Cúpula do Exército admite ampliar cooperação em inteligência e fronteiras num eventual governo Flávio Bolsonaro, mas oficiais ouvidos pelo UOL veem presença militar permanente norte-americana como risco à soberania
Da Redação
A possibilidade de ampliar a participação das Forças Armadas no combate às organizações criminosas entrou nas avaliações de integrantes da cúpula do Exército diante das propostas apresentadas por Flávio Bolsonaro para a segurança pública. Ao mesmo tempo, generais acompanham com preocupação a aproximação defendida pelo candidato com estruturas de segurança lideradas pelos Estados Unidos e rejeitam, no cenário mais extremo discutido internamente, a instalação de uma base militar norte-americana em território brasileiro.
As avaliações foram relatadas por cinco oficiais-generais ao jornalista Cézar Feitoza, do UOL. Elas não representam uma decisão formal das Forças Armadas nem significam que exista atualmente uma proposta concreta para instalar uma base dos Estados Unidos no Brasil. O que os militares fazem é trabalhar com cenários possíveis para a política de defesa e segurança caso Flávio vença o segundo turno.
A distinção é importante. Flávio Bolsonaro anunciou que pretende aproximar o Brasil do chamado Escudo das Américas, iniciativa regional liderada pelos Estados Unidos para ampliar a cooperação contra narcotráfico e organizações criminosas. Seu programa de governo também prevê maior emprego do Exército, Marinha e Aeronáutica na fiscalização das fronteiras. Nenhum desses documentos, entretanto, estabelece a criação de uma base militar norte-americana no país.
É a evolução da política de Washington para a América Latina que levou parte dos generais a incluir essa possibilidade entre os cenários analisados.
Segundo a apuração do UOL, o Alto Comando do Exército vem discutindo há cerca de dois anos como as Forças Armadas poderiam colaborar de maneira mais intensa no enfrentamento das facções. O comandante do Exército, general Tomás Paiva, está entre os defensores de maior integração com os órgãos de segurança pública, especialmente por meio de inteligência, equipamentos, monitoramento territorial e apoio tecnológico.
Isso não significa necessariamente recolocar grandes contingentes militares nas ruas.
Uma parte da cúpula considera que o combate cotidiano ao crime organizado deve continuar sob responsabilidade das polícias e das instituições de segurança pública. O papel militar seria mais concentrado nas áreas em que as Forças Armadas possuem capacidades específicas, principalmente fronteiras, inteligência, vigilância aérea, radares, logística e controle de áreas estratégicas.
A preocupação cresceu à medida que as principais facções brasileiras expandiram suas redes para além dos centros urbanos e passaram a operar de maneira integrada com estruturas transnacionais de narcotráfico.
O Centro de Inteligência do Exército acompanha essa transformação. Estimativas utilizadas nas análises militares citadas pela reportagem apontam que aproximadamente 300 toneladas de cocaína passam anualmente pelo território brasileiro em rotas que têm origem principalmente em países produtores como Colômbia, Peru e Bolívia.
O Brasil possui mais de 16 mil quilômetros de fronteira terrestre, extensão que atravessa regiões de floresta, rios, estradas clandestinas e áreas pouco povoadas. A vigilância desse território exige recursos que ultrapassam a capacidade de qualquer instituição isoladamente.
Plano de Flávio coloca militares nas fronteiras
O programa apresentado por Flávio Bolsonaro transforma essa questão numa das peças centrais de sua política de segurança.
O documento prevê a criação de um Sistema Nacional de Fronteira formado por unidades do Exército, Marinha e Aeronáutica equipadas com tecnologia, inteligência e armamentos militares. O objetivo declarado é construir uma barreira contra a entrada de drogas e armas utilizadas pelas organizações criminosas.
A proposta prevê também participação militar permanente no monitoramento de portos, aeroportos e corredores estratégicos.
É a partir desse programa que os generais ouvidos pelo UOL consideram provável uma ampliação da participação das Forças Armadas no combate ao crime organizado caso Flávio seja eleito.
A discussão coincide com outra mudança relevante no ambiente regional.
O governo dos Estados Unidos incluiu neste ano o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho em seu sistema de designações relacionadas ao terrorismo. Registros oficiais do Departamento do Tesouro norte-americano passaram a classificar as duas organizações como grupos terroristas estrangeiros dentro da legislação dos Estados Unidos.
Essa classificação produz efeitos jurídicos dentro da estrutura norte-americana de sanções, congelamento de ativos e cooperação internacional. Ela não altera automaticamente a classificação das facções na legislação brasileira, que depende das leis aprovadas pelo Congresso Nacional.
Flávio defende que o Brasil trate as grandes facções como estruturas narcoterroristas e já declarou intenção de integrar o país ao Escudo das Américas.
Nesta quinta-feira, durante conversa com o presidente colombiano Abelardo de la Espriella, o candidato voltou a dizer que pretende aderir à iniciativa caso seja eleito.
Para setores militares brasileiros, a cooperação internacional contra narcotráfico não é, por si só, um problema.
Segundo os oficiais ouvidos, um primeiro cenário — operações coordenadas entre Brasil e Estados Unidos na região de fronteira, sob comando brasileiro — seria compatível com modalidades de cooperação que já existem entre as Forças Armadas dos dois países.
Exercícios militares conjuntos são realizados há anos, incluindo operações em território brasileiro. Tropas estrangeiras participam mediante autorização e dentro de regras determinadas pelo governo brasileiro.
A preocupação aparece quando a cooperação deixa de ser temporária e passa a envolver presença estrangeira permanente.
Base dos EUA cruza linha considerada sensível pelos generais
O segundo cenário analisado internamente envolve a hipótese de uma base militar dos Estados Unidos no Brasil.
Nesse caso, a avaliação relatada por oficiais-generais muda de forma significativa. Uma instalação permanente de forças norte-americanas seria vista por eles como questão de soberania e autonomia estratégica.
Não há informação de que Flávio Bolsonaro tenha proposto oficialmente uma base dos Estados Unidos no país.
Também não existe anúncio do governo norte-americano sobre um projeto desse tipo para o Brasil.
O receio militar está ligado à combinação entre a aproximação política de Flávio com Donald Trump, a expansão das iniciativas norte-americanas de segurança na América Latina e discussões semelhantes ocorridas em outros países da região.
Há ainda um precedente brasileiro recente.
Em janeiro de 2019, Jair Bolsonaro admitiu publicamente discutir uma eventual base militar dos Estados Unidos em território nacional. A reação dentro das Forças Armadas foi negativa. Uma alta fonte militar afirmou na época à Reuters que a instituição era contrária à ideia por razões relacionadas à soberania brasileira.
O episódio terminou sem que a proposta avançasse.
Sete anos depois, a mesma questão reaparece nas análises de cenário feitas por generais, agora dentro de um ambiente continental diferente, marcado pela ampliação do discurso norte-americano que associa narcotráfico, terrorismo e segurança nacional.
A posição relatada pelos militares estabelece uma fronteira bastante clara: cooperação operacional, compartilhamento de inteligência e até exercícios conjuntos podem ser aceitos; uma estrutura militar estrangeira permanente é vista de outra forma.
Segurança e defesa se encontram na fronteira
A discussão revela também uma mudança no próprio conceito de segurança nacional.
Durante décadas, tráfico de drogas e facções foram tratados primordialmente como questões policiais. A expansão transnacional dessas organizações passou a aproximar segurança pública, defesa das fronteiras, lavagem internacional de dinheiro e soberania territorial.
É nesse ponto que cresce o envolvimento das Forças Armadas.
Os generais, entretanto, carregam experiências anteriores que produzem cautela. A intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro, em 2018, é frequentemente utilizada como referência interna.
Na avaliação relatada ao UOL, a operação permitiu mapear redes criminosas, identificar rotas e reduzir temporariamente determinadas atividades ilegais. O problema teria sido a ausência de continuidade depois que os militares deixaram a segurança estadual.
Essa experiência reforça entre oficiais a percepção de que operações militares isoladas não resolvem estruturas criminosas de longo prazo.
Facções não dependem apenas de homens armados em comunidades. Elas mantêm redes financeiras, conexões internacionais, empresas de fachada, operadores logísticos, controle de presídios, acesso a portos e relações com mercados ilegais que atravessam fronteiras.
Por isso, mesmo entre os militares que defendem uma participação maior das Forças Armadas, o debate não se resume ao envio de soldados.
Inteligência financeira, compartilhamento de informações, controle territorial, vigilância aérea e integração com Polícia Federal, Receita Federal e polícias estaduais aparecem como elementos essenciais.
A discussão que ocorre dentro do Exército também mostra que uma eventual aproximação maior com os Estados Unidos não seria automaticamente aceita sem restrições.
As relações militares entre os dois países permaneceram relativamente estáveis mesmo durante momentos de tensão diplomática entre Lula e Trump. Exercícios conjuntos e contatos institucionais continuaram acontecendo, segundo os oficiais ouvidos.
Essa estrutura permite cooperação sem significar subordinação.
É justamente essa diferença que aparece no debate interno atual. Para os generais citados pela reportagem, trabalhar conjuntamente no combate ao narcotráfico é uma coisa. Permitir que uma potência estrangeira estabeleça presença militar permanente dentro do território brasileiro é outra.
Assim, dois temas que avançam paralelamente na campanha começam a se encontrar: a proposta de Flávio Bolsonaro de utilizar mais intensamente as Forças Armadas contra as facções e sua aproximação com iniciativas regionais de segurança lideradas pelo governo Trump.
O primeiro encontra abertura entre setores da cúpula militar, principalmente quando envolve fronteiras, inteligência e tecnologia.
O segundo encontra um limite quando chega à possibilidade de presença militar estrangeira permanente.
Por enquanto, essa base não existe, não foi formalmente proposta pelo candidato e permanece apenas como hipótese examinada por oficiais em suas análises de conjuntura. Mas o fato de o tema já aparecer nas reuniões e avaliações de generais mostra que a relação entre combate ao crime organizado, política externa e soberania passou a fazer parte das questões que as Forças Armadas observam para o próximo governo.


