Atitude Popular

Governo Lula prepara crédito para médias empresas endividadas

Da Redação

Nova linha de crédito com garantias públicas e uso de fundos como o FGTS mira empresas com faturamento de até R$ 300 milhões, em resposta ao risco crescente de inadimplência e falências no Brasil.

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva avança em uma nova frente da política econômica ao preparar uma linha de crédito específica para médias empresas endividadas, ampliando o escopo das medidas que até então estavam concentradas nas famílias.

A proposta, em elaboração no Ministério da Fazenda, mira empresas com faturamento anual de até R$ 300 milhões e prevê o uso de garantias públicas para facilitar o acesso ao crédito em um ambiente ainda marcado por juros elevados e deterioração da capacidade de pagamento.

O núcleo da estratégia é claro: reduzir o risco para os bancos para, assim, reduzir o custo do crédito.

Para isso, o governo pretende utilizar mecanismos já conhecidos, como o Programa Emergencial de Acesso ao Crédito (PEAC), combinado com o Fundo Garantidor de Investimentos (FGI), administrado pelo BNDES. Esses instrumentos funcionam como uma espécie de “seguro público”, cobrindo parte das perdas em caso de inadimplência e incentivando instituições financeiras a emprestar com taxas mais baixas.

Na prática, trata-se de uma reedição, em escala ampliada, do modelo utilizado durante a pandemia e também no programa Desenrola, que atuou sobre o endividamento das famílias.

Mas o contexto agora é diferente.

O problema deixou de ser apenas social e passou a ser produtivo.

O Banco Central já vem alertando para o aumento do risco de crédito entre micro, pequenas e médias empresas, destacando que o ambiente de juros elevados, hoje em torno de 14,75% ao ano, combinado com alto endividamento, tem pressionado a capacidade de pagamento das companhias.

Isso significa que o risco não é apenas individual.

É sistêmico.

Se empresas começam a quebrar em cadeia, o impacto se espalha rapidamente por emprego, renda, arrecadação e crescimento econômico.

É exatamente esse cenário que o governo tenta evitar.

A nova linha de crédito surge, portanto, como instrumento de contenção de crise. A ideia é oferecer condições mais favoráveis para que empresas consigam rolar dívidas, reorganizar fluxo de caixa e evitar insolvência.

Outro ponto relevante em discussão é o uso de recursos do FGTS como parte da engenharia financeira do programa. A proposta ainda está em avaliação, mas indica um movimento mais amplo de mobilização de fundos públicos para sustentar o sistema de crédito em um momento de pressão.

Além disso, o plano não é isolado.

Ele faz parte de uma estratégia maior que inclui renegociação de dívidas de famílias, uso de garantias da União e até a mobilização de recursos esquecidos no sistema financeiro para alimentar fundos garantidores.

Há, portanto, uma mudança de escala.

O governo passa a atuar simultaneamente em três frentes: famílias, pequenas empresas e agora médias empresas.

Mas há limites claros.

Especialistas apontam que programas baseados em garantias públicas funcionam bem no curto prazo, mas não resolvem o problema estrutural do crédito caro no Brasil. Sem redução consistente da taxa de juros e sem mudanças no sistema financeiro, o risco de reincidência do endividamento permanece alto.

Além disso, há um risco fiscal.

O uso de fundos públicos como garantia implica exposição do Estado a possíveis calotes, o que pode pressionar as contas públicas caso a inadimplência avance.

Ainda assim, o governo parece disposto a assumir esse risco.

O cálculo político e econômico é direto: evitar uma onda de falências em ano eleitoral e preservar o nível de atividade econômica.

No fundo, o movimento revela um diagnóstico mais profundo.

O Brasil não enfrenta apenas um problema de consumo travado.

Enfrenta um problema de crédito travado.

E quando o crédito trava, trava a economia como um todo.

A nova linha para médias empresas é, portanto, mais do que uma medida setorial.

É uma tentativa de impedir que o sistema produtivo entre em colapso silencioso — algo que, se acontecer, não aparece apenas nos balanços.

Aparece no desemprego, na renda e, inevitavelmente, nas urnas.