Da Redação
A campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) entrou em uma nova fase nesta semana com uma mudança perceptível em sua estratégia de comunicação. Após meses concentrando o discurso em pautas identitárias da direita e na mobilização do núcleo mais fiel do bolsonarismo, o senador passou a adotar uma linguagem mais institucional, ampliando a presença de temas econômicos, reduzindo o tom de confronto direto e investindo na construção de uma imagem de presidenciável voltada para um público mais amplo.
A alteração não significa um rompimento com o legado político do ex-presidente Jair Bolsonaro. Pelo contrário. A campanha continua apresentando Flávio como o herdeiro político do bolsonarismo, mas procura suavizar aspectos que vinham gerando elevada rejeição entre eleitores moderados, mulheres e setores do centro político.
Da mobilização da militância para a conquista do eleitor moderado
Desde o lançamento oficial da candidatura, a campanha buscou mobilizar a base mais fiel da direita. O evento contou com mensagens de apoio do presidente argentino Javier Milei, do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, além de uma participação do ex-presidente Jair Bolsonaro por meio de uma mensagem produzida com inteligência artificial.
Entretanto, pesquisas divulgadas nos últimos dias indicaram que, embora mantenha forte apoio entre os bolsonaristas, Flávio enfrenta dificuldades para ampliar sua votação além desse núcleo. Em um cenário de segundo turno, levantamentos apontam vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Esse contexto parece ter acelerado uma revisão da estratégia de marketing.
Mudanças visuais e discursivas
Entre as mudanças observadas nas peças divulgadas pela campanha estão:
- redução da retórica de enfrentamento permanente;
- maior ênfase em propostas econômicas;
- valorização de temas como redução de impostos, geração de empregos e crescimento econômico;
- produção de vídeos com estética mais institucional;
- diminuição do protagonismo de Jair Bolsonaro na comunicação cotidiana, embora sua imagem continue sendo utilizada como principal ativo eleitoral;
- tentativa de apresentar Flávio como uma liderança própria, e não apenas como representante do pai.
Na comunicação visual também houve mudanças. O material de campanha passou a privilegiar cenários mais sóbrios, linguagem presidencial e uma fotografia que procura transmitir estabilidade, experiência e capacidade administrativa.
Influência do marketing internacional
Outro elemento importante da nova estratégia é a tentativa de aproximar Flávio de lideranças internacionais da direita conservadora.
A presença de Javier Milei no lançamento da candidatura, as manifestações públicas de apoio de Benjamin Netanyahu e a aproximação com Donald Trump fazem parte de uma narrativa que busca inserir a candidatura brasileira dentro de uma rede internacional de lideranças conservadoras.
Ao mesmo tempo, a campanha procura evitar que essas alianças reforcem a percepção de excessiva dependência política em relação aos Estados Unidos, tema que passou a ser explorado por adversários após as recentes tensões diplomáticas entre Brasília e Washington.
Reconstrução da imagem presidencial
Do ponto de vista do marketing político, a campanha parece estar deixando de vender apenas um representante do bolsonarismo para tentar construir um candidato presidencial.
Essa mudança normalmente envolve três objetivos:
- reduzir índices de rejeição;
- conquistar eleitores indecisos;
- transmitir capacidade de governar para além da própria base eleitoral.
Especialistas em comunicação política observam que campanhas competitivas costumam passar por esse processo de “presidencialização”, em que o candidato busca demonstrar equilíbrio, preparo institucional e competência administrativa, sem abandonar completamente sua identidade política.
Desafio permanece
Apesar do reposicionamento, Flávio Bolsonaro ainda enfrenta obstáculos importantes.
Além de pesquisas que indicam vantagem de Lula em cenários de segundo turno, sua campanha busca ampliar alianças partidárias e recuperar o ritmo após episódios que desgastaram sua imagem pública nos últimos meses, incluindo conflitos internos no campo conservador e dificuldades na formação de uma coalizão mais ampla.
O sucesso da nova estratégia dependerá da capacidade de convencer o eleitorado de que a mudança representa uma ampliação do projeto político, e não apenas uma adaptação estética típica do período eleitoral.
Em uma disputa altamente polarizada, conquistar os eleitores de centro tende a ser decisivo. É justamente para esse segmento que a campanha de Flávio Bolsonaro parece direcionar sua nova fase de comunicação, procurando equilibrar a fidelidade ao legado do ex-presidente Jair Bolsonaro com a necessidade de construir uma imagem própria como candidato ao Palácio do Planalto.






