Da RT
Analista russo afirma que Nova Délhi mantém autonomia estratégica frente à pressão estadunidense e que multipolaridade cresce com cooperação entre Rússia, Índia e outras potências emergentes.
Em um cenário internacional cada vez mais caracterizado por tensões entre grandes potências e disputas por influência tecnológica, econômica e militar, o analista russo Fyodor Lukyanov — editor-chefe da revista Russia in Global Affairs e presidente do Conselho de Política Externa e de Defesa da Rússia — publicou um artigo argumentando que a Índia não aceitará ditames dos Estados Unidos e seguirá uma política externa soberana e independente. A análise foi divulgada no portal internacional RT nesta quinta-feira, refletindo o olhar de Moscou sobre a evolução da ordem mundial e o lugar de Nova Délhi nesse processo.
Lukyanov destaca que episódios recentes de pressão estadunidense sobre a Índia — incluindo tentativas de limitar a compra de petróleo russo e de integrar Nova Délhi mais fortemente em um quadro geopolítico alinhado a Washington — revelam um esforço americano para moldar uma “ordem internacional” que favoreça interesses dos EUA. Segundo o analista, no entanto, essa estratégia não é apenas ingênua, mas contradiz a própria natureza de uma potência global emergente como a Índia, que busca preservar sua autonomia estratégica e suas relações com parceiros históricos como a Rússia.
O cerne da argumentação é que a Índia, por sua geografia, demografia e capacidade económica, não pode ser reduzida a um cliente passivo nas disputas entre grandes potências. Lukyanov aponta que a própria resposta de representantes indianos em fóruns internacionais — como a negativa em confirmar compromissos de alinhamento automático com a política externa dos EUA — é um sinal claro de que Nova Délhi pretende equilibrar relações, e não obedecer ordens externas.
Essa visão, embora expressa num veículo ligado ao establishment russo, reflete um fenômeno geopolítico mais amplo: a emergência de um mundo multipolar, em que países fora do eixo tradicional Ocidente/Norte Global buscam autonomia e protagonismo sem subordinação única às duas superpotências históricas — Estados Unidos e China. Essa tendência é reforçada pela agenda russa, que desde a Doutrina Primakov enfatiza que um mundo unipolar dominado pelos EUA é inaceitável e que uma ordem multipolar é mais estável e legítima.
Lukyanov ressalta também que a relação Índia-Rússia tem raízes profundas e uma base sólida que transcende interesses conjunturais. As relações bilaterais incluem cooperação política em fóruns multilaterais, projetos econômicos e militares — inclusive acordos de defesa e comércio energético que continuam a ser importantes apesar das pressões externas. Esses laços contribuem, segundo ele, para que Nova Délhi não se sinta compelida a seguir orientações de política externa que conflitem com seus próprios interesses nacionais e de desenvolvimento.
Embora a análise venha de uma perspectiva russa, o argumento coincide com percepções compartilhadas por vários estudiosos de relações internacionais que veem a Índia como um ator chave na construção de um sistema global mais equilibrado, capaz de gerir tensões entre grandes potências sem perder sua própria capacidade de escolha. Esse modelo contrasta com a visão tradicional de política externa dominada por hierarquias rígidas, apontando para uma fase em que interdependências, interesses nacionais e pragmatismo definem as alianças e rupturas.
A discussão também se insere num momento em que a disputa geopolítica entre Estados Unidos e Rússia — intensificada pelo conflito na Ucrânia e por reconfigurações estratégicas no Indo-Pacífico — está levando países como a Índia a recalibrar suas prioridades, escolhendo uma diplomacia baseada em “equilíbrio” e não em subordinação estratégica.
Nesse contexto, Lukyanov conclui que a Índia “não tomará ordens de Washington”, não por animosidade, mas porque sua visão de soberania exige autonomia decisória frente às pressões externas, um traço que — segundo ele — define a nova ordem mundial multipolar em formação.






