Da Redação
Presidente da Câmara afirma que proposta para reduzir jornada de trabalho é uma pauta “humana” e de “defesa da família brasileira”, enquanto governo Lula intensifica apoio ao fim da escala 6×1.
O debate sobre a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 entrou definitivamente no centro da disputa política brasileira. Neste domingo, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, afirmou que pretende aprovar ainda em maio a chamada PEC 6×1, proposta que reduz a jornada semanal e amplia o tempo de descanso dos trabalhadores brasileiros. Ao defender a medida, Motta classificou o projeto como uma pauta “humana” e de “defesa da família brasileira”.
A declaração ocorreu no Dia das Mães e veio acompanhada de forte apelo emocional. Hugo Motta compartilhou nas redes sociais o vídeo de Maria Luísa, jovem que viralizou ao relatar a rotina exaustiva da mãe solo que acorda às 5h da manhã para trabalhar e sustentar a família. O presidente da Câmara associou diretamente a realidade de milhares de mães trabalhadoras à necessidade de mudança na legislação trabalhista brasileira.
Segundo Motta, a aprovação da PEC pode representar uma transformação histórica na vida cotidiana da população trabalhadora. “As mães vão ter mais tempo para ficar com os filhos. É uma pauta de defesa da família brasileira”, afirmou o parlamentar.
A proposta que vem sendo chamada popularmente de “PEC 6×1” reúne diferentes iniciativas legislativas em tramitação na Câmara. Entre elas estão a PEC 221/2019, do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), e a PEC 8/2025, apresentada pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP). Ambas buscam alterar o modelo tradicional da jornada semanal brasileira, hoje estruturado principalmente em torno da escala 6×1 — seis dias de trabalho para um dia de descanso.
O debate ganhou força nos últimos meses por combinar elementos econômicos, sociais e políticos. Para os defensores da proposta, a redução da jornada representa não apenas melhora das condições de trabalho, mas também uma resposta à crise contemporânea de saúde mental, exaustão laboral e deterioração das relações familiares causada pelo excesso de trabalho e pelo tempo reduzido de convivência social.
O governo Lula passou a apoiar abertamente a pauta. O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, vem defendendo publicamente a redução da jornada para 40 horas semanais com dois dias de descanso remunerado, sem redução salarial. Em audiências públicas realizadas recentemente na Paraíba, o ministro afirmou que o Brasil “já poderia estar trabalhando há muitos anos com jornada de 40 horas”.
Segundo Luiz Marinho, experiências nacionais e internacionais demonstram que jornadas menores podem aumentar produtividade, reduzir absenteísmo, diminuir acidentes de trabalho e melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores. O ministro citou ainda exemplos de empresas brasileiras que já abandonaram a escala 6×1 e passaram a operar no modelo 5×2 com resultados considerados positivos.
O tema também se conecta a uma transformação mais ampla no debate global sobre trabalho. Diversos países passaram a discutir redução da jornada semanal diante das mudanças tecnológicas, da automação e da crescente preocupação com saúde mental. Chile, Colômbia, México e países europeus vêm implementando gradualmente modelos de redução de jornada.
No Brasil, a pauta possui enorme impacto político porque atinge diretamente milhões de trabalhadores do comércio, serviços, logística, supermercados, call centers, restaurantes e setores urbanos que operam historicamente em jornadas intensas e escalas desgastantes.
O apoio público de Hugo Motta chama atenção por vários motivos. Primeiro porque ele preside uma Câmara extremamente fragmentada politicamente. Segundo porque Motta pertence ao Republicanos, partido ligado ao Centrão e tradicionalmente associado a posições mais conservadoras em pautas econômicas. E terceiro porque o presidente da Câmara construiu sua trajetória política apoiando medidas liberais importantes nos últimos anos, como a reforma trabalhista e o teto de gastos durante o governo Michel Temer.
Isso faz com que sua defesa da PEC 6×1 represente uma inflexão política relevante dentro do Congresso Nacional. Nos bastidores, parlamentares avaliam que Motta percebeu o enorme potencial de popularidade da pauta junto à população trabalhadora, especialmente em um momento de crescente debate sobre qualidade de vida, burnout e precarização do trabalho.
A Câmara já instalou comissão especial para discutir o tema. Hugo Motta indicou o deputado Alencar Santana, do PT de São Paulo, para presidir o colegiado, enquanto a relatoria ficou com Léo Prates, do Republicanos da Bahia. A composição demonstra tentativa de construir acordo transversal entre diferentes setores políticos para acelerar a tramitação da proposta.
A previsão é que o relatório final seja apresentado ainda neste mês. Segundo o cronograma divulgado pelo Ministério do Trabalho, a comissão especial deve votar o texto até 26 de maio, com expectativa de envio ao plenário da Câmara logo em seguida.
Mas a proposta enfrenta resistência importante do empresariado e de setores econômicos ligados ao comércio e aos serviços. Entidades patronais argumentam que mudanças bruscas na jornada poderiam elevar custos trabalhistas, pressionar preços e afetar produtividade em determinados segmentos da economia.
Os defensores da PEC respondem afirmando que a redução da jornada já é tendência internacional e que o modelo atual de trabalho produz custos ocultos elevados, como adoecimento mental, alta rotatividade, absenteísmo e queda de produtividade causada pela exaustão física e emocional dos trabalhadores.
A disputa em torno da PEC 6×1 revela algo ainda maior sobre o Brasil contemporâneo: o retorno da centralidade do debate trabalhista na política nacional. Após anos em que temas econômicos foram dominados quase exclusivamente por agendas de austeridade fiscal e flexibilização de direitos, a redução da jornada recoloca a discussão sobre qualidade de vida, tempo livre e direitos sociais no centro do debate político brasileiro.
A pauta também possui enorme potencial eleitoral para 2026. O governo Lula percebe que temas ligados ao trabalho, renda e qualidade de vida podem funcionar como importantes instrumentos de mobilização popular diante do avanço da extrema-direita e do desgaste produzido pela polarização política permanente.
Ao associar a PEC à “defesa da família brasileira”, Hugo Motta tenta inclusive disputar narrativas tradicionalmente monopolizadas pelo conservadorismo. Em vez de utilizar o conceito de família apenas em pautas morais, o presidente da Câmara procura vinculá-lo às condições concretas de vida da população trabalhadora — especialmente mães que enfrentam jornadas exaustivas e pouco tempo de convivência com os filhos.
Essa disputa simbólica ajuda a explicar por que o tema ganhou tanta força nas últimas semanas. O debate sobre o fim da escala 6×1 deixou de ser apenas uma discussão técnica sobre legislação trabalhista. Transformou-se em uma batalha mais ampla sobre tempo, qualidade de vida, saúde mental, produtividade e o próprio significado do trabalho no capitalismo contemporâneo.
O fato de o presidente da Câmara assumir protagonismo direto na defesa da pauta mostra que o Congresso percebeu o potencial social e político da proposta. Agora, a grande questão será saber se haverá força suficiente para enfrentar a resistência empresarial e transformar o debate em mudança concreta na legislação brasileira.
Caso seja aprovada, a PEC poderá representar uma das maiores transformações nas relações de trabalho do país desde a Constituição de 1988. E marcará uma nova etapa da disputa política brasileira: a disputa sobre quem controla o tempo de vida da população trabalhadora no século XXI.
