Da Redação
Documentos e investigações jornalísticas revelam uma nova fronteira da guerra informacional: empresas contratadas pelo governo israelense produzem e distribuem conteúdos destinados não apenas ao público humano, mas também a ocupar o ambiente digital consultado por sistemas como ChatGPT, Gemini, Claude e Perplexity
A guerra pela narrativa de Gaza está entrando em uma fase nova e potencialmente muito mais profunda. Depois das campanhas nas redes sociais, do uso de influenciadores, da publicidade direcionada e das tradicionais operações de relações públicas, o governo de Israel passou a investir em uma estratégia que procura alcançar também os sistemas de inteligência artificial utilizados diariamente por milhões de pessoas para buscar informações e compreender acontecimentos internacionais. A lógica é relativamente simples, embora suas consequências sejam enormes: se as inteligências artificiais consultam, recuperam e processam informações disponíveis na internet, então modificar o ambiente informacional encontrado por essas máquinas pode se transformar em uma nova maneira de disputar aquilo que elas apresentam aos usuários.
A reportagem publicada pela RT neste domingo (16) chama atenção justamente para essa transformação. O ponto central, porém, precisa ser apresentado com precisão. Israel não comprou o ChatGPT, não possui um acordo com a OpenAI para tornar suas respostas favoráveis ao governo israelense e não existe evidência de que autoridades israelenses possam entrar diretamente nos sistemas da empresa e determinar aquilo que eles responderão. O mecanismo documentado é indireto e, justamente por isso, talvez seja mais importante: produzir uma grande quantidade de conteúdo digital favorável às narrativas israelenses, trabalhar para que esse material conquiste visibilidade na internet e aumentar as possibilidades de que mecanismos de busca e sistemas de inteligência artificial o encontrem quando forem consultados sobre Israel, Palestina e Gaza.
No centro dessa estratégia aparece a Clock Tower X, empresa comandada por Brad Parscale, conhecido por sua participação nas campanhas eleitorais de Donald Trump. Investigações publicadas pelo Drop Site News apontam a existência de uma operação de comunicação ligada ao governo israelense cujo valor acumulado pode alcançar dezenas de milhões de dólares. A estrutura inclui produção de artigos, páginas digitais, distribuição de conteúdos e técnicas destinadas a ampliar sua presença nos ambientes pelos quais circula a informação na internet.
É justamente aqui que a história deixa de ser apenas mais um episódio de propaganda governamental. Alguns dos sites identificados pelas investigações possuem audiência humana muito pequena. Em uma campanha tradicional, isso seria um sinal de fracasso: se poucas pessoas acessam uma página, por que continuar produzindo centenas de textos nela? A resposta pode estar no fato de que, na nova arquitetura da comunicação digital, seres humanos não são os únicos leitores relevantes. Robôs de busca, indexadores, sistemas de recuperação de informações e ferramentas conectadas a inteligências artificiais também percorrem o ambiente digital.
Em outras palavras, a propaganda começa a ser produzida não apenas para convencer pessoas, mas também para ser encontrada por máquinas.
Esse fenômeno pode ser entendido como uma evolução do velho SEO, a otimização para mecanismos de busca. Durante mais de duas décadas, empresas, governos, veículos de comunicação e profissionais de marketing aprenderam a organizar páginas para aumentar suas chances de aparecer entre os primeiros resultados do Google. Palavras-chave, links, autoridade de domínio, estrutura de textos e inúmeros outros fatores deram origem a uma indústria bilionária dedicada a conquistar a atenção dos algoritmos.
A expansão das inteligências artificiais generativas acrescenta uma nova camada a essa disputa. Já não basta aparecer na primeira página de um mecanismo de busca. Passa a existir interesse em fazer com que determinada informação seja encontrada, reconhecida e eventualmente utilizada por sistemas capazes de produzir respostas completas para os usuários.
A diferença parece pequena, mas é gigantesca.
Quando alguém acessa um jornal, normalmente sabe qual veículo está lendo. Quando vê uma publicidade política nas redes sociais, pode identificar que está diante de uma peça de campanha. Mesmo nos mecanismos tradicionais de busca, o usuário recebe diferentes links e pode comparar versões antes de formar sua opinião. Nas inteligências artificiais conversacionais, porém, toda essa diversidade pode chegar ao usuário condensada em uma única resposta, escrita de maneira organizada, coerente e aparentemente neutra.
É justamente por isso que influenciar o ambiente informacional consultado pelas máquinas pode se transformar em um dos instrumentos mais sofisticados da propaganda contemporânea.
No caso de Gaza, essa disputa possui importância ainda maior porque Israel enfrenta uma profunda batalha internacional de opinião pública. A devastação do território palestino, o número de mortos, a situação humanitária e as acusações apresentadas contra o governo israelense provocaram uma deterioração de sua imagem em diferentes segmentos das sociedades ocidentais, particularmente entre jovens e movimentos universitários. A guerra deixou de ser disputada apenas militarmente e passou a produzir um conflito permanente sobre linguagem, enquadramento e interpretação.
Termos como “terrorismo”, “resistência”, “ocupação”, “autodefesa”, “genocídio”, “crime de guerra” e “segurança” carregam consequências políticas enormes. A escolha de uma palavra pode alterar completamente a maneira como determinado acontecimento é compreendido.
É nesse ambiente que a tentativa de ocupar o espaço informacional das inteligências artificiais adquire significado estratégico.
As investigações encontraram conteúdos dedicados justamente a alguns dos temas mais sensíveis do conflito, incluindo vítimas civis, jornalistas, Hamas, atuação militar israelense e relações entre Israel e Estados Unidos. Não significa que todos esses textos contenham necessariamente informações falsas. Uma operação de influência não precisa funcionar exclusivamente por meio da fabricação de mentiras. Ela pode operar pela seleção sistemática de fatos, repetição de determinados enquadramentos, ocultação de outros elementos e multiplicação artificial de uma interpretação até que ela pareça predominante no ambiente digital.
Essa distinção é fundamental para compreender a propaganda contemporânea.
A manipulação informacional mais eficiente nem sempre inventa uma realidade completamente falsa. Muitas vezes, ela reorganiza a realidade disponível, aumenta a visibilidade de determinados elementos e diminui a de outros. Quando isso ocorre em grande escala, a quantidade de páginas repetindo determinada interpretação pode produzir uma impressão artificial de consenso.
Imagine, por exemplo, que cem sites aparentemente diferentes apresentem praticamente a mesma versão de determinado acontecimento. Para um pesquisador humano cuidadoso, ainda seria possível investigar quem controla essas páginas, quem as financia, quando foram criadas e quais relações existem entre elas. Para um sistema automatizado que percorre milhões de documentos, identificar que cem fontes aparentemente independentes pertencem, na realidade, à mesma operação coordenada é um desafio tecnológico muito mais complexo.
É aí que está o problema.
Não basta que uma inteligência artificial saiba diferenciar uma afirmação verdadeira de uma falsa. Ela também precisa ser capaz de perceber quando o próprio ecossistema de informações ao seu redor foi artificialmente construído.
E esse desafio não diz respeito apenas a Israel.
Gaza pode estar antecipando uma nova era da propaganda
Seria um erro imaginar que governos israelenses serão os únicos interessados nessa possibilidade. Se uma estratégia destinada a influenciar o ambiente informacional das inteligências artificiais demonstrar alguma eficácia, Estados, partidos políticos, corporações, serviços de inteligência, grupos econômicos e organizações ideológicas de diferentes países terão enormes incentivos para desenvolver métodos semelhantes.
A própria OpenAI já identificou operações de influência que utilizavam ferramentas de inteligência artificial para produzir conteúdos políticos. Em 2024, por exemplo, a empresa informou ter interrompido uma operação originada em Israel, denominada “Zero Zeno”, que utilizava modelos de IA para gerar artigos e comentários sobre Gaza e outros temas. Também foram identificadas operações associadas a outros países, incluindo Irã, Rússia e China. Esses casos são diferentes da atual estratégia envolvendo a Clock Tower X, mas revelam a rapidez com que as tecnologias generativas foram incorporadas às disputas informacionais internacionais.
O movimento acontece, portanto, nas duas direções. Inteligências artificiais podem ser utilizadas para produzir propaganda destinada aos seres humanos. Ao mesmo tempo, seres humanos podem produzir conteúdo destinado a influenciar as informações encontradas pelas inteligências artificiais.
Essa segunda dimensão talvez seja a mais importante no longo prazo.
Milhões de pessoas já começaram a modificar seus hábitos de pesquisa. Em vez de abrir dez páginas diferentes, comparar informações e construir uma síntese própria, perguntam diretamente a um chatbot. Quanto mais esse comportamento crescer, maior será o poder das empresas que controlam esses sistemas e maior será também o interesse político e econômico em influenciar as informações que chegam até eles.
Isso cria uma nova desigualdade.
Produzir milhares de páginas, contratar especialistas em otimização, distribuir conteúdos internacionalmente, monitorar respostas de diferentes modelos e modificar continuamente uma campanha exige dinheiro, infraestrutura e conhecimento tecnológico. Estados poderosos e grandes corporações possuem esses recursos. Pequenos veículos de comunicação, movimentos sociais, pesquisadores independentes e populações diretamente atingidas por guerras frequentemente não possuem.
A desigualdade que já existe no sistema mundial de comunicação pode, assim, ser reproduzida dentro das inteligências artificiais.
Com uma diferença particularmente perigosa: ela pode aparecer diante do usuário como uma resposta produzida por uma máquina aparentemente desinteressada.
Por isso, a transparência sobre fontes passa a ser uma questão central. Quanto mais as inteligências artificiais assumirem o papel de intermediárias entre os acontecimentos e a população, maior será a necessidade de que os usuários possam compreender de onde vêm determinadas informações e quais documentos sustentam determinadas afirmações.
O desafio não é simples. Uma inteligência artificial precisa lidar simultaneamente com governos, jornais, universidades, empresas, organizações internacionais, redes sociais, documentos oficiais, propaganda, desinformação e bilhões de páginas produzidas por indivíduos. Dentro desse universo, distinguir informação genuinamente independente de uma rede coordenada criada para produzir artificialmente relevância será uma das grandes batalhas tecnológicas dos próximos anos.
É importante, entretanto, não transformar uma tentativa de influência em prova de sucesso.
A existência de uma campanha destinada a influenciar respostas de inteligências artificiais não demonstra automaticamente que ChatGPT, Gemini, Claude ou qualquer outro sistema tenham sido efetivamente modificados pela operação. Modelos são atualizados, mecanismos de busca mudam, diferentes fontes recebem pesos diferentes e as respostas podem variar conforme o contexto, a formulação da pergunta e a arquitetura utilizada por cada empresa.
Da mesma forma, não existe evidência de que a OpenAI tenha firmado qualquer acordo com Israel para modificar as respostas do ChatGPT em favor do governo israelense. Pelo contrário, a empresa mantém políticas contra operações coordenadas de influência e já divulgou publicamente ações tomadas para interromper redes que utilizavam seus modelos para esse tipo de atividade.
Essa precisão é importante porque o fenômeno real já é suficientemente grave sem necessidade de exagerá-lo.
Israel não precisa controlar diretamente uma inteligência artificial para tentar influenciá-la. Basta reconhecer que essas máquinas dependem de um ambiente informacional e procurar alterar esse ambiente.
É justamente essa mudança que transforma o caso numa questão muito maior do que a comunicação israelense sobre Gaza.
Durante o século XX, governos disputaram jornais, rádios e emissoras de televisão. Com a chegada da internet, aprenderam a disputar mecanismos de busca. Depois vieram Facebook, YouTube, Instagram, TikTok e X, e a batalha passou a envolver algoritmos capazes de determinar aquilo que bilhões de pessoas veriam em suas telas.
Agora surge outra etapa.
A disputa passa a alcançar as máquinas que não apenas selecionam informação, mas a reorganizam, interpretam e apresentam em linguagem humana.
Durante anos, a pergunta central sobre propaganda digital foi: quem controla aquilo que aparece diante dos nossos olhos?
Na era da inteligência artificial, surge uma pergunta ainda mais profunda: quem influencia as máquinas às quais estamos entregando a tarefa de explicar o mundo?
É nesse sentido que Gaza pode estar funcionando como laboratório de uma transformação global. O conflito continua sendo travado com aviões, drones, mísseis e soldados, mas existe simultaneamente outra guerra acontecendo dentro das redes, bancos de dados, mecanismos de busca e sistemas de inteligência artificial.
Uma guerra pela construção da memória digital dos acontecimentos.
E talvez essa seja sua dimensão mais duradoura. Bombardeios terminam, governos mudam e conflitos eventualmente chegam ao fim. Mas os registros produzidos durante esses períodos permanecem circulando durante anos, alimentando pesquisas, arquivos, mecanismos de busca e sistemas automatizados.
Quem conseguir ocupar esse território informacional poderá influenciar não apenas a maneira como uma guerra é compreendida enquanto acontece, mas também a maneira como ela será lembrada depois.
A propaganda política, portanto, está deixando de disputar somente a atenção humana.
Ela começou a disputar também a matéria-prima daquilo que as máquinas aprenderão a nos contar sobre a realidade.


