Atitude Popular

EUA intensificam ataques e pressão contra o Irã e elevam risco de guerra

Da Redação

Entre sanções em massa, ultimatos, deslocamento de caças e porta-aviões e a ameaça aberta de novos bombardeios, Washington monta uma campanha de coerção total contra Teerã, com impacto direto no petróleo, no Estreito de Ormuz e na estabilidade do Sul Global.

A escalada dos Estados Unidos contra o Irã entrou, neste domingo, 22 de fevereiro de 2026, em uma fase que combina demonstração militar explícita, estrangulamento econômico e pressão política permanente. O resultado é um ambiente regional em que aliados árabes no Golfo e até adversários históricos de Teerã avaliam que a hipótese de conflito se tornou mais provável do que um acordo, enquanto o risco de incidente fora de controle cresce a cada movimentação de tropas e cada rodada de ameaças.

O movimento mais visível é a montagem de uma presença militar norte-americana descrita por analistas e diplomatas como uma das maiores desde a invasão do Iraque em 2003. Imagens de satélite e relatos de autoridades indicam a concentração de dezenas de aeronaves de combate em bases na Jordânia e na Arábia Saudita, além do deslocamento de grupos navais de porta-aviões e dezenas de milhares de militares para a região. O recado é inequívoco: a força está sendo posicionada não apenas para “dissuadir”, mas para sustentar uma ofensiva aérea caso a Casa Branca decida apertar o gatilho.

A pressão militar não opera sozinha. Ela é parte de uma arquitetura de coerção em camadas que inclui sanções financeiras e marítimas, bloqueios de fato na cadeia logística e um cerco ao comércio de petróleo iraniano. Em 6 de fevereiro, Washington anunciou sanções contra entidades e embarcações associadas ao comércio de petróleo e petroquímicos do Irã, com foco no que o governo norte-americano chama de “shadow fleet”, o circuito de navios, empresas e intermediários usados para contornar restrições. O objetivo explícito é reduzir a arrecadação iraniana e elevar o custo de cada barril exportado, transformando o mercado marítimo em linha de frente da guerra econômica.

Do ponto de vista do Sul Global, essa é a engrenagem clássica do poder assimétrico. A potência que controla moeda, seguros, rotas e sistemas financeiros tenta impor um “teto de soberania” aos países periféricos: ou se aceita o pacote político exigido, ou o preço do comércio, do crédito e do abastecimento se torna insuportável. Para nações que importam energia e fertilizantes, ou dependem do equilíbrio de preços do petróleo para não explodir inflação e custo de vida, essa política tem efeito dominó. A coerção contra Teerã não fica em Teerã: ela reverbera em cadeias de suprimento e orçamentos domésticos do mundo inteiro.

A semana confirmou também a dimensão psicológica dessa campanha. Segundo a imprensa internacional, Donald Trump estabeleceu prazos curtos e ameaças públicas para pressionar Teerã a aceitar um novo arranjo nuclear, enquanto autoridades e vazamentos falam em “opções” que vão de ataques cibernéticos e sabotagem a bombardeios “limitados”. A meta é produzir incerteza contínua, quebrar a previsibilidade do adversário e forçá-lo a negociar sob o peso do medo de uma escalada imediata.

O detalhe mais explosivo é o tipo de alvo que passou a circular como possibilidade. Uma reportagem da Reuters afirmou, com base em fontes, que discussões nos EUA consideram cenários de ataques que poderiam mirar figuras específicas do alto escalão iraniano, algo que elevaria drasticamente a chance de resposta regional e ampliaria o risco de alastramento do conflito. Esse tipo de sinalização é mais do que retórica: é uma técnica de pressão que tenta deslocar o debate do “o que o Irã faz” para “o que os EUA podem fazer”, alterando o cálculo político interno em Teerã.

Do lado iraniano, a resposta tem sido calibrada para combinar “resistência” e aviso de custos. Na última semana, o país chegou a anunciar o fechamento temporário do Estreito de Ormuz durante exercícios militares, um gesto raríssimo justamente no gargalo por onde passa uma fatia crucial do petróleo mundial. Ao mesmo tempo, Teerã manteve a via diplomática por meio de negociações indiretas e discursos que sugerem disposição a concessões condicionadas a alívio de sanções, sem aceitar imposições que eliminem por completo capacidades consideradas parte de sua soberania estratégica.

O Estreito de Ormuz, aliás, é o ponto em que o conflito deixa de ser “regional” e vira, automaticamente, global. Para o Sul Global, Ormuz não é apenas geografia: é um termômetro de custo de vida. Qualquer aumento de risco na região tende a se refletir em preços de energia, fretes e seguros marítimos. E há um segundo efeito: a militarização permanente dessas rotas cria normalização de presença bélica em áreas que deveriam ser reguladas por acordos internacionais e por segurança coletiva, não por ultimatos.

Washington insiste que o objetivo é impedir avanços nucleares e conter a capacidade militar iraniana. Críticos, porém, alertam que ataques — mesmo “cirúrgicos” — podem produzir o efeito contrário: endurecer posições, reduzir espaço para inspeções e empurrar a crise para um ciclo de retaliações e contra-retaliações. Organizações e especialistas em não proliferação têm argumentado que novos bombardeios não garantem solução duradoura e podem corroer o próprio terreno da diplomacia.

Nesse cenário, a diplomacia aparece como corredor estreito, pressionado por todos os lados. Um lado exige “capitulação” em termos máximos; o outro reivindica o direito de negociar sem humilhação soberana. A Reuters reportou, neste domingo, que Teerã sinaliza prontidão para concessões se houver contrapartidas reais, mas também voltou a advertir que qualquer ataque terá resposta contra bases norte-americanas na região — um lembrete de que a guerra contemporânea não precisa de invasão terrestre para incendiar o tabuleiro.

Pelo farol do Sul Global, o que está em jogo vai além do dossiê nuclear. Trata-se do modelo de governança internacional que as potências tentam impor quando seus interesses estratégicos entram em conflito com a autonomia de um Estado não alinhado. Sanções, pressão sobre petróleo, ameaças militares, guerra cibernética e mobilização de alianças são instrumentos de uma mesma gramática: a da coerção assimétrica. O Irã é o alvo da vez, mas o método é exportável, replicável e, por isso, interessa a qualquer país que busque soberania real.

A história recente mostra que esse tipo de escalada raramente se encerra com “vitória limpa”. Em geral, o que se vê é a ampliação do sofrimento social, a regionalização do caos e o fortalecimento de forças internas mais duras, tanto em países atacados quanto em seus vizinhos. Para populações do Sul Global, o preço costuma aparecer em duas pontas: inflação e instabilidade. Por isso, o debate não é apenas “Irã vs. EUA”. É sobre a capacidade do mundo de conter a diplomacia de canhoneiras e reerguer mecanismos multilaterais capazes de reduzir a política internacional à política, e não à ameaça.