Da Redação
Professor da UFRJ afirma que o fracasso estratégico de Washington fortalece o Sul Global, acelera a transição para uma ordem multipolar e coloca o Brasil no centro da disputa geopolítica internacional
A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã pode ter produzido uma das mudanças geopolíticas mais importantes das últimas décadas. Essa é a avaliação do cientista político e professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), José Luís Fiori, que afirma que o desfecho do conflito representa uma derrota estratégica de Washington, fortalece o processo de transição para um mundo multipolar e torna as eleições brasileiras de 2026 um dos principais focos da disputa internacional. A análise foi apresentada em entrevista à jornalista Eleonora de Lucena, do canal Tutaméia, e repercutida pelo Brasil 247.
Segundo Fiori, os Estados Unidos encerraram o conflito sem atingir os objetivos políticos e militares que justificaram sua intervenção. Na avaliação do professor, o memorando de entendimento firmado entre Washington e Teerã foi interpretado inclusive por setores israelenses como uma “rendição humilhante”, resultado de uma guerra extremamente custosa que não alterou o equilíbrio estratégico da região.
Para o cientista político, além de não conseguir impor sua estratégia ao Irã, Washington saiu da guerra enfrentando custos econômicos elevados, desgaste diplomático e dificuldades para preservar sua capacidade de liderança internacional. Ao mesmo tempo, países como China, Rússia e o próprio Irã ampliaram sua influência em um cenário internacional cada vez menos concentrado na hegemonia norte-americana.
Na avaliação de Fiori, esse processo acelera a formação de uma ordem internacional multipolar, caracterizada pela existência de vários centros de poder econômico, tecnológico e militar. Para ele, trata-se de uma transformação histórica que vinha sendo construída há anos, mas que ganhou velocidade diante das dificuldades dos Estados Unidos em manter sua posição dominante em diferentes regiões do planeta.
Nesse contexto, o Brasil assume uma importância estratégica crescente. Fiori sustenta que as eleições presidenciais de 2026 ultrapassam o debate interno e passam a integrar uma disputa geopolítica mais ampla sobre o papel da América do Sul na nova configuração mundial. Segundo ele, o país ocupa posição central no continente por seu peso econômico, territorial, energético e diplomático, tornando-se um ator decisivo na definição dos rumos da integração regional e das relações com as grandes potências.
O professor argumenta que, diante da consolidação de um mundo multipolar, cresce também o interesse de atores internacionais em influenciar os rumos políticos brasileiros. Em sua leitura, o resultado das eleições poderá definir se o Brasil continuará aprofundando relações com mecanismos de cooperação como os BRICS e o Sul Global ou se retomará um alinhamento mais estreito com a política externa dos Estados Unidos.
Fiori também destaca que a América do Sul atravessa um momento decisivo. Enquanto a presença econômica da China cresce rapidamente e novos polos de poder se consolidam, os Estados Unidos tendem a ampliar sua atuação na região para preservar sua influência histórica. Nesse cenário, o Brasil aparece como peça-chave tanto para os projetos de integração regional quanto para as estratégias de contenção da expansão chinesa no continente.
Para o professor, o conflito no Oriente Médio não pode ser analisado isoladamente. Ele faz parte de uma disputa mais ampla pela reorganização da ordem internacional, envolvendo energia, tecnologia, comércio, segurança e influência política. O desfecho da guerra, segundo sua interpretação, reforça a percepção de que o sistema internacional vive uma transição acelerada, na qual antigas hegemonias convivem com novos centros de poder em ascensão.
Ao relacionar a guerra no Irã com a conjuntura brasileira, José Luís Fiori conclui que o Brasil entra em um período no qual as escolhas de política externa, desenvolvimento econômico e soberania nacional terão impacto não apenas doméstico, mas também sobre o equilíbrio geopolítico da América do Sul. Para ele, o resultado das eleições de 2026 poderá influenciar diretamente o posicionamento da região em um mundo que, cada vez mais, deixa para trás a lógica da unipolaridade construída após o fim da Guerra Fria.
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