Flávio Bolsonaro defende acordo comercial com os EUA fora do Mercosul e pede redução de regras para empresas de cartões

Da Redação

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) encaminhou ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) um documento no qual propõe que o Brasil negocie diretamente com Washington fora das regras do Mercosul e defende a redução da carga tributária e regulatória sobre empresas norte-americanas do setor de meios de pagamento, como bandeiras de cartões de crédito, débito e adquirentes. A iniciativa ocorre em meio às discussões sobre um possível tarifaço de 25% contra produtos brasileiros anunciado pelo governo dos Estados Unidos.

Segundo o documento, divulgado inicialmente pelo portal Metrópoles e repercutido pelo Brasil 247, o senador argumenta que o Mercosul impõe limitações às negociações bilaterais com os Estados Unidos e sustenta que um acordo comercial direto seria mais vantajoso para o Brasil. Flávio também afirma que empresas privadas de meios de pagamento desempenham funções que o Pix não substituiria integralmente, defendendo um ambiente regulatório mais favorável para essas companhias.

A proposta provocou forte reação no governo federal. Para aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a iniciativa representa um gesto de alinhamento aos interesses norte-americanos em um momento de tensão comercial, além de contrariar um dos princípios históricos da política externa brasileira, que privilegia negociações comerciais realizadas pelo Mercosul de forma conjunta.

Mercosul no centro da disputa

Desde sua criação, em 1991, o Mercosul estabelece uma Tarifa Externa Comum e prevê que acordos comerciais com outros blocos ou países sejam negociados coletivamente pelos Estados-membros. Embora existam exceções e flexibilizações discutidas nos últimos anos, a negociação isolada de um tratado de livre comércio com os Estados Unidos representaria uma mudança significativa na arquitetura do bloco.

Especialistas apontam que uma eventual flexibilização dessa regra poderia alterar profundamente o modelo de integração regional construído ao longo de mais de três décadas, afetando não apenas o comércio, mas também a coordenação política entre Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.

Pix também entra no debate

Outro ponto abordado por Flávio Bolsonaro diz respeito ao mercado de pagamentos eletrônicos. No documento enviado às autoridades norte-americanas, o senador afirma que empresas privadas de cartões de crédito e débito continuam desempenhando papel relevante na economia brasileira e defende menor carga tributária e regulatória para esse segmento.

A discussão ocorre em um contexto de crescente projeção internacional do Pix, sistema de pagamentos instantâneos desenvolvido pelo Banco Central, considerado uma das principais inovações financeiras do país. O sistema reduziu custos de transação, ampliou a inclusão financeira e passou a competir diretamente com modelos tradicionais operados por grandes empresas globais de cartões.

Soberania econômica em debate

A iniciativa de Flávio Bolsonaro amplia um debate que já vinha ganhando força após as ameaças de novas tarifas norte-americanas sobre produtos brasileiros. Para o governo Lula e setores da base aliada, temas como política comercial, sistema financeiro, integração regional e infraestrutura de pagamentos envolvem interesses estratégicos do Estado brasileiro e devem ser tratados sob a ótica da soberania nacional.

Já aliados do senador sustentam que a aproximação com os Estados Unidos poderia ampliar investimentos, facilitar acordos comerciais e aumentar a competitividade da economia brasileira.

Em meio ao acirramento da disputa política para as eleições de 2026, o episódio acrescenta um novo capítulo ao confronto entre governo e oposição sobre os rumos da política externa brasileira. Enquanto o Palácio do Planalto defende o fortalecimento do Mercosul, da integração regional e da autonomia nas relações internacionais, o campo bolsonarista volta a defender uma aproximação mais direta com Washington, mesmo que isso implique rever mecanismos tradicionais da política comercial brasileira.