Atitude Popular

“Fortaleza precisa reconhecer que já produz alimento”

Presidente da Fundação Cepema defende sistema municipal de agroecologia urbana como eixo estratégico do Plano Diretor e da segurança alimentar

Fortaleza precisa reconhecer que já produz alimento. A afirmação é do presidente da Fundação Cepema, Adalberto Alencar, durante entrevista ao programa Café com Democracia, da Rede de Comitês Populares pela Democracia, apresentado por Luiz Regadas na TV Atitude Popular. Ao longo da conversa, o dirigente detalhou o avanço da política municipal de agroecologia urbana incorporada ao Plano Diretor e apontou seus impactos sociais, ambientais e econômicos para a capital cearense.

Segundo Alencar, a cidade acumula experiências de agricultura urbana desde a gestão de Juraci Magalhães, passando por iniciativas mais estruturadas na administração de Luizianne Lins e projetos retomados posteriormente. No entanto, ele destaca que o marco decisivo ocorre agora, com a inclusão formal da política de agroecologia urbana no Plano Diretor.

“É a primeira vez que um programa de agroecologia urbana e um sistema de agroecologia urbana são discutidos e aprovados dentro do Plano Diretor. Isso é uma inovação”, afirmou.

Ele faz questão de diferenciar política e sistema. A política estabelece diretrizes e instrumentos legais. O sistema, por sua vez, prevê mapeamento, monitoramento, indicadores e diagnóstico técnico das áreas produtivas. “Fortaleza precisa urgentemente de um mapeamento detalhado de suas áreas para produção de alimentos, segurança e soberania alimentar”, reforçou.

Marco histórico e articulação institucional

Alencar lembra que o projeto Fortaleza 2040, coordenado por Eudoro Santana no Instituto de Planejamento de Fortaleza, já apontava a agricultura urbana como estratégica. O atual Plano Diretor incorporou esses estudos e avançou ao criar o Fundo Municipal de Agroecologia Urbana e Segurança Alimentar, além de integrar a política à Secretaria de Assistência Social.

Ele também relaciona a iniciativa local ao contexto nacional. “Hoje nós temos, no terceiro governo Lula, uma política nacional de agricultura urbana. O Brasil não tinha isso antes”, pontuou, ressaltando que a legislação federal passou a reconhecer o agricultor familiar urbano, permitindo acesso a assistência técnica, crédito via PRONAF e aposentadoria rural.

Agricultura urbana como resposta climática

A defesa da agroecologia urbana vai além da produção de hortaliças. Alencar conecta o tema à crise climática e aos impactos das chuvas extremas que têm atingido Fortaleza.

“Fortaleza é uma das cidades mais quentes do Brasil. A agricultura urbana reduz ilhas de calor, filtra a água, diminui a velocidade das enxurradas e ajuda a combater enchentes”, explicou.

Ele cita bairros como Henrique Jorge, Pirambu, Cidade Jardim e Conjunto José Euclides como territórios afetados pelo adensamento urbano e pela impermeabilização do solo. Para o presidente da Cepema, recuperar cinturões verdes, como o da região do Zé Walter, é estratégico para reduzir vulnerabilidades ambientais.

Produção já existente e invisibilizada

Um dos pontos centrais da entrevista foi a afirmação de que Fortaleza já possui produção agrícola significativa, embora pouco reconhecida. Regiões como Curió, Lagoa Redonda, Sabiaguaba e áreas próximas ao Eusébio concentram hortas comerciais que abastecem feiras, supermercados e até a Ceasa.

“Quando você faz um diagnóstico mais próximo, começa a ver que Fortaleza produz alimento”, disse Alencar.

Ele estima que mais de mil famílias estejam envolvidas diretamente na produção agrícola urbana. Além das hortas comerciais, há hortas sociais, quintais produtivos e forte protagonismo feminino na produção de ervas medicinais e alimentos.

Desafios técnicos e transição agroecológica

Apesar do avanço institucional, o dirigente reconhece desafios. Parte da produção ainda utiliza agrotóxicos e há problemas de contaminação do solo e da água em determinadas áreas.

“Ela não é orgânica. Boa parte dessas hortas ainda utiliza agrotóxico. Nós precisamos chegar com assistência técnica e promover a transição agroecológica”, afirmou.

A construção do sistema prevê parceria com a Universidade Federal do Ceará para estudos sobre solo, água, clima e mapeamento por meio de ortofotos e drones.

Ele também menciona possibilidades de inovação tecnológica, como produção vertical em ambientes controlados, uso de iluminação LED e cultivo em prédios urbanos, tendência já adotada em grandes centros internacionais.

Impactos sociais e econômicos

Para Alencar, a política tem três dimensões estruturantes: reconhecimento dos trabalhadores, educação ambiental e combate à insegurança alimentar.

“Não podemos ter crianças que não sabem de onde vem o alimento”, disse, ao defender a integração entre produção agrícola e formação cidadã.

A Secretaria de Assistência Social planeja implantar 400 sistemas produtivos na cidade, entre hortas comerciais e sociais, com apoio do governo estadual e possibilidade de financiamento por instituições como o Banco do Nordeste.

“É uma política estratégica para a economia, para o bem-estar e para o meio ambiente da cidade”, concluiu.

Ao final, o presidente da Fundação Cepema reforçou a importância da articulação entre poder público, universidades, terceiro setor e iniciativa privada para consolidar a agroecologia urbana como eixo estruturante do desenvolvimento de Fortaleza.


📺 Programa Café com Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 7h30 às 8h
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
💚 Apoie a comunicação popular!
📲 Pix: 33.829.340/0001-89

compartilhe: