Atitude Popular

EUA são acusados de usar ISIS como instrumento na Síria

Da Redação

Declarações de ex-autoridades e denúncias recentes reacendem debate sobre o papel dos Estados Unidos na guerra da Síria, com acusações de que Washington teria tolerado ou instrumentalizado o ISIS para objetivos geopolíticos na região.

Uma nova rodada de acusações envolvendo a atuação dos Estados Unidos na guerra da Síria voltou ao centro do debate internacional após declarações do ex-chefe de gabinete do então secretário de Estado Lawrence Wilkerson, que sugeriu que Washington teria, em determinados momentos, tolerado ou até utilizado a presença do ISIS como instrumento indireto de pressão geopolítica no Oriente Médio.

As declarações foram feitas em entrevista recente e repercutidas por veículos internacionais, reacendendo uma controvérsia antiga: até que ponto as grandes potências manipulam ou se beneficiam de conflitos assimétricos e de grupos armados não estatais para atingir objetivos estratégicos.

A guerra civil síria, iniciada em 2011, rapidamente se transformou em um dos conflitos mais complexos do século XXI, envolvendo múltiplos atores locais, regionais e globais. De um lado, o governo de Bashar al-Assad; de outro, uma miríade de grupos rebeldes, além da atuação direta ou indireta de potências como Estados Unidos, Rússia, Turquia e Irã.

Nesse contexto fragmentado, o ISIS emergiu como uma força central a partir de 2013, ocupando vastos territórios na Síria e no Iraque e instaurando um regime extremamente violento. Oficialmente, os Estados Unidos lideraram uma coalizão internacional para combater o grupo, realizando milhares de ataques aéreos ao longo dos anos.

No entanto, críticos da política externa americana apontam que a atuação de Washington na região foi marcada por ambiguidades. Em determinados momentos, a prioridade estratégica teria sido enfraquecer o governo sírio e conter a influência iraniana, o que, segundo essas análises, teria levado a uma postura indireta de tolerância em relação a determinados grupos armados.

As declarações de Wilkerson se inserem nesse debate. Segundo ele, houve ocasiões em que a presença do ISIS poderia ser vista como funcional a interesses geopolíticos mais amplos, especialmente na disputa pelo controle territorial e pela influência no chamado “arco de instabilidade” do Oriente Médio.

Esse tipo de acusação não é novo. Ao longo dos últimos anos, diferentes analistas, documentos vazados e investigações jornalísticas já levantaram hipóteses semelhantes, embora não haja consenso acadêmico ou institucional sobre a existência de uma política deliberada de apoio ao grupo.

Por outro lado, há evidências amplamente documentadas de que os Estados Unidos desempenharam papel central na derrota territorial do ISIS a partir de 2017, apoiando forças locais e conduzindo operações militares decisivas. Essa dualidade alimenta uma leitura mais complexa da atuação americana, marcada por objetivos múltiplos e, por vezes, contraditórios.

Do ponto de vista geopolítico, a Síria se tornou um tabuleiro estratégico onde diferentes potências disputam influência. A presença militar dos Estados Unidos no nordeste sírio, especialmente em áreas ricas em petróleo, continua sendo alvo de críticas por parte do governo sírio e de seus aliados, que consideram essa presença uma violação da soberania nacional.

Ao mesmo tempo, Washington justifica sua atuação como necessária para combater o terrorismo e evitar o ressurgimento do ISIS. Essa narrativa, no entanto, é contestada por atores que veem na permanência americana uma tentativa de manter influência estratégica na região.

A fala de Wilkerson ganha relevância justamente por vir de dentro do próprio establishment americano. Ao sugerir que grupos como o ISIS podem ter sido instrumentalizados em determinadas circunstâncias, ele reforça uma crítica recorrente: a de que a política externa dos Estados Unidos frequentemente opera com lógica pragmática, priorizando interesses estratégicos mesmo quando isso implica contradições éticas e políticas.

No cenário atual, marcado por novas tensões no Oriente Médio, essas discussões voltam à tona com força. A guerra envolvendo o Irã, Israel e Estados Unidos reativa memórias recentes da Síria e levanta questionamentos sobre os métodos utilizados pelas grandes potências na condução de seus objetivos.

Para países do Sul Global, esse tipo de debate tem implicações diretas. Ele reforça a percepção de que conflitos regionais muitas vezes são atravessados por interesses externos, nos quais populações locais pagam o preço mais alto enquanto disputas de poder se desenrolam em múltiplos níveis.

A questão central, portanto, permanece em aberto: até que ponto a luta contra o terrorismo foi, de fato, o único motor da atuação americana na Síria, e até que ponto ela se entrelaçou com estratégias mais amplas de controle geopolítico?