Da Redação
Presidente defende parceria internacional para exploração de minerais estratégicos, mas afirma que o Brasil não abrirá mão do controle nacional sobre terras raras, semicondutores e cadeias tecnológicas do futuro.
O governo Lula começa a transformar definitivamente a disputa pelas terras raras em uma das principais agendas estratégicas do Brasil para os próximos anos. E não apenas como tema econômico.
Agora o assunto passa a ser tratado abertamente como questão de soberania nacional.
Durante evento no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, Lula afirmou que o Brasil aceita negociar com chineses, americanos, alemães, franceses, japoneses e qualquer outro país interessado em investir nos minerais estratégicos brasileiros, desde que o controle nacional sobre as riquezas permaneça preservado.
A fala possui enorme peso geopolítico.
Porque as chamadas “terras raras” se tornaram um dos ativos mais disputados do planeta na nova corrida tecnológica global. Esses minerais são fundamentais para:
semicondutores,
chips,
baterias,
veículos elétricos,
inteligência artificial,
equipamentos militares,
energia renovável
e infraestrutura digital avançada.
Quem controla essa cadeia produtiva controla boa parte da economia do século XXI.
E Lula parece ter entendido isso.
“Pode vir quem quiser. Desde que tenham consciência de que o Brasil não abre mão de sua soberania”, afirmou o presidente ao defender parcerias internacionais sem submissão econômica.
Na prática, o governo tenta construir um caminho intermediário:
nem isolamento econômico,
nem entrega total dos recursos estratégicos brasileiros ao capital estrangeiro.
É uma mudança importante de postura.
Durante décadas, o Brasil operou basicamente como exportador primário de minério bruto e commodities de baixo valor agregado. Agora o debate começa lentamente a migrar para outro patamar:
industrialização,
beneficiamento nacional,
cadeia tecnológica própria
e soberania mineral.
Não por acaso, Lula conectou diretamente o tema das terras raras ao desenvolvimento científico nacional e ao fortalecimento da pesquisa pública brasileira.
O evento em Campinas não aconteceu em qualquer lugar.
O CNPEM abriga o Sirius, um dos aceleradores de partículas mais avançados do mundo, considerado peça estratégica da infraestrutura científica brasileira. O governo anunciou novos investimentos em linhas de pesquisa voltadas justamente a:
nanotecnologia,
semicondutores,
minerais críticos,
materiais avançados
e inovação industrial.
Existe um simbolismo poderoso nisso.
Porque o debate sobre terras raras deixou de ser apenas mineração.
Agora envolve:
ciência,
universidades,
chips,
inteligência artificial,
defesa,
energia
e soberania tecnológica.
Nos bastidores de Brasília, a percepção é que o Brasil finalmente começou a compreender o tamanho da guerra geopolítica em torno desses recursos.
Hoje a China domina grande parte da cadeia global de processamento de terras raras, enquanto Estados Unidos e Europa tentam desesperadamente reduzir dependência chinesa. Isso transformou países ricos em minerais estratégicos em alvos prioritários da disputa internacional.
O Brasil aparece exatamente no centro desse tabuleiro.
O país possui algumas das maiores reservas potenciais de terras raras do planeta, além de grandes reservas de nióbio, lítio, grafite e outros minerais críticos para a transição energética e a indústria tecnológica global.
Por isso o tema começou a ganhar peso diplomático enorme.
Lula já havia tratado diretamente do assunto em reunião com Donald Trump nos Estados Unidos, reforçando que o Brasil aceita investimentos estrangeiros, mas não abrirá mão do controle soberano sobre seus recursos minerais estratégicos.
A posição brasileira começa a produzir repercussão internacional.
Enquanto Washington tenta ampliar acesso a minerais críticos fora da órbita chinesa, Pequim acompanha com atenção crescente os movimentos brasileiros no setor. O governo Lula tenta justamente equilibrar essas relações sem se alinhar automaticamente a nenhum dos polos da disputa global.
Internamente, o debate também começa a ganhar densidade.
O Clube de Engenharia enviou recentemente carta ao governo defendendo uma política nacional para terras raras baseada em:
beneficiamento interno,
cadeia industrial nacional,
pesquisa pública
e soberania tecnológica.
A preocupação é clara:
o Brasil não pode repetir o velho modelo colonial de simplesmente exportar minério bruto enquanto outros países concentram tecnologia, indústria e inovação.
É exatamente aí que o tema se conecta diretamente à nova política industrial do governo Lula.
A chamada Nova Indústria Brasil tenta reconstruir capacidades industriais perdidas nas últimas décadas e inserir o país em setores ligados à transição energética, semicondutores, bioeconomia e tecnologia avançada.
E talvez seja justamente isso que torne as terras raras tão estratégicas.
Porque elas podem funcionar como base material para um novo ciclo de industrialização brasileira.
Mas existe também o risco contrário.
Sem planejamento estatal forte, o país pode simplesmente virar fornecedor periférico de matéria-prima para a disputa tecnológica entre China e Estados Unidos.
É exatamente essa disputa que começa agora dentro do próprio governo.
De um lado, setores defendem abertura acelerada ao capital internacional.
Do outro, cresce a pressão por controle estatal, agregação de valor e soberania tecnológica.
Lula parece tentar construir uma síntese:
atrair investimentos externos,
mas mantendo capacidade nacional de decisão.
A frase central do presidente resume bem essa estratégia:
o Brasil aceita parceria.
Mas não aceita abrir mão da soberania.
E no século XXI, soberania mineral já começa a significar soberania tecnológica.



