Da Redação
Kirill Dmitriev afirma que União Europeia enfrenta a “pior crise energética de sua história” e responsabiliza a política de afastamento dos combustíveis russos. Os números confirmam uma deterioração séria: estoques de gás estão em cerca de 69%, contra média sazonal de 85%, preços subiram aproximadamente 150% em um ano e combustíveis atingem recordes em países como Alemanha. Mas a crise atual tem outra causa imediata decisiva: a guerra no Oriente Médio interrompeu quase 20% da oferta mundial de GNL que passava por Ormuz. Bruxelas sustenta que, apesar da vulnerabilidade, não existe risco imediato de desabastecimento.
A União Europeia chega às portas do inverno diante de uma combinação que parecia improvável quando começou a reconstruir seu sistema energético depois da invasão russa da Ucrânia: estoques de gás muito abaixo dos níveis habituais, petróleo acima de US$ 100, combustíveis pressionando novamente a inflação, gás natural negociado a preços que não eram vistos desde a crise de 2022 e uma nova interrupção nas cadeias internacionais de energia — desta vez provocada pela guerra no Oriente Médio e pelas dificuldades de circulação através do Estreito de Ormuz.
Foi nesse contexto que Kirill Dmitriev, representante especial do presidente Vladimir Putin para investimentos e cooperação econômica internacional e dirigente do Fundo Russo de Investimento Direto, afirmou neste fim de semana que a Europa finalmente estaria reconhecendo enfrentar “a pior crise energética da história”. Para Dmitriev, porém, a explicação não está apenas na guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã: o problema teria sido produzido em grande medida pelas próprias decisões europeias de reduzir e agora eliminar a dependência de petróleo e gás russos. A avaliação é a posição política do enviado do Kremlin e precisa ser separada dos dados que descrevem efetivamente o choque energético.
Os números confirmam que existe uma crise relevante. Dados reunidos pela Reuters mostram que os reservatórios europeus de gás estavam aproximadamente 69% cheios em meados de setembro, muito abaixo da média de cerca de 85% registrada nesta época do ano nos cinco anos anteriores. Alemanha e Holanda, que juntas concentram aproximadamente 35% da capacidade de armazenamento da União Europeia, estão entre os países que enfrentam maior pressão para recompor estoques antes do período de aquecimento.
O preço do gás europeu também sofreu uma transformação. Segundo a mesma apuração, os contratos de referência estavam aproximadamente 150% acima dos níveis registrados um ano antes. Diesel acumulava alta anual de aproximadamente 38%, enquanto o combustível de aviação havia mais que dobrado.
Na Alemanha, a pressão já chegou diretamente aos postos. A gasolina E10 alcançou aproximadamente € 2,30 por litro, levando o governo de Friedrich Merz a anunciar redução temporária de impostos sobre gasolina e diesel a partir de outubro. A medida deverá custar cerca de € 2,5 bilhões aos cofres públicos até o fim do ano.
O problema tornou-se também político. Energia cara afeta indústria, transporte, agricultura, famílias e competitividade exportadora ao mesmo tempo. Diferentemente de uma alta isolada da gasolina, um choque prolongado do gás natural atravessa a produção de eletricidade, fertilizantes, química pesada, vidro, aço, alimentos e numerosas cadeias industriais.
É por isso que a discussão desencadeada pela declaração de Dmitriev é maior que a disputa propagandística entre Moscou e Bruxelas.
A Europa efetivamente abandonou uma parte decisiva do modelo energético que havia sustentado especialmente a indústria alemã durante décadas. Mas a crise de 2026 não pode ser explicada apenas pela ruptura com a Rússia.
Ormuz criou um segundo choque sobre um sistema que ainda estava sendo reconstruído
Quando a Rússia invadiu a Ucrânia em fevereiro de 2022, aproximadamente 45% das importações de gás da União Europeia tinham origem russa. Oleodutos e gasodutos construídos ao longo de décadas ligavam diretamente campos russos ao coração industrial europeu.
A guerra modificou radicalmente essa arquitetura.
A União Europeia reduziu a participação russa no conjunto de suas importações de gás para aproximadamente 12% em 2025, correspondente a cerca de 36 bilhões de metros cúbicos. A participação do petróleo bruto russo caiu para aproximadamente 2% das importações europeias, contra cerca de 20% em 2022.
A substituição ocorreu por várias vias: maior importação de gás natural liquefeito, especialmente dos Estados Unidos; crescimento dos fluxos noruegueses; redução do consumo; expansão de renováveis; construção acelerada de terminais de regaseificação e diversificação de fornecedores.
Essa reorganização diminuiu fortemente a dependência direta de Moscou.
Mas criou outra vulnerabilidade.
Ao trocar parte do gás transportado por gasodutos russos por GNL comprado no mercado mundial, a Europa passou a disputar cargas com Ásia, América Latina e outros importadores e ficou mais exposta ao preço internacional do transporte marítimo de gás.
Foi justamente esse sistema que a guerra no Oriente Médio atingiu.
A Agência Internacional de Energia calcula que a interrupção de fluxos pelo Estreito de Ormuz retirou temporariamente do mercado quase 20% da oferta mundial de GNL. O Qatar, um dos maiores produtores globais, foi particularmente afetado. A crise levou os preços do gás na Europa e na Ásia aos maiores níveis desde o choque energético de 2022-2023.
No relatório do terceiro trimestre, a IEA afirmou que a guerra alterou profundamente as condições do mercado mundial de gás. Mesmo após o acordo provisório alcançado entre Estados Unidos e Irã em junho, os fluxos por Ormuz permaneceram muito abaixo do normal e a duração da recuperação continua incerta.
Essa é uma diferença fundamental em relação à interpretação apresentada por Dmitriev.
A decisão europeia de abandonar progressivamente o gás russo faz parte da estrutura que explica a exposição atual do continente. Mas o choque que derrubou o equilíbrio do mercado em 2026 veio diretamente do Oriente Médio.
A própria IEA chegou a classificar o choque provocado pela guerra contra o Irã como a maior crise energética já registrada em termos de interrupção diária de oferta, superior, em determinada fase, aos impactos imediatos das crises de 1973, 1979 e 2022.
A Europa está, portanto, enfrentando duas transformações sobrepostas.
A primeira começou em 2022, quando rompeu parte de sua relação energética com a Rússia.
A segunda surgiu em 2026, quando a rota internacional escolhida para substituir parcela dessa dependência — o mercado global de GNL — sofreu um choque de proporções históricas.
É essa combinação que torna o momento especialmente delicado.
Moscou quer transformar a crise em argumento para reabrir o mercado europeu
A Rússia acompanha essa deterioração tentando reconstruir politicamente a tese de que a Europa não poderá sustentar por muito tempo a separação energética.
Dmitriev vem defendendo publicamente essa interpretação há meses. Em junho, afirmou que a Europa precisaria novamente de petróleo e gás russos para enfrentar a crise provocada pelo Oriente Médio. O Kremlin também declarou que Moscou estaria disposta a fornecer gás à União Europeia caso houvesse volumes disponíveis depois do atendimento a outros mercados.
A movimentação já encontrou interlocutores na própria Alemanha.
Reuters revelou nesta semana que Dmitriev e dirigentes da Alternativa para a Alemanha, a AfD, preparam uma possível reunião em 2027 para discutir a retomada do fornecimento de gás russo à Alemanha. As conversas dependeriam de algum tipo de estrutura de paz entre Rússia e Ucrânia. A AfD defende a suspensão das sanções energéticas e argumenta que o retorno do gás russo ajudaria a reduzir os custos da indústria alemã.
A proposta enfrenta forte resistência dos partidos que governam ou tradicionalmente ocupam o centro do sistema político alemão. Seus críticos argumentam que restaurar a antiga dependência simplesmente recriaria o problema estratégico que a União Europeia decidiu eliminar depois de 2022.
Esse debate contém uma contradição econômica real.
O gás russo fornecido por gasodutos durante anos ofereceu vantagens geográficas e de infraestrutura à Alemanha e a outras economias da Europa Central. Substituí-lo rapidamente exigiu terminais de GNL, novos contratos, transporte marítimo e competição por cargas internacionais. Tudo isso possui custo.
Ao mesmo tempo, a experiência de 2022 mostrou a vulnerabilidade produzida por depender profundamente de um fornecedor que participa de uma guerra no próprio continente europeu.
Portanto, dizer simplesmente que a Europa errou ao abandonar “gás barato” elimina uma parte decisiva da equação: o preço baixo existia dentro de uma relação geopolítica que se tornou um risco de segurança.
Da mesma maneira, afirmar que a substituição do gás russo resolveu definitivamente a vulnerabilidade europeia também seria incorreto. A crise de Ormuz demonstra que diversificação reduz um tipo de dependência, mas não elimina a exposição às redes globais.
A questão passou a ser qual dependência é aceitável e quanto custa reduzi-la.
A União Europeia já transformou sua escolha em legislação.
O regulamento REPowerEU entrou em vigor em fevereiro deste ano e estabelece a retirada gradual e permanente do gás russo. Novos contratos já estão proibidos. As importações remanescentes de GNL russo deverão desaparecer do mercado europeu até o início de 2027, enquanto as importações por gasoduto devem ser encerradas até setembro de 2027, com possibilidade excepcional de pequena extensão em situações relacionadas ao armazenamento.
Bruxelas, portanto, não indica neste momento qualquer intenção de voltar ao modelo anterior.
Isso é exatamente o que Dmitriev critica.
Segundo o enviado russo, a Europa enfrenta uma crise “autoproduzida” e não estaria disposta a examinar suas causas estruturais. A afirmação mistura uma constatação verificável — a retirada da energia russa elevou custos de adaptação e alterou a estrutura de abastecimento — com uma interpretação política discutível: a de que essa decisão seja a causa principal da crise atual.
Os dados disponíveis apontam para uma explicação mais complexa.
Bruxelas diz que os estoques preocupam, mas não vê risco imediato de falta de gás
Apesar da deterioração, a Comissão Europeia rejeita a ideia de que o continente esteja à beira de ficar sem gás.
Em 3 de setembro, o Grupo de Coordenação do Gás da União Europeia reuniu representantes dos Estados-membros e concluiu que não existe risco imediato para a segurança do abastecimento, embora reconheça que a situação internacional é excepcional e exige monitoramento permanente.
A avaliação de Bruxelas é que a Europa se encontra hoje melhor preparada que em 2021 e 2022 porque possui mais capacidade para importar GNL, maior diversidade de fornecedores e consumo estrutural de gás inferior ao período anterior à primeira crise.
A Comissão também flexibilizou regras de armazenamento diante dos preços elevados. Em vez de obrigar países a comprar gás independentemente do custo apenas para atingir metas rígidas, Bruxelas passou a admitir maior margem para o preenchimento dos reservatórios.
Isso ajuda a explicar parcialmente por que os estoques estão abaixo do observado em anos anteriores.
Mas não elimina o risco.
O problema central é que a Europa entra no período de aquecimento dependendo muito mais do comportamento do mercado internacional. Um inverno rigoroso aumentaria rapidamente o consumo. Novas interrupções no Oriente Médio poderiam reduzir novamente as cargas disponíveis. Uma recuperação da demanda asiática criaria competição adicional pelo mesmo GNL.
A própria Comissão Europeia já modelou um cenário no qual restrições prolongadas em Ormuz poderiam elevar o gás europeu para aproximadamente € 80 por megawatt-hora no final de 2026, antes de uma eventual redução em 2027 com a entrada de novas capacidades internacionais de GNL.
O mercado já alcançou níveis próximos a esse cenário adverso.
Essa exposição tem consequências que chegam muito além das contas domésticas.
Energia representa um dos principais elementos de custo de setores industriais intensivos. A associação europeia do aço afirma que os preços de eletricidade continuam significativamente acima dos níveis históricos e considera a energia uma questão decisiva para o futuro da siderurgia continental.
A própria discussão sobre competitividade europeia passou a ser atravessada por esse problema.
A crise energética de 2022 já havia reduzido produção industrial, fechado unidades intensivas em energia e levado governos a gastar centenas de bilhões de euros em mecanismos de proteção a empresas e famílias. O Fundo Monetário Internacional calculou que o gás europeu chegou a negociar em agosto daquele ano por preços mais de vinte vezes superiores aos de 2019.
Em 2026, os governos voltam a recorrer a subsídios e reduções de impostos.
A Reuters calcula que 22 dos 27 países da União Europeia adotaram ou estudaram algum tipo de ajuda diante do novo choque, enquanto Bruxelas flexibilizou temporariamente regras de auxílio estatal. A dificuldade é fiscal: subsídios generalizados podem reduzir o impacto imediato sobre a população, mas tornam-se extremamente caros quando os preços elevados permanecem durante meses.
A Alemanha oferece um exemplo. A redução temporária de impostos sobre combustíveis anunciada nesta semana responderá a uma pressão social concreta, mas transferirá parte do custo da energia para o orçamento público.
O mesmo dilema aparece na política monetária.
Gás, diesel e eletricidade mais caros alimentam preços industriais e de transporte. Se a inflação voltar a se espalhar por salários e serviços, o Banco Central Europeu poderá ser obrigado a manter ou elevar juros, justamente quando a economia necessita de investimento para reconstruir infraestrutura energética e modernizar a indústria.
Reuters mostrou nesta semana que mercados passaram novamente a incorporar expectativas de alta dos juros europeus por causa do choque energético, embora economistas alertem que um aperto excessivo também poderia aprofundar a desaceleração.
É aí que a crise de energia se transforma em crise de competitividade.
A Europa precisa simultaneamente pagar mais caro por parte de sua energia, financiar defesa e rearmamento, realizar a transição climática, atualizar infraestrutura, competir tecnologicamente com Estados Unidos e China e preservar um Estado social de grande dimensão.
Cada aumento estrutural no preço da energia torna essas tarefas mais caras.
A Rússia tenta utilizar essa equação para demonstrar que a política europeia de sanções fracassou.
Bruxelas responde que voltar a depender de Moscou trocaria preço mais baixo por vulnerabilidade estratégica.
As duas narrativas possuem interesses políticos claros.
Os dados mostram algo mais incômodo para a Europa: mesmo tendo reduzido drasticamente sua dependência direta da Rússia, o continente ainda não alcançou verdadeira autonomia energética.
Passou de uma arquitetura fortemente baseada no gás russo por gasodutos para um sistema mais diversificado, mas também mais dependente de mercados marítimos globais, terminais de GNL, fornecedores externos e corredores estratégicos que podem ser interrompidos por guerras a milhares de quilômetros de suas fronteiras.
A crise de Ormuz tornou visível essa fragilidade.
Por isso, a discussão que surge após a declaração de Dmitriev não deveria se limitar a decidir se a Rússia “tinha razão” ou se Bruxelas “errou”.
A questão estrutural é outra: quem controla a energia necessária para sustentar a economia europeia, por quais rotas ela chega, quanto custa substituí-la e qual capacidade industrial o continente possui para reduzir sua vulnerabilidade simultaneamente à Rússia, ao Oriente Médio e ao mercado internacional de combustíveis fósseis.
O inverno de 2026-2027 poderá transformar essa pergunta em um dos principais testes econômicos e políticos da União Europeia.
Os estoques ainda existem. A Comissão afirma que não há risco imediato de desabastecimento. A infraestrutura construída depois de 2022 oferece ao bloco instrumentos que não possuía durante a primeira grande ruptura com a Rússia.
Mas a margem de segurança ficou menor.
E, enquanto o gás está 150% mais caro que há um ano, os reservatórios permanecem muito abaixo da média e uma guerra continua comprometendo a principal rota mundial de energia, Moscou encontrou novamente uma oportunidade para colocar no centro do debate europeu uma pergunta que Bruxelas acreditava estar deixando para trás: quanto custará, no longo prazo, viver sem a energia russa.


