Atitude Popular

Finep destina R$ 500 milhões para tecnologias de defesa e reforça aposta brasileira em autonomia estratégica

Edital prioriza inteligência artificial, sistemas hipersônicos, defesa cibernética e projetos aeroespaciais ligados ao programa espacial brasileiro

Da Redação

O Governo Federal abriu uma chamada pública de R$ 500 milhões para financiar projetos estratégicos da Base Industrial de Defesa (BID). O edital, lançado pela Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), representa o maior aporte individual de recursos não reembolsáveis já destinado ao setor e integra as diretrizes da Estratégia Nacional de Defesa e da política Nova Indústria Brasil.

Os recursos serão destinados a instituições públicas de ciência, tecnologia e inovação vinculadas ao Ministério da Defesa. Para participar, cada proposta deverá ser desenvolvida em parceria com empresas da Base Industrial de Defesa, aproximando centros de pesquisa e setor produtivo.

A Finep é uma empresa pública vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e atua como principal agência de fomento à ciência, tecnologia e inovação do país. Sua atuação abrange todas as etapas do ciclo da inovação, desde a pesquisa básica até o lançamento de produtos e tecnologias no mercado.

Ao longo de sua trajetória, a instituição participou da consolidação da pós-graduação brasileira, da estruturação de laboratórios de ponta e do fortalecimento das universidades e institutos de pesquisa. Atualmente, financia projetos de empresas, startups, centros tecnológicos e instituições científicas em áreas consideradas estratégicas para o desenvolvimento nacional.

Cinco eixos tecnológicos

O edital está dividido em cinco áreas prioritárias. A primeira contempla sistemas de guiagem, navegação e controle para mísseis, foguetes e veículos autônomos. A segunda linha é voltada para sensoriamento remoto, monitoramento estratégico e sistemas de comando e controle destinados à vigilância territorial.

A terceira concentra investimentos em inteligência artificial, defesa cibernética, tecnologias quânticas, visão computacional e análise avançada de dados. A quarta envolve tecnologias nucleares e sistemas energéticos associados à experiência acumulada pelo Programa Nuclear da Marinha. Já a quinta linha direciona recursos ao setor aeroespacial, incluindo veículos lançadores, tecnologias hipersônicas, materiais avançados e manufatura aditiva.

Cada projeto deverá solicitar pelo menos R$ 25 milhões. O edital também reserva 30% dos recursos para propostas oriundas das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. As inscrições seguem abertas até 18 de setembro de 2026.

Programa espacial pode ser beneficiado

A chamada pública surge em um momento importante para o Programa Espacial Brasileiro. Entre os projetos que podem ser contemplados estão iniciativas relacionadas ao Veículo Lançador de Microssatélites (VLM), desenvolvido pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), e ao demonstrador hipersônico 14-X.

Nos últimos anos, o VLM passou por reformulações destinadas a ampliar a autonomia tecnológica nacional. Um dos desdobramentos foi o lançamento do VLM-AT (Autonomia Tecnológica), programa voltado à nacionalização de tecnologias que ainda dependem de cooperação internacional.

Também seguem em andamento projetos ligados ao veículo acelerador conhecido como RATO, contratado por meio de financiamento público para apoiar os testes do programa hipersônico brasileiro. Especialistas do setor avaliam que a nova chamada pode acelerar o desenvolvimento dessas iniciativas, especialmente porque o edital contempla explicitamente tecnologias aeroespaciais, sistemas lançadores e pesquisas hipersônicas.

Investimentos que ultrapassam R$ 1 bilhão

O novo edital soma-se a outra chamada recentemente lançada pela Finep, também de R$ 500 milhões, destinada ao fortalecimento da infraestrutura de pesquisa aplicada em universidades, institutos tecnológicos e centros científicos.

Juntas, as duas iniciativas representam R$ 1 bilhão em investimentos públicos voltados ao fortalecimento da ciência, da inovação e da capacidade tecnológica brasileira. A estratégia busca reduzir dependências externas em áreas consideradas sensíveis para a soberania nacional e ampliar a participação da indústria brasileira em setores de alta complexidade tecnológica.

Defesa volta ao centro do debate estratégico

O lançamento do edital ocorre em um momento de revalorização dos temas ligados à soberania nacional e à capacidade de defesa do país. Nos últimos anos, o avanço das disputas geopolíticas entre grandes potências, a guerra tecnológica global e as pressões internacionais sobre países do Sul Global passaram a influenciar o debate brasileiro sobre autonomia científica e militar.

Em entrevista recente ao programa Democracia no Ar, da TV Atitude Popular, o sociólogo Gustavo Guerreiro avaliou que parte das Forças Armadas voltou a discutir cenários de defesa nacional diante de possíveis ameaças externas.

“Pela primeira vez em muitas décadas, os militares estão começando a discutir como salvaguardar o país de um provável ataque”, afirmou.

Pesquisador da área de defesa e integrante da Associação Brasileira de Estudos da Defesa (ABED), Guerreiro argumenta que, desde a ditadura militar, predominou nas Forças Armadas uma visão fortemente influenciada pela Doutrina de Segurança Nacional, voltada para a identificação de inimigos internos. Segundo ele, a atual conjuntura internacional vem estimulando uma revisão desse paradigma e recolocando a soberania nacional como eixo central das preocupações estratégicas.

O pesquisador cita como exemplos dessa mudança a valorização de programas considerados estruturantes para a defesa nacional, como o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (Prosub), o Programa Espacial Brasileiro e iniciativas ligadas à indústria de defesa e à autonomia tecnológica.

“As Forças Armadas brasileiras lutaram mais contra o próprio povo do que contra o inimigo externo”, disse.

Para Guerreiro, a crescente percepção de riscos externos pode contribuir para recolocar a missão constitucional de defesa nacional no centro da atuação militar.

“A verdadeira função das Forças Armadas é a defesa contra o inimigo externo”, afirmou.

Nesse contexto, investimentos como os R$ 500 milhões anunciados pela Finep ganham relevância não apenas como política científica ou industrial, mas também como instrumentos de fortalecimento da capacidade nacional de desenvolver tecnologias estratégicas sem dependência de fornecedores estrangeiros.

Ciência para a defesa e para o clima

Durante a apresentação do edital, também foram destacadas ações voltadas ao enfrentamento dos impactos das mudanças climáticas.

Uma das principais ferramentas utilizadas pelo governo é a plataforma Adapta Brasil, desenvolvida pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. A plataforma reúne indicadores de risco climático para todos os municípios brasileiros e auxilia estados e prefeituras na elaboração de estratégias de adaptação a secas, enchentes, deslizamentos e outros eventos extremos.

A iniciativa integra as ações coordenadas pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e pelo INPE para ampliar a capacidade de prevenção e resposta diante dos efeitos das mudanças climáticas.

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