre os benefícios privados alegadamente oferecidos e a atuação posterior do parlamentar.

A proximidade temporal entre os acontecimentos não comprova uma contrapartida. Também não seria adequado afirmar que a reunião ocorreu necessariamente como resultado do passeio de lancha.

Entretanto, os dois episódios integram a cronologia das relações entre Flávio Bolsonaro e os empresários, justificando o interesse jornalístico em examinar os contatos com maior profundidade.

A reportagem da piauí observou ainda que aquela reunião com Maximiano representava um compromisso incomum na agenda institucional de Flávio com o BNDES, pois ocorreu individualmente, na condição de autoridade, com a participação direta de um empresário interessado em financiamento público.

Essas circunstâncias não demonstram crime, mas são relevantes para avaliar transparência e possíveis conflitos de interesse.

A atuação de agentes públicos em benefício de interesses privados precisa respeitar critérios legais, evitar vantagens indevidas e preservar a finalidade pública das instituições.

Presente de luxo e relações privadas exigem esclarecimentos

O relato sobre o Rolex também se soma a uma investigação anterior, publicada em setembro pelo jornalista Rodrigo Rangel, no PlatôBR, envolvendo encontros privados de Flávio Bolsonaro organizados por Alexandre Santini.

Naquela apuração, o senador teria recebido outro relógio Rolex, modelo Submariner Date, avaliado em aproximadamente R$ 305 mil, adquirido pelo advogado Alan Belaciano.

As reportagens tratam de acontecimentos distintos. Não existem elementos públicos suficientes para concluir que o relógio citado pela piauí e aquele mencionado pelo PlatôBR sejam o mesmo acessório.

A distinção importa porque investigações jornalísticas precisam examinar cada episódio segundo suas próprias fontes, documentos e circunstâncias.

A existência de relatos sobre diferentes presentes ou encontros privados não comprova a ocorrência de todos eles, nem permite somar valores sem identificação precisa dos objetos.

Na investigação publicada nesta semana, o recebimento do Rolex é relatado por uma pessoa que estava na lancha. Os registros de voos, pagamentos e contatos empresariais ajudam a reconstruir o contexto do encontro, mas não substituem a necessidade de comprovar a entrega do relógio.

A revista informou ter procurado Flávio Bolsonaro, Danilo Trento e representantes de Francisco Maximiano para comentar os fatos. Até o fechamento da reportagem, o senador não havia apresentado resposta. Trento interrompeu a comunicação depois de receber informações sobre os pontos investigados, e os advogados de Maximiano não responderam dentro do prazo informado.

A ausência de manifestação não deve ser interpretada como reconhecimento das alegações.

A repercussão política da investigação também está relacionada ao período em que ela foi divulgada. Flávio Bolsonaro disputa o segundo turno presidencial, marcado para 25 de outubro, e as informações surgiram durante a última semana de campanha.

O calendário eleitoral não altera a obrigação de examinar as fontes com rigor, tampouco transforma automaticamente uma revelação jornalística em acusação judicial demonstrada.

A investigação da piauí apresenta documentos capazes de verificar deslocamentos, encontros e relações financeiras, além de depoimentos sobre acontecimentos privados. Esses elementos possuem naturezas diferentes e precisam ser avaliados separadamente.

O interesse público está na relação entre um parlamentar influente, empresários interessados em contratos com o governo federal e possíveis benefícios pessoais oferecidos durante a pandemia.

A discussão não depende de julgamentos morais sobre a vida privada dos participantes. Envolve a necessidade de compreender se pessoas com acesso ao poder público receberam vantagens de agentes econômicos interessados em decisões do Estado.

Esse tipo de relação exige transparência porque pode criar conflitos entre interesses privados e responsabilidades institucionais, mesmo quando não se estabelece a prática de corrupção.

No caso relatado, os elementos documentados sobre a Precisa e a reunião com o BNDES oferecem contexto concreto para os questionamentos levantados pela possível entrega do relógio.

A pandemia torna esse contexto ainda mais relevante. Em julho de 2020, milhões de brasileiros viviam restrições de circulação, trabalhadores enfrentavam perdas de renda e famílias acompanhavam o crescimento acelerado das mortes. O acesso a vacinas ainda estava em desenvolvimento, e as decisões sobre aquisição e fornecimento de imunizantes possuíam enorme importância social.

A Precisa buscava oportunidades comerciais nesse ambiente. A presença de seus principais representantes em uma confraternização privada com o filho do presidente, conforme a investigação jornalística, merece esclarecimento exatamente por essa combinação entre negócios públicos e hospitalidade privada.

O episódio também revela como determinadas relações entre empresários e autoridades podem ocorrer fora dos canais institucionais de transparência, em ambientes nos quais não existem agendas públicas ou registros oficiais de reuniões.

Isso dificulta a fiscalização e torna relevante o trabalho de investigação baseado em documentos financeiros, registros de deslocamentos e depoimentos.

A reportagem desta semana acrescenta um acontecimento específico à cronologia das relações entre Flávio Bolsonaro e dirigentes da Precisa Medicamentos: uma festa de lancha durante a pandemia, com garotas de programa, e o relato de que um empresário interessado em fornecer vacinas ao governo entregou um relógio de luxo ao senador.

Os registros empresariais e a reunião posterior com o BNDES oferecem elementos para examinar os contatos mantidos entre os envolvidos. A suposta entrega do Rolex e eventual relação com decisões públicas, entretanto, ainda dependem de comprovação adicional.

A investigação não permite concluir que houve corrupção ou troca de favores, mas apresenta perguntas legítimas sobre benefícios privados oferecidos a autoridades públicas e sobre a atuação de empresários durante uma emergência sanitária nacional.

Enquanto o país enfrentava milhares de mortes pela Covid-19, decisões sobre vacinas e recursos públicos exigiam transparência e responsabilidade institucional. Seis anos depois, a reconstrução dos acontecimentos de julho de 2020 continua relevante para compreender como se estabeleceram relações entre interesses empresariais e integrantes do poder político naquele período.

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