Da Redação
Fernando Cerimedo foi detido quando tentava embarcar para Buenos Aires; polícia boliviana investiga se o consultor político participou ou ordenou ataque que deixou a advogada Nadia Beller em estado grave
Fernando Cerimedo, consultor político argentino que ganhou projeção como estrategista digital de Javier Milei e mantém uma longa relação política com Eduardo Bolsonaro, foi preso preventivamente na Bolívia nesta terça-feira (18), sob suspeita de envolvimento em um atentado a tiros contra sua ex-companheira, a advogada e ativista boliviana Nadia Beller. Cerimedo foi detido pela polícia no Aeroporto Internacional de Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, quando tentava embarcar em um voo com destino a Buenos Aires. A investigação procura esclarecer se ele teria ordenado o ataque ou colaborado diretamente com os autores dos disparos. Até o momento, trata-se de uma suspeita sob investigação, e não de uma condenação.
O crime ocorreu na segunda-feira (17), em um apart-hotel localizado na região do Canal Isuto, em Santa Cruz de la Sierra. Segundo as informações divulgadas inicialmente pela emissora boliviana Unitel e publicadas pelo jornalista Guilherme Amado, Nadia Beller foi atingida por disparos e levada em estado grave para uma clínica da cidade. A prisão de Cerimedo ocorreu horas depois, quando as autoridades bolivianas identificaram elementos que justificaram sua detenção preventiva enquanto as circunstâncias do atentado são apuradas.
O caso ganha repercussão internacional não apenas pela gravidade da acusação, mas pela trajetória política de Cerimedo. O argentino tornou-se conhecido como um dos articuladores da comunicação digital da direita latino-americana e participou da estratégia que ajudou Javier Milei a chegar à Presidência da Argentina. Nos últimos anos, ampliou sua atuação como consultor e passou a trabalhar politicamente em diferentes países da região, inclusive na Bolívia. No Brasil, construiu uma relação especialmente próxima com Eduardo Bolsonaro e participou de transmissões e articulações relacionadas à direita brasileira.
A relação entre Cerimedo e sua ex-companheira já estava marcada por acusações públicas antes do atentado. De acordo com a reportagem, o relacionamento havia terminado recentemente e Beller havia feito acusações de violência doméstica e agressão contra o argentino. Também existiam acusações mútuas entre os dois. Esse histórico passou a integrar a investigação boliviana, mas, por si só, não estabelece autoria ou participação no ataque. Caberá às autoridades reconstruir os movimentos dos envolvidos, identificar os responsáveis pelos disparos e verificar se existe algum elemento material ligando Cerimedo à execução ou ao planejamento do crime.
A prisão também volta a colocar sob os holofotes a atuação de Cerimedo no Brasil. O argentino foi um dos personagens estrangeiros envolvidos na campanha de contestação das urnas eletrônicas depois da derrota de Jair Bolsonaro para Lula em 2022. Em transmissões realizadas naquele período, divulgou alegações falsas e sem sustentação sobre o sistema eleitoral brasileiro, contribuindo para alimentar a narrativa de fraude que circulava entre grupos bolsonaristas. Essa atuação acabou sendo examinada pela Polícia Federal nas investigações relacionadas à tentativa de ruptura institucional que se seguiu às eleições.
Cerimedo foi formalmente indiciado pela Polícia Federal em 2024 e apontado pelos investigadores como participante do chamado núcleo de desinformação ligado à trama golpista. Ele foi o único estrangeiro entre os indiciados naquele momento. É importante fazer uma distinção jurídica: o indiciamento policial não resultou posteriormente em denúncia da Procuradoria-Geral da República contra Cerimedo no processo levado ao Supremo Tribunal Federal, razão pela qual ele não foi réu no julgamento decorrente daquela denúncia.
Sua ligação com Eduardo Bolsonaro, porém, permaneceu. Ainda em julho deste ano, os dois participaram de uma transmissão na qual voltaram a lançar suspeitas sobre o sistema eleitoral brasileiro. Cerimedo apareceu ao lado de Eduardo justamente num momento em que Flávio Bolsonaro também intensificava questionamentos sobre as urnas. A atuação conjunta chamou atenção porque recuperava, em plena campanha presidencial de 2026, argumentos semelhantes aos utilizados depois da eleição de 2022.
Esse histórico torna Cerimedo uma figura relevante para compreender a formação de uma rede política transnacional da direita latino-americana. Sua atuação atravessou as fronteiras argentinas e estabeleceu conexões com dirigentes, influenciadores e movimentos políticos de outros países. A comunicação digital ocupa posição central nessa articulação: canais de vídeo, transmissões ao vivo, redes sociais e veículos ideologicamente alinhados permitem que narrativas desenvolvidas em um país sejam rapidamente reproduzidas em outro.
A ascensão de Milei representou um salto de projeção para esse ecossistema. Cerimedo ganhou notoriedade regional pela participação na campanha digital que levou o libertário argentino ao poder e posteriormente passou a oferecer serviços de comunicação e consultoria política em outros mercados latino-americanos. Sua proximidade com Eduardo Bolsonaro também o inseriu diretamente na circulação de estratégias e discursos entre a direita argentina e o bolsonarismo brasileiro.
Nada desse histórico político, entretanto, pode ser utilizado como prova da acusação criminal atualmente investigada na Bolívia. São dimensões diferentes do caso e precisam permanecer separadas. A prisão preventiva indica que as autoridades consideraram necessária sua detenção enquanto investigam o atentado, mas a responsabilidade pelo crime somente poderá ser estabelecida depois da produção e análise das provas e do devido processo legal.
A prioridade imediata da investigação é esclarecer quem atacou Nadia Beller e por quê. A polícia precisará identificar os autores materiais, verificar imagens de segurança, comunicações, deslocamentos, eventuais contatos entre os envolvidos e qualquer outro elemento capaz de estabelecer se houve planejamento prévio. Também deverá determinar se Cerimedo possuía alguma relação com os responsáveis pelos disparos ou se existem evidências que afastem a suspeita.
O fato de o argentino ter sido interceptado no aeroporto quando tentava viajar para Buenos Aires certamente será examinado pelas autoridades, mas também não pode ser apresentado isoladamente como comprovação de fuga ou culpa. O significado da viagem dependerá da cronologia reconstruída pelos investigadores e das demais evidências reunidas no inquérito.
O caso possui, portanto, duas dimensões que precisam ser acompanhadas com rigor. A primeira é criminal e extremamente grave: uma mulher foi baleada e permanece em estado grave, enquanto a polícia investiga a possibilidade de participação de seu ex-companheiro no atentado. A segunda é política: o homem preso é um personagem conhecido das redes de articulação da direita latino-americana, participou da ascensão de Javier Milei e estabeleceu vínculos importantes com Eduardo Bolsonaro e com o movimento que questionou sem provas o resultado eleitoral brasileiro de 2022.
Agora, a investigação boliviana terá de responder à questão essencial que nenhuma associação política permite antecipar: qual foi efetivamente a participação de Fernando Cerimedo no atentado contra Nadia Beller, se alguma?
Até que essa resposta seja produzida pelas autoridades e submetida à Justiça, Cerimedo deve ser tratado como investigado e suspeito, e não como autor comprovado do ataque.




