Presidente interrompe roteiro do principal ato da campanha, admite falha da organização e chama a primeira-dama para representar o Pacto Brasil contra o Feminicídio
Da Redação
A Convenção Nacional do Partido dos Trabalhadores, realizada neste domingo (2), em São Paulo, foi organizada para oficializar a candidatura do Presidente Lula à reeleição e apresentar as diretrizes da campanha de 2026. Antes do início do ato político principal, a programação era conduzida pela deputada federal Benedita da Silva e por Camila Moreno, secretária nacional adjunta de Comunicação do PT, que entrevistavam convidados e interagiam com a militância enquanto lideranças chegavam ao Expo Center Norte.
As declarações reproduzidas nesta reportagem foram registradas na transmissão oficial da convenção. Benedita e Camila conduziram o aquecimento do evento, ministras, parlamentares e dirigentes participaram da programação e mulheres ocupavam diferentes espaços na organização. A ausência apontada mais tarde pelo Presidente Lula dizia respeito ao momento central da convenção: a sequência de discursos das principais lideranças nacionais.
Quando chegou ao palco, Lula começou sua fala elogiando a organização do encontro.
“Hoje é um dia que eu fui surpreendido com a grandiosidade e a criatividade, Edinho, de quem organizou esse evento.”
Logo em seguida, interrompeu o próprio discurso para fazer uma observação que alterou completamente o rumo da cerimônia.
“Agora, antes de eu falar, eu quero fazer uma crítica a mim”, disse, sob aplausos da plateia.
Na sequência, o presidente reconheceu publicamente que o principal ato político da campanha havia sido organizado sem reservar espaço para um pronunciamento feminino.
“Não é possível que a gente tenha esquecido, no principal evento da nossa campanha, não ter colocado uma mulher para falar.”
Lula explicou que Janja não fazia parte da programação oficial.
“Como a minha querida companheira Janja não estava no script, não está na agenda de ninguém, eu quero que ela, em nome das pessoas que participam do Pacto contra o Feminicídio, fale para as mulheres aqui.”
Até aquele momento, os discursos políticos haviam sido feitos exclusivamente por homens, entre eles Edinho Silva, Fernando Haddad e Geraldo Alckmin. A intervenção do Presidente Lula alterou o roteiro e transformou Janja na única mulher a discursar naquele segmento da convenção.
“A gente precisa estar todo dia se reafirmando”
Janja subiu ao palco sem preparação prévia e iniciou sua fala fazendo referência direta à condição que acabara de vivenciar.
“É difícil porque a gente precisa estar todo dia se reafirmando, né, mulherada? Todo dia.”
Em seguida, decidiu dirigir sua saudação exclusivamente às mulheres presentes.
“Eu vou saudar só as mulheres que estão aqui hoje. Só as mulheres.”
A abertura do discurso produziu um efeito que ultrapassou a pauta do combate ao feminicídio. A frase dialogava com a própria situação criada pela convenção. Em um evento organizado por um partido que historicamente defende a ampliação da participação feminina na política, a única fala de uma mulher no palco principal aconteceu apenas porque o candidato interrompeu a programação para reconhecer a falha.
O feminicídio como eixo da campanha
Convidada por Lula para representar o Pacto Brasil contra o Feminicídio, Janja concentrou sua intervenção na defesa das políticas públicas voltadas às mulheres.
“Eu tenho muito orgulho de caminhar ao seu lado nesses quatro anos, levando políticas públicas em que eu realmente acredito.”
Ela afirmou que sua atuação está vinculada às políticas implementadas pelo governo e não a iniciativas pessoais.
“Eu acredito que são as políticas públicas que transformam a realidade do país.”
A primeira-dama também destacou a incorporação do enfrentamento à violência contra as mulheres como uma prioridade do governo.
“Eu tenho muito orgulho de você ter abraçado uma causa pela qual nós, mulheres, já trabalhamos, lutamos e sofremos há muito tempo, que é o combate à violência contra as mulheres.”
Segundo Janja, o tema passou a integrar também a agenda internacional do Presidente Lula.
“Você é o único líder mundial que tem coragem de sentar numa mesa do G7, do G20, e falar sobre isso.”
A atuação de Janja no Pacto Brasil contra o Feminicídio já vinha sendo destacada pelo governo ao longo do ano. Ela participou da articulação da iniciativa e tem tratado o combate à violência de gênero como uma das principais frentes públicas de sua atuação como primeira-dama. ([Poder360][1])
Lula incorpora o tema ao próprio discurso
Depois da fala de Janja, Lula voltou ao microfone e retomou o tema da violência contra as mulheres.
“O cara vai ter que escolher: ou ele vota em mim ou ele bate na mulher. Se bater na mulher, não precisa votar em mim.”
O presidente também pediu que as mulheres denunciem seus agressores e afirmou que o governo ampliou mecanismos de proteção e legislação voltados ao enfrentamento da violência de gênero.
A imagem que marcou a convenção
A oficialização da candidatura de Lula teve discursos sobre economia, educação, indústria, defesa nacional e política internacional. No entanto, uma das cenas mais comentadas do evento aconteceu antes mesmo de o presidente apresentar suas propostas de campanha.
Depois de elogiar a organização da convenção, Lula reconheceu uma falha justamente no momento mais simbólico da cerimônia. O palco principal havia sido reservado apenas para homens.
A observação não diminuiu o papel desempenhado por Benedita da Silva e Camila Moreno durante a condução do pré evento nem a presença de ministras, parlamentares e dirigentes na convenção. O que o presidente apontou foi um problema específico: a ausência de mulheres entre os discursos das principais lideranças nacionais que antecederiam sua fala.
Ao chamar Janja ao palco, Lula corrigiu o roteiro diante do público. Ao iniciar seu pronunciamento dizendo que “a gente precisa estar todo dia se reafirmando”, a primeira-dama transformou a correção em um comentário sobre a própria dinâmica da política.

