Investigação reconstitui encontro realizado no Lago Paranoá, em julho de 2020, com empresários interessados em negociar vacinas com o governo Jair Bolsonaro e três garotas de programa. Documentos de voos, registros financeiros e depoimentos revelam a estrutura do evento e levantam questionamentos sobre presentes e relações entre interesses privados e poder político.
Da Redação
Uma investigação publicada nesta quarta-feira, 21 de outubro, pela revista piauí revelou novos detalhes sobre as relações entre o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) e empresários da Precisa Medicamentos, companhia envolvida nas controversas negociações para o fornecimento da vacina indiana Covaxin ao governo de Jair Bolsonaro. Segundo a reportagem, Flávio participou, em 17 de julho de 2020, de uma confraternização em uma lancha no Lago Paranoá, em Brasília, organizada por empresários interessados em ampliar seus negócios com o Ministério da Saúde. O encontro teria contado com a presença de três garotas de programa transportadas de São Paulo em um jato executivo. Ao final do passeio, conforme o relato de uma pessoa que estava na embarcação, o empresário Danilo Berndt Trento teria retirado um relógio Rolex do próprio pulso e colocado o acessório no braço do senador.
A revelação ganha importância pelo contexto histórico e pelas relações empresariais envolvidas. Naquele momento, o Brasil atravessava uma das fases mais graves da pandemia de Covid-19, os hospitais enfrentavam crescente pressão e ainda não existia uma campanha nacional de vacinação. Enquanto milhares de famílias acompanhavam o aumento diário das mortes, empresas farmacêuticas disputavam oportunidades de fornecimento de imunizantes e outros produtos ao governo federal.
A reportagem da piauí, assinada por João Batista Jr., Ana Clara Costa e Breno Pires, reconstituiu o encontro a partir de depoimentos, registros de deslocamentos aéreos, documentos bancários e informações obtidas por comissões parlamentares de inquérito. Os jornalistas também ouviram pessoas relacionadas à organização de eventos privados envolvendo empresários e autoridades políticas.
Segundo a investigação, o passeio teria sido promovido por Danilo Trento, então diretor institucional da Precisa Medicamentos, e Francisco Maximiano, proprietário da companhia. Os dois mantinham contatos relacionados à Bharat Biotech, fabricante indiana da Covaxin, e buscavam oportunidades comerciais na área de vacinas.
A presença de Flávio Bolsonaro nesse ambiente é relevante porque ele era senador da República e filho do então presidente Jair Bolsonaro. Sua posição institucional e familiar poderia tornar valiosos, do ponto de vista empresarial, os contatos estabelecidos com pessoas interessadas em decisões do governo federal.
Essa circunstância, entretanto, não comprova que o parlamentar tenha prometido favorecer a Precisa ou recebido o relógio como contrapartida por uma atuação específica. A existência de eventual vantagem indevida dependeria de provas sobre as condições da entrega, a finalidade do presente e possíveis atos praticados em benefício dos empresários.
A investigação jornalística apresenta elementos que justificam essas perguntas, mas não uma conclusão judicial sobre sua existência.
O encontro começou a ser organizado em 16 de julho de 2020. Naquela noite, às 20h49, um jato executivo Embraer Phenom 300, de prefixo PR-SAD, decolou do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, com destino a Brasília. A aeronave era operada pela Prime You, empresa de aviação executiva que também teve o banqueiro Daniel Vorcaro entre seus usuários.
Segundo os registros analisados pela revista, estavam no avião Danilo Trento, Francisco Maximiano, Raphael Barão, proprietário de uma agência de turismo, e três garotas de programa. O grupo desembarcou na capital federal às 22h12 e seguiu para o hotel Meliá Brasil 21.
Raphael Barão teria ficado responsável pela organização da viagem, pela hospedagem e por providências relacionadas à confraternização.
Na manhã seguinte, alimentos e bebidas foram levados a uma lancha de aproximadamente 20 metros, preparada para receber os participantes no Lago Paranoá. De acordo com a piauí, Trento embarcou acompanhado das três mulheres e do condutor da embarcação. Flávio Bolsonaro chegou posteriormente, junto de Alexandre Santini, seu amigo e então sócio em uma franquia da Kopenhagen.
A embarcação percorreu diferentes pontos do lago e fez uma parada no restaurante flutuante Alô Grau, onde foram adquiridos alimentos e bebidas. A conta, de R$ 1.949, foi paga por Raphael Barão, segundo os documentos mencionados pela revista.
Uma pessoa presente no encontro relatou que os participantes demonstravam preocupação com a possibilidade de serem fotografados ou filmados enquanto permaneciam na lancha. A publicação também descreveu episódios ocorridos no interior da embarcação envolvendo o senador e algumas das mulheres.
Esses relatos integram a reconstrução jornalística, mas não constituem, isoladamente, evidência de prática criminosa. A atividade sexual remunerada entre adultos, quando voluntária, não é crime no Brasil. O interesse público da reportagem está sobretudo na possível oferta de benefícios privados a uma autoridade política e nas relações dos organizadores com negócios dependentes de decisões governamentais.
O episódio central ocorreu, segundo a fonte entrevistada pela revista, pouco antes do encerramento da confraternização. Danilo Trento teria retirado um relógio Rolex de pulseira prateada que usava e colocado o acessório no pulso de Flávio Bolsonaro. Ainda conforme esse depoimento, o senador deixou a lancha com o relógio.
A piauí não apresentou uma conclusão pericial ou judicial que confirme a transferência de propriedade do acessório. Também não estabeleceu publicamente o modelo exato ou o valor do relógio descrito pela testemunha.
A distinção é importante porque outra investigação, publicada em setembro pelo jornalista Rodrigo Rangel, no PlatôBR, revelou informações sobre um Rolex Submariner Date de ouro branco, avaliado em R$ 305 mil, cuja compra teria sido realizada pelo advogado Alan Belaciano para Flávio Bolsonaro.
São episódios apresentados por fontes diferentes. Até o momento, não está demonstrado que se trate do mesmo relógio.
Na reportagem de setembro, mensagens e uma nota fiscal foram utilizadas para investigar o possível recebimento do presente. Flávio apresentou anteriormente explicações sobre despesas pessoais custeadas por pessoas próximas, incluindo a alegação de que determinadas compras decorreram de empréstimos particulares.
Essas explicações, contudo, não esclarecem automaticamente o episódio específico relatado agora pela piauí.
As relações com a Precisa e a investigação da CPI da Pandemia
A importância do passeio de julho de 2020 não decorre apenas do relato sobre o relógio. Os empresários envolvidos passaram a ocupar posição central nas investigações sobre a aquisição da Covaxin pelo governo Bolsonaro.
A Precisa Medicamentos atuava como intermediária nas negociações relacionadas ao imunizante desenvolvido pela Bharat Biotech. O contrato posteriormente discutido com o Ministério da Saúde previa a compra de doses por valor superior ao de algumas propostas apresentadas por outros fabricantes.
O negócio tornou-se alvo de questionamentos sobre procedimentos administrativos, documentação e possíveis irregularidades na negociação.
A controvérsia ganhou repercussão nacional depois que o servidor do Ministério da Saúde Luis Ricardo Miranda relatou pressões incomuns relacionadas à importação da vacina. Seu irmão, o então deputado federal Luis Miranda, também apresentou informações que levaram o caso ao centro dos trabalhos da CPI da Pandemia, instalada no Senado em 2021.
O contrato acabou interrompido, e o governo federal não realizou pagamentos pelas doses da Covaxin previstas naquela negociação.
Esse dado precisa ser destacado porque distingue suspeitas sobre irregularidades administrativas e possíveis tentativas de obtenção de vantagens da efetiva realização de pagamentos públicos.
Durante a CPI, parlamentares investigaram os contatos de Francisco Maximiano e Danilo Trento com integrantes do governo e com pessoas próximas à família Bolsonaro.
O senador Renan Calheiros questionou Maximiano sobre a possibilidade de Flávio Bolsonaro ter facilitado o acesso da Precisa ao alto escalão do Ministério da Saúde. O empresário negou essa hipótese.
Em outra pergunta, relacionada a possíveis contatos com o então primeiro-ministro indiano Narendra Modi, Maximiano preferiu permanecer em silêncio.
Danilo Trento reconheceu ter participado de eventos públicos nos quais Flávio Bolsonaro também esteve presente.
Naquele momento, entretanto, o encontro privado agora descrito pela piauí não havia sido publicamente esclarecido com o nível de detalhamento apresentado na nova reportagem.
Flávio também fez manifestações em defesa da atuação da Precisa durante os trabalhos da comissão. Em uma sessão com Emanuela Medrades, representante da empresa, elogiou o esforço de negociação do imunizante indiano e argumentou que não havia ocorrido prejuízo financeiro ao governo, uma vez que o contrato não resultara em desembolso pelos imunizantes.
Essas manifestações não constituem prova de que o senador tenha agido em troca de presentes. Entretanto, tornam relevante investigar a extensão de sua relação com empresários cujos interesses comerciais estavam sendo examinados pela CPI.
O relatório final da comissão recomendou o indiciamento de diversas pessoas, incluindo Flávio Bolsonaro, Danilo Trento e Francisco Maximiano. Uma recomendação de CPI não equivale a condenação criminal, pois o estabelecimento de responsabilidades depende da atuação das instituições competentes.
A nova reportagem acrescenta informações sobre encontros privados anteriores às investigações parlamentares e permite reexaminar a cronologia dos contatos entre os envolvidos.
Outro elemento relevante é a movimentação financeira da agência Barão Turismo. Segundo documentos examinados pela piauí, a empresa recebeu aproximadamente R$ 4 milhões de companhias vinculadas ao grupo econômico da Precisa em 2020.
Raphael Barão também participou da organização de viagens de representantes da empresa à Índia, relacionadas às negociações com a Bharat Biotech.
A existência de pagamentos por serviços de turismo ou logística não constitui, por si só, irregularidade. A relevância dos registros está na necessidade de esclarecer quais serviços foram efetivamente prestados, como foram contratados e se parte das despesas estava relacionada a benefícios oferecidos a autoridades públicas.
A investigação jornalística descreve uma estrutura de deslocamentos, hospedagem e eventos que merece exame contextualizado, especialmente diante da posição ocupada pelos participantes.
Reunião com o BNDES acrescenta outra dimensão aos contatos
Três meses depois do passeio relatado, em 20 de outubro de 2020, Flávio Bolsonaro participou de uma reunião virtual envolvendo empresários ligados a Francisco Maximiano e o então presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano.
O encontro tinha como objetivo discutir uma proposta de financiamento relacionada a uma empresa do setor de telecomunicações.
O próprio senador reconheceu ter solicitado a reunião, afirmando que pretendia permitir ao BNDES conhecer um projeto destinado a ampliar o acesso à internet nas regiões Norte e Nordeste.
Flávio negou manter relações comerciais ou financeiras com Maximiano.
O BNDES confirmou a realização de reuniões sobre o assunto e informou que nenhum financiamento foi contratado.
A informação é relevante porque demonstra uma atuação concreta do senador para viabilizar contato entre um empresário e a direção de uma instituição financeira pública.
Solicitar uma reunião institucional não é, isoladamente, crime. Parlamentares podem apresentar propostas e encaminhar demandas empresariais aos órgãos competentes, respeitadas as regras legais e administrativas.
A questão que precisa ser esclarecida é se existiu alguma relação entre essa atuação e benefícios privados eventualmente recebidos pelo senador.
A proximidade temporal entre o passeio de lancha e a reunião do BNDES não comprova essa relação. Entretanto, o conjunto de informações oferece uma linha objetiva de investigação sobre a natureza dos contatos mantidos entre Flávio e os empresários.
A piauí também destaca outras situações em que integrantes do setor empresarial estiveram próximos ao senador em viagens e eventos privados, incluindo deslocamentos para Las Vegas e Miami.
Esses episódios possuem circunstâncias próprias e não devem ser tratados automaticamente como integrantes de uma mesma operação ilícita.
O interesse jornalístico está em verificar se relações pessoais e vantagens privadas estiveram associadas a decisões públicas ou à facilitação de contatos institucionais.
Uma revelação que exige esclarecimentos documentais
A reportagem foi publicada na última semana antes do segundo turno presidencial de 25 de outubro, aumentando sua repercussão política. A proximidade da eleição, entretanto, não modifica o padrão de prova necessário para examinar as acusações.
A reconstrução apresentada pela piauí combina registros documentais de deslocamentos, informações produzidas durante as comissões parlamentares e depoimentos sobre acontecimentos privados.
Os dados sobre o jato, os horários dos voos, as relações empresariais e as reuniões institucionais permitem verificar aspectos importantes da cronologia.
Já o relato sobre a entrega do Rolex depende, no estágio das informações divulgadas, da testemunha ouvida pela revista e de eventuais elementos adicionais capazes de confirmar a transação.
Segundo a publicação, Flávio Bolsonaro foi procurado para comentar as revelações, mas não apresentou resposta até o fechamento da reportagem. Danilo Trento chegou a responder a uma mensagem dos jornalistas, mas interrompeu a comunicação após receber detalhes sobre os fatos investigados. Os representantes de Francisco Maximiano também não responderam dentro do prazo informado.
A ausência de manifestação não constitui reconhecimento das acusações.
O caso coloca uma questão central para a fiscalização das relações entre poder político e interesses privados: quais limites devem existir para presentes, hospitalidade, viagens e outros benefícios oferecidos a agentes públicos por empresários que mantêm interesses perante o Estado?
A resposta exige examinar as normas aplicáveis, o valor dos benefícios, o contexto de sua entrega e a eventual existência de contrapartidas.
No episódio relatado pela piauí, a relevância da apuração está na combinação entre um presente de luxo supostamente entregue a um senador, empresários interessados em contratos públicos e contatos institucionais posteriormente reconhecidos.
Nada disso autoriza afirmar, sem novas provas, que houve corrupção ou tráfico de influência. Também não elimina a necessidade de esclarecer os fatos apresentados pela investigação jornalística.
O contexto da pandemia torna o episódio especialmente significativo para a compreensão histórica daquele período. Em 17 de julho de 2020, o país registrou 1.110 novas mortes por Covid-19, segundo os dados utilizados pela revista. A crise sanitária exigia decisões urgentes sobre testes, equipamentos, vacinas e organização do sistema de saúde.
Foi nesse ambiente que empresários ligados à Precisa Medicamentos procuravam ampliar suas relações comerciais com o governo federal e, segundo a apuração, organizaram uma confraternização privada com a presença do filho do presidente.
Se confirmada a entrega do relógio, será necessário esclarecer sua finalidade, sua incorporação ao patrimônio do destinatário e eventual relação com interesses empresariais discutidos naquele período.
A investigação da piauí não encerra essas questões, mas apresenta informações específicas que justificam sua formulação.
Seis anos depois da pandemia, a documentação sobre os contatos entre autoridades e empresários continua relevante para compreender como foram conduzidas negociações em uma emergência de saúde pública que produziu centenas de milhares de mortes no Brasil.
O episódio não deve ser avaliado apenas por seus aspectos privados, mas sobretudo pela possibilidade de benefícios pessoais terem coexistido com interesses econômicos dependentes de decisões governamentais.
A distinção entre suspeita, documentação e responsabilidade comprovada permanece indispensável. É ela que permitirá estabelecer se os acontecimentos revelados correspondem a relações sociais e empresariais lícitas ou se envolvem condutas que exigem responsabilização perante as instituições competentes.


