Da Redação
Israel aprovou recentemente um dos maiores aumentos já registrados em seu orçamento de propaganda estrangeira, com o objetivo explícito de reverter a crescente condenação global à devastação de Gaza e às violações sistemáticas de direitos humanos contra o povo palestino. A decisão reflete o isolamento político crescente do país e a tentativa do governo de Benjamin Netanyahu de controlar a narrativa internacional em um momento em que organizações humanitárias, especialistas jurídicos e países de todo o mundo denunciam abertamente a prática de genocídio, limpeza étnica e crimes de guerra.
A ampliação do orçamento destina milhões a campanhas de relações públicas, manipulação digital, contratação de agências internacionais de comunicação e financiamento de influenciadores estrangeiros. Trata-se de uma operação organizada, centralizada e profissionalizada cujo objetivo é moldar percepções, silenciar críticas e fabricar uma imagem internacional positiva de um Estado acusado diariamente de atrocidades contra civis, mulheres e crianças.
Estratégias de propaganda: manipulação, desinformação e guerra psicológica
O investimento não se limita à publicidade tradicional. Ele inclui técnicas modernas de guerra informacional, estruturadas nos seguintes eixos:
- Campanhas digitais direcionadas para minimizar ou distorcer denúncias de crimes contra civis palestinos.
- Produção de conteúdos audiovisuais destinados a criar a impressão de que Gaza é bombardeada por “necessidade defensiva”, e não como parte de um projeto político-militar de extermínio.
- Financiamento de influenciadores internacionais, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, treinados para difundir pontos de vista pró-Israel em redes sociais.
- Pressão e lobby sobre veículos de imprensa, universidades e centros de pesquisa para neutralizar críticas, influenciar editoriais e moldar debates acadêmicos.
- Operações de contra-informação, que incluem desacreditação de jornalistas, ativistas, socorristas e agências humanitárias que registram a destruição em Gaza.
Essa arquitetura de propaganda não é improvisada. Ela reflete uma política histórica israelense conhecida como “hasbara”, um sistema de comunicação estatal que opera há décadas, mas que agora é remodelado para atuar em escala massiva, com linguagem profissional de marketing, tecnologias de segmentação de público e apoio de empresas privadas de tecnologia.
O alvo: o público global, parlamentos e organismos multilaterais
O aumento abrupto desse orçamento revela a preocupação de Israel com o colapso de sua imagem internacional. Diversas pesquisas recentes mostram que a opinião pública mundial — inclusive em países tradicionalmente aliados — passou a ver Israel como responsável por violações gravíssimas de direito internacional.
A estratégia do governo é inverter essa tendência e garantir:
- proteção política nos Estados Unidos e na Europa;
- retardamento ou bloqueio de resoluções internacionais que peçam sanções;
- apoio contínuo de governos alinhados;
- neutralização de movimentos de solidariedade que pressionam pela autodeterminação palestina.
Israel sabe que perdeu a batalha moral diante do mundo. Resta-lhe, portanto, tentar vencer uma batalha artificial, travada em plataformas digitais, gabinetes diplomáticos e redações.
Críticas internacionais: propaganda como arma de guerra
Organizações humanitárias e especialistas em direitos humanos denunciam que Israel utiliza propaganda estatal como extensão da guerra militar. O objetivo, segundo esses analistas, é apagar as evidências do genocídio, promover revisionismo histórico e fabricar um ambiente de desinformação que dificulte responsabilizações internacionais.
A propaganda funciona como parte essencial de um mecanismo de guerra psicológica, com efeitos diretos sobre:
- a memória coletiva do conflito;
- a percepção de legitimidade das operações militares;
- o silenciamento das vítimas;
- a naturalização da violência contra palestinos.
Em outras palavras, bombardear Gaza e bombardear a verdade fazem parte de uma mesma estratégia.
O impacto para o Sul Global
A expansão dessa máquina de propaganda não é apenas um problema local. Ela repercute globalmente, especialmente no Sul Global, onde países enfrentam pressões, coerções diplomáticas e tentativas de manipulação informacional para que se alinhem politicamente a Israel ou, no mínimo, abandonem críticas ao genocídio.
O que está em jogo é mais do que a reputação de um Estado:
é a possibilidade de que potências militares utilizem campanhas massivas de desinformação para legitimar ocupações, massacres e violações do direito internacional sem enfrentar consequências.
Além disso, a operação israelense estabelece precedentes perigosos: outros países podem adotar a mesma lógica, usando propaganda para neutralizar denúncias de violações e manipular debates públicos.
Uma guerra pela narrativa e pela memória
Israel não busca apenas influenciar o presente. Busca também controlar o futuro, impedindo que a narrativa do genocídio palestino se consolide como memória histórica incontestável. A propaganda, nesse sentido, torna-se arma de apagamento e de reescrita da história — algo já denunciado por sobreviventes, historiadores e organizações internacionais.
O aumento do orçamento estatal demonstra que Israel teme a força dos fatos. A realidade — corpos, hospitais destruídos, bairros arrasados, fome, cerco humanitário — é impossível de esconder. Resta à propaganda tentar criar sombras, distorções, neblinas.
Mas a verdade, documentada diariamente por jornalistas independentes, organizações humanitárias e pelo próprio povo palestino, segue viva. A despeito da máquina estatal, há uma resistência informacional global que não se deixa calar.






