Juiz do Trabalho aposentado relembra perseguições, torturas e desaparecimentos políticos durante entrevista ao programa Democracia no Ar, da TV Atitude Popular
Da Redação
O programa Democracia no Ar, da TV Atitude Popular, recebeu nesta segunda-feira (19) o juiz do Trabalho aposentado e ex-preso político Inocêncio Uchôa para uma discussão sobre memória, reparação histórica e os crimes cometidos pela ditadura militar brasileira. A entrevista teve como eixo central a retificação das certidões de óbito de vítimas do regime autoritário, entre elas o líder estudantil cearense Bergson Gurjão e o frade dominicano Frei Tito.
A pauta do programa partiu da cerimônia que será realizada no próximo dia 21 de maio, na Assembleia Legislativa do Ceará, quando familiares de perseguidos políticos receberão novas certidões de óbito reconhecendo oficialmente a responsabilidade do Estado brasileiro nas mortes e desaparecimentos ocorridos durante a ditadura. A iniciativa integra um esforço nacional articulado pelo Ministério dos Direitos Humanos.
Durante a entrevista conduzida por Sara Goes, Inocêncio Uchôa afirmou que o processo vai muito além da emissão de documentos formais.
“É um resgate histórico. Boa parte desses militantes foi assassinada sem sequer responder a um processo judicial. Foram torturados, executados e tiveram os corpos desaparecidos”, declarou.
O magistrado aposentado explicou que muitas certidões originais registravam versões falsas sobre as mortes, atribuindo os casos a suicídios, confrontos ou causas naturais.
“Essas certidões foram feitas de forma errada. Agora existe um esforço para reconhecer oficialmente como essas pessoas morreram e quem foi responsável por isso”, afirmou.
No Ceará, serão entregues 12 certidões retificadas. Entre os homenageados estão Bergson Gurjão Farias, integrante da Guerrilha do Araguaia, e Frei Tito, símbolo da violência psicológica e física praticada pelos órgãos de repressão.
Inocêncio relembrou que a geração universitária da década de 1960 passou a enfrentar diretamente o regime após o endurecimento institucional promovido pelo Ato Institucional nº 5.
“O Brasil entrou nos anos de chumbo. Todos os estudantes que tinham alguma relevância política passaram a ser perseguidos. Nós sabíamos que poderíamos ser presos, torturados ou mortos”, disse.
O entrevistado também narrou episódios ligados à repressão contra o movimento estudantil cearense. Segundo ele, dos 70 estudantes processados após o Congresso da UNE de Ibiúna, em 1968, dez eram do Ceará.
“Isso mostra o nível de organização que o movimento estudantil cearense tinha naquele momento”, observou.
Ao comentar a trajetória de Bergson Gurjão, Uchôa relatou a brutalidade empregada pelos militares durante a Guerrilha do Araguaia.
“Bergson foi emboscado, levado para um acampamento militar e torturado até a morte. Depois, seu corpo foi pendurado, chutado, cuspido e golpeado até ser completamente destruído”, afirmou.
Sobre Frei Tito, o ex-juiz destacou o impacto psicológico das torturas conduzidas pela equipe do delegado Sérgio Fleury.
“Ele foi submetido a uma violência extrema. Acabou carregando aquilo até o exílio e terminou tirando a própria vida na França”, disse.
O programa também discutiu a atualidade do debate sobre memória histórica diante do crescimento da extrema direita em diversos países. Sara Goes mencionou as investigações envolvendo o financiamento do filme Dark Horse, projeto ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro, e questionou o uso político da produção audiovisual por setores da extrema direita.
O comentarista Antonio Ibiapino relacionou a repressão brasileira às operações promovidas pelos Estados Unidos na América Latina durante a Guerra Fria.
“Os golpes foram organizados pela CIA. Isso aconteceu no Brasil, na Argentina, na República Dominicana e em outros países. Essas histórias precisam ser contadas para a juventude entender o que foi uma ditadura”, afirmou.
Ibiapino também ressaltou que conquistas sociais posteriores à redemocratização são resultado direto da resistência travada por militantes perseguidos pelo regime.
“Quando vemos escola pública funcionando, programas sociais e direitos garantidos, isso é fruto da luta dessas pessoas”, declarou.
Ao longo da entrevista, Inocêncio Uchôa defendeu que o avanço das políticas de memória é fundamental para impedir novos ciclos autoritários.
“Esse resgate merece ser apoiado porque se trata de heróis cearenses e brasileiros. Foram pessoas que lutaram para que o país pudesse voltar a respirar democracia”, afirmou.
A cerimônia da Assembleia Legislativa contará com a presença da ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, da procuradora federal dos Direitos do Cidadão Eugênia Gonzaga, de Vera Paiva, filha do ex-deputado Rubens Paiva, além de representantes de entidades de direitos humanos e familiares de mortos e desaparecidos políticos.
Referências
- Filme Ainda Estou Aqui
- Filme O Agente Secreto
- Livro A República das Milícias, de Bruno Paes Manso
📺 Programa Democracia no Ar
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 10h às 11h
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