Da Redação
Tóquio amplia gastos militares, incorpora mísseis de longo alcance e transforma sua indústria de defesa enquanto a disputa entre Estados Unidos e China redesenha o equilíbrio de forças no Indo-Pacífico.
O Japão está atravessando uma transformação militar que seria praticamente inimaginável poucas décadas atrás. O país que construiu sua identidade do pós-guerra sobre uma Constituição pacifista avança agora na implantação de mísseis capazes de atingir alvos a grandes distâncias, amplia sua indústria bélica, desenvolve sistemas hipersônicos e prepara outro orçamento recorde para suas Forças de Autodefesa. A mudança provoca crescente preocupação em Pequim e modifica silenciosamente o equilíbrio estratégico do Leste Asiático.
Não se trata simplesmente de comprar equipamentos mais modernos. O Japão está construindo uma capacidade militar qualitativamente diferente daquela mantida durante boa parte do período posterior à Segunda Guerra Mundial.
Durante décadas, a política japonesa esteve condicionada pelo artigo 9º de sua Constituição, que renuncia à guerra como instrumento para solucionar disputas internacionais. Embora o país tenha desenvolvido poderosas Forças de Autodefesa e mantenha uma aliança militar profunda com os Estados Unidos, sua doutrina permaneceu oficialmente orientada para a defesa do território.
Essa fronteira está sendo progressivamente reinterpretada.
A estratégia de segurança adotada por Tóquio em 2022 abriu caminho para aquilo que o governo japonês denomina “capacidade de contra-ataque”. Na prática, significa adquirir armas com alcance suficiente para atingir instalações militares localizadas muito além do arquipélago japonês. O programa de aproximadamente US$ 320 bilhões anunciado naquele momento representou o maior esforço de expansão militar do Japão desde 1945.
Entre as armas escolhidas estão os mísseis de cruzeiro Tomahawk adquiridos dos Estados Unidos e versões de alcance ampliado do míssil japonês Type 12. O país também investe em armas hipersônicas e sistemas lançados de terra, navios e aeronaves. A Mitsubishi Heavy Industries recebeu contratos bilionários justamente para desenvolver parte dessa nova arquitetura de mísseis.
A consequência estratégica é evidente: uma força concebida originalmente para defender as ilhas japonesas passa a possuir capacidade crescente de atacar instalações militares de um adversário antes mesmo que suas forças alcancem o território japonês.
É essa transformação que Pequim observa com preocupação.
A China associa o rearmamento japonês não apenas às disputas bilaterais entre os dois países, mas à estratégia mais ampla dos Estados Unidos para conter o crescimento do poder chinês no Indo-Pacífico. Washington, por sua vez, vem pressionando seus aliados asiáticos para ampliarem investimentos militares diante da expansão das capacidades chinesas. Em maio, o secretário de Defesa norte-americano, Pete Hegseth, voltou a pedir aos aliados asiáticos aumento dos gastos militares.
Tóquio rejeita a acusação de que esteja retornando ao militarismo. O ministro da Defesa, Shinjiro Koizumi, afirmou recentemente que a expansão militar japonesa constitui resposta à deterioração do ambiente de segurança regional e acusou a própria China de ampliar rapidamente suas forças sem transparência suficiente.
O problema é que as duas interpretações alimentam uma à outra.
Para o Japão, o crescimento militar chinês, os exercícios em torno de Taiwan, a modernização das forças nucleares chinesas e a atividade de navios e aeronaves do país nas proximidades do arquipélago justificam maior capacidade defensiva.
Para a China, o fortalecimento das forças japonesas, sua integração operacional com os Estados Unidos e a aquisição de armas de longo alcance constituem precisamente mais uma razão para reforçar suas próprias capacidades militares.
Forma-se o conhecido dilema de segurança: cada lado afirma estar aumentando sua força para responder ao outro, enquanto o adversário interpreta o movimento como preparação para uma eventual guerra.
A memória histórica torna esse processo particularmente explosivo.
China, Coreia e outros países asiáticos sofreram diretamente com o expansionismo do Império Japonês durante a primeira metade do século XX. A ocupação japonesa da China e as atrocidades cometidas durante aquele período permanecem profundamente presentes na memória política regional.
Por isso, qualquer transformação da política militar japonesa possui significado muito diferente em Pequim ou Pyongyang daquele atribuído por Washington.
A Coreia do Norte também passou a atacar duramente a nova estratégia japonesa. Nesta semana, Pyongyang classificou o Livro Branco de Defesa de 2026 como expressão de uma mentalidade de “reinvasão” e criticou particularmente os testes japoneses com Tomahawks.
O Japão responde que o ambiente estratégico também mudou radicalmente desde 1945. Hoje, o país está geograficamente cercado por três potências nucleares — China, Rússia e Coreia do Norte — e mantém disputas territoriais ou fortes divergências de segurança com todas elas.
A guerra da Ucrânia reforçou ainda mais essa percepção entre as elites japonesas. Para Tóquio, a invasão russa demonstrou que grandes guerras convencionais entre Estados continuam possíveis e que depender exclusivamente da capacidade norte-americana de dissuasão pode representar um risco.
É aí que aparece uma segunda transformação, menos visível, mas talvez tão importante quanto os mísseis: a reconstrução da indústria militar japonesa.
O governo começou a apresentar os gastos em defesa também como instrumento de política industrial. O Livro Branco de Defesa divulgado neste mês sustenta que tecnologias militares e produção de armamentos podem gerar inovação, empregos e crescimento econômico.
Isso representa uma ruptura importante com o modelo construído no pós-guerra.
Durante décadas, o extraordinário poder industrial japonês esteve concentrado fundamentalmente em automóveis, eletrônicos, máquinas, química, construção naval e outras atividades civis. Empresas japonesas possuíam capacidade tecnológica para produzir sistemas militares sofisticados, mas enfrentavam severas restrições para exportá-los.
Essas barreiras estão sendo flexibilizadas.
O Japão começa a procurar mercados internacionais para sua indústria de defesa. Segundo a Reuters, aliados dos Estados Unidos já demonstram interesse nessa abertura, e Tóquio avalia inclusive exportações de fragatas usadas às Filipinas, país diretamente envolvido em disputas marítimas com a China.
Isso significa que o rearmamento japonês poderá produzir um novo ator no mercado mundial de armamentos.
E a trajetória continua acelerando.
O Ministério da Defesa prepara para o ano fiscal de 2027 um pedido orçamentário de aproximadamente 8,9 trilhões de ienes, cerca de US$ 56 bilhões, outro recorde. Entre as prioridades estão drones interceptadores, inteligência artificial aplicada ao comando militar, mísseis de maior alcance, sistemas espaciais, armazenamento de dados militares em nuvem e armas de energia dirigida, como lasers e micro-ondas de alta potência.
O significado estratégico desse investimento aparece claramente quando se observa o mapa.
Taiwan está situada a pouco mais de uma centena de quilômetros das ilhas japonesas mais ocidentais. Uma guerra no Estreito dificilmente deixaria o Japão completamente fora do conflito, especialmente porque grandes instalações militares norte-americanas estão localizadas em território japonês.
O arquipélago de Okinawa concentra parte fundamental da presença militar dos Estados Unidos no Pacífico.
Isso transforma o Japão simultaneamente em plataforma estratégica norte-americana e potencial alvo numa guerra regional.
Para Washington, portanto, aumentar a capacidade japonesa significa distribuir parte do custo militar necessário para sustentar sua posição no Indo-Pacífico.
Para Pequim, significa enfrentar não apenas forças norte-americanas deslocadas para a Ásia, mas uma rede de aliados cada vez mais armados ao longo de sua periferia marítima.
O Japão está no centro dessa arquitetura.
A questão fundamental é que o rearmamento pode produzir dois resultados opostos.
Na interpretação defendida por Tóquio e Washington, uma força japonesa mais poderosa aumenta a capacidade de dissuasão e reduz a possibilidade de que qualquer adversário considere viável uma ação militar contra o Japão ou Taiwan.
Na interpretação chinesa, porém, a construção dessa estrutura reduz a segurança regional porque aproxima sistemas ofensivos das fronteiras chinesas e fortalece uma coalizão militar liderada pelos Estados Unidos.
Nenhuma dessas percepções pode ser simplesmente descartada.
A China efetivamente promove uma expansão militar de enorme escala e exerce pressão crescente no entorno marítimo regional. Ao mesmo tempo, também é factual que o Japão está abandonando progressivamente limitações que definiram sua política militar durante gerações e adquirindo capacidades que ultrapassam a defesa territorial tradicional.
O resultado é uma transformação estrutural do equilíbrio asiático.
O Japão do pós-guerra tornou-se uma potência econômica protegida pelo guarda-chuva militar norte-americano. O Japão que começa a surgir pretende continuar aliado aos Estados Unidos, mas possuir capacidade própria para atacar a grandes distâncias, produzir armamentos avançados e participar diretamente do equilíbrio militar do Indo-Pacífico.
Para uma região que concentra China, Rússia, Coreia do Norte, Coreia do Sul, Taiwan e algumas das principais forças norte-americanas fora dos Estados Unidos, essa transformação dificilmente permanecerá sem resposta.
E é justamente aí que reside o maior risco: o rearmamento japonês não acontece isoladamente. Ele integra uma corrida estratégica na qual cada novo míssil adquirido por um lado passa a justificar o próximo míssil construído pelo outro.






