Keiko Fujimori vence no Peru e amplia avanço da direita na América Latina

Da Redação

Keiko Fujimori foi eleita presidente do Peru após a apuração de 100% das urnas, consolidando mais um avanço da direita na América Latina. A vitória encerra um período de forte instabilidade política no país e amplia um cenário regional marcado pela eleição de governos conservadores em países vizinhos ao Brasil.

Filha do ex-presidente Alberto Fujimori, Keiko assume o comando do país após uma disputa acirrada. Ao longo da campanha, prometeu endurecer o combate ao crime organizado, estimular investimentos privados, reduzir a burocracia estatal e recuperar o crescimento econômico.

Sua eleição ocorre em um momento de grande fragmentação política no Peru, que nos últimos anos enfrentou sucessivas trocas de presidentes, conflitos entre Executivo e Congresso e dificuldades para estabilizar sua economia.

Herança política de Alberto Fujimori

A trajetória política de Keiko está diretamente ligada ao legado de seu pai, Alberto Fujimori, presidente do Peru entre 1990 e 2000.

Seu governo é lembrado por controlar a hiperinflação e derrotar militarmente grupos armados como o Sendero Luminoso. Ao mesmo tempo, ficou marcado por graves violações de direitos humanos, denúncias de corrupção, perseguição a opositores, esterilizações forçadas de mulheres indígenas e o fechamento do Congresso no chamado “autogolpe” de 1992.

Condenado pela Justiça peruana, Alberto Fujimori tornou-se uma das figuras mais controversas da história política do país, dividindo opiniões até hoje.

Durante a campanha, Keiko buscou apresentar uma imagem própria, mas reconheceu a influência política do pai em sua formação.

Direita avança na região

A eleição de Keiko reforça uma tendência observada recentemente em parte da América Latina.

Nos últimos meses, a Colômbia elegeu o ultradireitista Abelardo de la Espriella. No Chile, José Antonio Kast chegou ao governo defendendo uma plataforma conservadora. A Argentina segue sob a presidência de Javier Milei, enquanto El Salvador continua governado por Nayib Bukele, cuja política de segurança recebeu apoio popular, mas também críticas de organismos internacionais por restrições a direitos e garantias individuais.

A consolidação desses governos faz com que o Brasil passe a conviver com um número maior de vizinhos governados por lideranças identificadas com a direita ou a extrema direita.

Resultados distintos entre os governos

Apesar do avanço eleitoral desse campo político, a experiência recente da região apresenta resultados bastante diferentes entre os países.

Na Argentina, o governo de Javier Milei reduziu a inflação em relação aos níveis recordes herdados, mas enfrenta forte recessão, aumento da pobreza e crescimento da insegurança alimentar. Organismos internacionais e universidades argentinas registram expansão da população em situação de vulnerabilidade e dificuldades de acesso a alimentos por parte de milhões de famílias.

No Chile, a gestão de José Antonio Kast convive com críticas relacionadas ao crescimento econômico, ao aumento das tensões sociais e às dificuldades para construir consensos em torno das reformas prometidas durante a campanha.

Na Bolívia, a crise política e econômica agravou-se nas últimas semanas. O presidente Rodrigo Paz decretou estado de exceção após mais de cinquenta dias de protestos e bloqueios de rodovias. Embora um acordo com a principal central sindical tenha reduzido parte das manifestações, o país permanece sob forte instabilidade.

No Brasil, o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro também costuma ser citado nesse debate. Sua gestão foi marcada pelo elevado número de mortes durante a pandemia de Covid-19 e pelo retorno do país ao Mapa da Fome das Nações Unidas, do qual o Brasil havia saído em 2014 e voltou a integrar nos anos seguintes.

Impactos para o Brasil

A eleição de Keiko Fujimori poderá influenciar a política externa sul-americana em temas como integração regional, comércio, segurança de fronteiras e cooperação ambiental.

Especialistas avaliam que o novo cenário exigirá maior capacidade diplomática do governo brasileiro para manter o diálogo com governos de diferentes orientações ideológicas, preservando mecanismos de cooperação econômica e política na América do Sul.

A posse da nova presidente peruana encerra mais um capítulo da longa instabilidade institucional vivida pelo país e reforça a reorganização do mapa político latino-americano em um momento de profundas transformações econômicas e sociais.