Lula avalia ampliar Desenrola para socorrer classe média sufocada por juros e dívidas

Da Redacao

Novo modelo em estudo no Palácio do Planalto pode beneficiar trabalhadores que ainda mantêm contas em dia, mas vivem pressionados pelo custo de vida, cartão de crédito e juros abusivos.

O governo Lula começou a discutir internamente uma nova ampliação do programa Desenrola Brasil, desta vez voltada não apenas para inadimplentes, mas também para milhões de brasileiros que ainda conseguem manter as contas em dia, embora estejam financeiramente estrangulados pelo custo de vida, pelos juros elevados e pelo endividamento crescente. A proposta representa uma mudança importante na lógica do programa original. O primeiro Desenrola foi criado para ajudar brasileiros negativados a renegociar dívidas e recuperar acesso ao crédito. Agora, o governo passou a enxergar outro fenômeno econômico que cresceu silenciosamente no país: o das famílias adimplentes que sobrevivem permanentemente no limite financeiro.

São trabalhadores que pagam contas atrasadas antes de negativar, parcelam consumo básico no cartão, renegociam faturas continuamente, rolam dívidas entre bancos e comprometem grande parte da renda apenas para evitar entrar oficialmente na inadimplência. Na prática, trata-se de uma espécie de “classe média endividada invisível”. E os números ajudam a explicar o tamanho do problema. Pesquisas recentes da CNC e da Fecomércio mostram que o endividamento das famílias brasileiras atingiu recordes históricos em 2026. O cartão de crédito aparece como principal mecanismo de endividamento e já funciona, para milhões de pessoas, quase como extensão artificial da renda mensal.

O governo percebeu que existe um enorme contingente social vivendo exatamente nessa situação: pessoas que não são oficialmente inadimplentes, mas também não conseguem respirar financeiramente. É gente que trabalha, paga contas, mantém nome limpo, mas vive permanentemente esmagada por parcelamentos, juros rotativos, empréstimos pessoais, financiamentos e custo de vida elevado. Dentro do Planalto, auxiliares de Lula passaram a defender a criação de linhas especiais de crédito com juros menores justamente para esse público. A ideia seria permitir reorganização financeira antes que essas famílias entrem definitivamente em colapso econômico.

A discussão possui enorme peso político e econômico porque o Brasil vive hoje um paradoxo relativamente complexo. A economia voltou a crescer, o emprego melhorou, o consumo aumentou, mas os juros continuam extremamente altos. Isso produz uma situação contraditória. Muitas famílias conseguem trabalhar e gerar renda, mas continuam incapazes de reconstruir estabilidade financeira porque parte gigantesca do orçamento é drenada por cartões, parcelamentos, consignados e crédito bancário caro. Em vários casos, pessoas pagam as contas rigorosamente em dia enquanto acumulam níveis altíssimos de sofrimento financeiro.

O governo passou a tratar esse fenômeno como questão econômica central para 2026. Existe uma percepção crescente dentro do núcleo político de Lula de que o próximo grande desafio social brasileiro talvez não seja apenas pobreza extrema, mas também o sufocamento financeiro permanente da população trabalhadora e da classe média baixa. Isso ajuda a explicar a nova discussão sobre o Desenrola. Nos bastidores, integrantes do governo descrevem o programa como possível ferramenta de alívio econômico, estabilização social e recuperação de poder de consumo.

Ao mesmo tempo, Lula tenta reconstruir uma lógica econômica fortemente baseada no fortalecimento do mercado interno. Historicamente, o lulismo sempre operou com uma percepção relativamente clara: quando famílias conseguem consumir, respirar financeiramente e reorganizar minimamente a vida econômica, a economia inteira gira. Por isso programas de crédito popular, renegociação de dívidas, expansão do consumo e fortalecimento da renda sempre ocuparam posição central nos governos petistas.

Mas existe outro elemento importante nessa nova proposta. O governo percebeu que parte da classe média começou a viver uma espécie de ansiedade econômica permanente. Mesmo famílias com emprego formal passaram a conviver diariamente com medo de perder renda, medo de endividamento, medo de não conseguir pagar cartão, medo dos juros e sensação constante de instabilidade financeira. O impacto psicológico disso é enorme. E politicamente também. Porque uma sociedade permanentemente sufocada economicamente se torna mais vulnerável ao medo, à radicalização, à insegurança e ao ressentimento social.

Dentro do Planalto, existe a avaliação de que aliviar parte dessa pressão pode produzir efeitos econômicos e políticos importantes. Ao mesmo tempo, o debate reacende uma disputa histórica no Brasil sobre qual deve ser o papel do Estado diante do sistema financeiro. Setores ultraliberais defendem que o mercado deve regular sozinho crédito e juros. Já o governo Lula sustenta que o Estado precisa atuar para impedir que milhões de famílias sejam esmagadas por mecanismos financeiros predatórios.

A discussão vai muito além de renegociação de dívidas. Ela envolve modelo econômico, papel dos bancos, distribuição de renda, consumo, crescimento e estabilidade social. E talvez exista justamente aí o ponto mais estratégico da proposta. O novo Desenrola em estudo não tenta apenas salvar inadimplentes. Ele tenta impedir que o Brasil continue produzindo uma sociedade inteira vivendo permanentemente no limite do colapso financeiro.

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