A viagem do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aos Estados Unidos acabou revelando mais sinais de isolamento político do bolsonarismo do que demonstrações concretas de proximidade com Donald Trump.
Em reportagem do jornalista Leandro Prazeres, a BBC News Brasil detalhou bastidores da passagem de Flávio por Washington, marcada por uma agenda esvaziada, tentativas de aproximação com o entorno trumpista e forte exposição nas redes sociais.
Segundo a reportagem, o senador circulou por restaurantes sofisticados da capital americana, compartilhou imagens consumindo steaks em tradicionais casas de carne de Washington, publicou fotografias em classe executiva durante o voo e apareceu em momentos de descontração tomando sorvete pelas ruas da cidade.
Apesar da intensa divulgação da viagem, até o momento não houve confirmação de encontro oficial entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump. O episódio reforçou a percepção de que parte da elite bolsonarista tenta manter uma imagem de prestígio internacional enquanto enfrenta dificuldades reais de acesso político ao núcleo do trumpismo.
Nos últimos anos, viagens aos Estados Unidos passaram a funcionar como instrumento de construção de imagem para setores bolsonaristas. Fotografias, encontros e circulação em ambientes ligados ao trumpismo frequentemente são apresentados como demonstração de influência política internacional, mesmo quando os resultados concretos permanecem limitados.
Agenda vazia e busca por prestígio
A viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos ocorre sem confirmação pública de encontro com Donald Trump e em meio a um cenário internacional turbulento. Nos últimos dias, Trump concentrou esforços nas negociações envolvendo o conflito com o Irã e chegou a faltar ao casamento do próprio filho, Donald Trump Jr., alegando compromissos ligados à crise no Oriente Médio.
Mesmo assim, aliados de Flávio avaliam que uma fotografia ao lado do presidente americano poderia gerar um fato político importante para o bolsonarismo, especialmente após a divulgação de áudios revelados pelo Intercept Brasil nos quais o senador aparece pedindo R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro para supostamente financiar o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro.
Uma eventual reunião também serviria como tentativa de demonstrar prestígio internacional da família Bolsonaro menos de um mês após Trump receber o Presidente Lula na Casa Branca e elogiá-lo publicamente.
Nos bastidores, porém, cresce a percepção de esvaziamento político da agenda. A última aproximação pública entre integrantes do clã Bolsonaro e Trump ocorreu há cerca de 18 meses, quando Eduardo Bolsonaro participou de um evento promovido pelo republicano na Flórida.
Posteriormente, Eduardo e Michelle Bolsonaro acompanharam a posse presidencial à distância, no Capital One Arena, espaço reservado ao público sem acesso direto aos ambientes centrais da cerimônia oficial.
Caso o encontro entre Flávio e Trump não aconteça, aliados reconhecem que o episódio pode reforçar a impressão de isolamento político internacional do bolsonarismo e ampliar os questionamentos sobre a viagem, realizada em meio às suspeitas envolvendo Daniel Vorcaro e o financiamento do filme “Dark Horse”.
Na semana passada, ao ser questionado por jornalistas brasileiros, Flávio afirmou em inglês que não teria solicitado a reunião e que o convite teria partido da própria Casa Branca. Até agora, porém, o senador não apresentou detalhes públicos sobre a agenda nem esclareceu os objetivos concretos da viagem.



